Me Puseram Uma Corda

 

 

 

 

 

(Itabi – SE)

Me puseram uma corda no pescoço e me colocaram de pé numa cadeira. A corda com um trançado loiro e brilhoso atritava com a pele sensível do meu pescoço e, embora eu não pudesse ver, o ardor indicava vermelhidão; a cadeira sambava pouco, já que eu tentava me mexer o mínimo possível, prevendo uma queda. 

Minha visão estava embaçada por uma neblina, uma espécie de fumaça que mudava de cor toda vez que abria e fechava os meus olhos; a cabeça raspada estava em chamas, comportando uma mente incontrolável e em processos intensos de alucinação. Meu corpo era gelado, em contrapartida – o suor descia pela curva funda das minhas costas e era desviado pela curvatura do meu quadril. Sentia-me prestes a entrar num estado de delírio, loucura, demência. Mas mantinha-me numa postura impecável de quem não sente medo.

Eu não sabia, já naquele ponto, se ia acabar movendo a cadeira ou se ela seria chutada; não sabia se estava pronta para entender (ou não entender) o que vem depois, se saberia lidar com o vazio e o desaconchego do nada ou se haveria algo depois. Todo ruído vindo de fora soava como um fim e as batidas do meu coração eram intensificadas. A incerteza me fazia tremer, convulsionava no meu rosto lagrimas que não podiam ser expulsas integramente porque o risco de soluçar me levaria à queda.

Me puseram uma corda no pescoço quando eu enxergava quase nada, quando só era capaz de ouvir vozes e, sobretudo, confiar. Recordo da maciez dela se apertando contra minha pele, do toque quente dos dedos que a prenderam em mim e da ousadia da boca inimiga em beijar a minha vulnerabilidade.

Me puseram a corda quando pedi para sair, quando implorei que me deixasse ser livre novamente e falei que nada me machucava mais do que estar ali. Puseram-me de pé, em cima da cadeira pesada que fez as costas do outro doerem. Suas mãos pegaram com força os meus braços há muito tempo quietos e levantaram meu corpo sem estrutura, sem animo e sustentado por uma corda no pescoço. Tropeçamos juntos e o homem cujas feições eu já não lembrava se apressou em me segurar e impedir que a corda se afundasse na pouca carne; colocou-me em cima da cadeira e cantarolou, chamou-me pelo apelido que costumava me chamar alguém especial e senti-o dançando esnobemente. Pedi que tirasse o capuz, que deixasse-me ver os seus olhos.

Senti um corpo se aproximar do meu, percebi que estava em pé numa cadeira também, numa proximidade criminosa do meu corpo amarrado. Fez-me ver a luz e eu quase ceguei com a doçura dos seus traços: a pequenez da testa, a sobrancelha curta, os olhos negros, fundos e apertados, as bochechas secas, o maxilar definido, a boca miúda e pálida. Ele sorriu para mim, quase colando boca com boca; deixei cair nos seus lábios entreabertos uma lagrima de ódio, de injustiça e de confusão – por que, logo ele, logo ele que amo, por que logo as suas mãos me puseram uma corda no pescoço? Olhamo-nos e respiramos fundo num tempo só, estava desesperada e ele calmo. A única coisa que me passava era entender a que ponto pudemos chegar, tal qual foi a minha permissividade para deixa-lo me colocar de pé, no alto de uma cadeira, com uma corda no pescoço…

O negro olhar que outrora amei se fechou, quis beijar suas pálpebras quentes e finas como já fiz e sentir meu peito aquecendo – mas eu era somente medo, pavor, desespero e entrega. Quando se abriu, uma faísca brilhosa me inundou de arrepios: quase vi uma lagrima se formar. Desceu da cadeira e ficou abaixo de mim, fez menção de caminhar para fora do quarto escuro e eu me desmantelei em gritaria e soluços comprimidos num corpo que não podia mover-se, pedi que voltasse e me tirasse dali, que me deixasse voltar a caminhar, ainda que sozinha e não ao seu lado.

Ele parou. Olhou intimamente nos meus olhos presos por uma corda no alto, sorriu. Ele sorriu. Seu rosto transformou-se num mar de fogo e eu vi em cada pigmento negro da sua pele a cor do diabo; ele gargalhou e eu sucumbi ao desespero. Gritei quanto odiava-o, quanto de arrependimento tinha por tê-lo deixado entrar na minha vida; gritei o nome dele e um outro que o quebrava, ele olhou-me assustado e correu para junto dos meus pés. Quis saber. Gritava comigo e já não sorria como antes. Foi a minha vez de sorrir, de gargalhar.

Olhei para o rosto embrutecido e perguntei como posso amar quem me amarrou uma corda no pescoço e me pôs de pé numa cadeira. Chorei em silencio dessa vez, deixando que ele se desesperasse com o silencio que seguiu a minha confissão. Com as mãos na cabeça ele gritou novamente, queria saber e eu não diria; se aproximou, tocou as minhas pernas e eu me desfiz em lagrimas agressivas. Tive tempo de olhá-lo novamente e ver seu rosto tomado pelo ódio, vazio de amor. Me puseram uma corda. E, sem fazer muito barulho, fui eu quem açoitei o meu pescoço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *