Mate-me, Querido

 

 

 

 

 (Salvador – BA)

– O problema deve ser bem esse.

Dei um pulo de susto. Estava tão distraído com um livro de poemas do Bukowski. Eu não estava sozinho, mas estava sozinho apenas no banco… o resto da praça estava a maior festa… uma bandinha tocava músicas de carnaval. Muitos casais se agarrando, bêbados e felizes… grupinhos de hipsters dançavam como índios invocando a chuva. Eu era apenas um ser invisível. Existiam outros como eu, obviamente, mas seres invisíveis não interagem. Eu era apenas mais um. Um, que desistiu. Quando a gente desiste de pertencer a algo, um grupo, ou alguém… quando a gente desiste de ser amado, de ser aceito, de emitir opiniões… nos tornamos seres invisíveis.

Mas, de repente aquela voz ao meu lado surgiu dizendo: “O problema deve ser bem esse.”. Olhei pro meu lado, assustando, para ver se era comigo… e realmente era… comigo. Porque ela me olhava e parecia impaciente, aguardando uma resposta.

– t.. t… tá falando COMIGO?!

– Só malucas olham para um cara enquanto estão falando com outro cara. Você não acha que eu sou maluca, acha?! – Ela perguntou seriamente. Seu olhar julgava, parecia me despir… seu cheiro passou dançando pelo meu nariz, era baunilha…

Eu dei uma risadinha, porque a única explicação plausível era que ela estivesse bêbada e/ou querendo curtir com a minha cara. Talvez eu fizesse parte de alguma aposta, sei lá.

– Ei. AQUI. – Ela fez com o dedo apontado pros próprios olhos… – Eu não tô curtindo com sua cara… e nem dando em cima de você… só puxando conversa.

Me senti confiante, rapidamente. Porque não existia a menor cobrança… não era pirraça, mas não era paquera. Era só uma conversa, eu podia me engajar naquilo, por um tempo antes de ir pra casa.

– Humm… Então, como é o seu nome e QUE problema é esse, que você diz?

– Kamila! E o problema é o tal do “Encaixe”. As pessoas são meio como parte de vários quebra-cabeças. E elas então vão se encontrando… e se encaixando, se preenchendo e ficando juntas… como amigas, parentes, amantes, etc.

– é… acho que já sei disso, já há algum tempo. Muito tempo, na verdade. – Respondi olhando o além. – Ela sorriu, também olhando o além. De repente tive a sensação de que estava numa ilha…, com ela.

Passaram-se pelos meus olhos as duras realidades de um período… Um período em que eu não tinha notado ainda… Um período de vários anos, e todas as imagens chegaram de forma avassaladora. Todos os “não’s” que recebi, todas as tentativas, os períodos em que tive fé… e que acreditei que tinha encontrado finalmente um amor, ou um emprego perfeito, ou amigos perfeitos e leais… tudo. E no final das contas, agora… o que eu tinha era um trabalho mediano, uma vida solitária, uma dispensa cheia de comida, muita música clássica e samba-canção à disposição, pra escutar em casa (isso é até bom…), a internet cheia de pornografias e filmes piratas… e…, só.

– Nossa! Sua cabeça foi parar aonde agora, querido?

– Longe. E perto. – Respondi, olhando-a fixamente pela primeira vez. E… meu Deus, como Kamila era linda…

Seu rosto era branquinho e parecia de cera. Tinha olhos enormes e vivos. Quando sorria, sua boca abria tanto que se formavam duas covinhas em sua bochecha. Ela parecia louca… e mesmo rindo bastante enquanto falava, havia algo essencialmente infeliz em suas expressões, que me lembravam de ninguém mais, ninguém menos… Que eu mesmo.

– Eu tenho um monte de coisas. – Ela disse, mais uma vez olhando pra frente. – mas, eu não gosto de nenhuma delas. Eu tenho um marido. Ele estava ali, com aquela gente. Ali. – Continuou, apontando para um grupo de pessoas, aparentemente muito ricas, extremamente eufóricas e embriagadas.

Involuntariamente tentei por a mão sobre a mão dela, numa tentativa babaca de consolo… mas ela a empurrou, assustada… e meio indignada. Me olhou com uma cara de: “que diabo você está fazendo??”.

– Foi só pra consolar…, a mão. Eu não sou bom…, com esse tipo de coisa.

– Tranquilo, querido. Mas, continue sendo um fantasma, pelo menos por enquanto, ok?

Dei um sorriso tímido, porque entendi – e quis entender… – o “por enquanto”, com uma esperança de que as coisas pudessem se transformar…

– E o meu problema é esse. – Eu disse.

– É… eu sei… você se apega demais, né?

– Demais! Sempre! Antes da hora… ou tarde demais. E de repente todo mundo… sei lá. Todo mundo vira fumaça, e eu fico tentando catar essa fumaça toda… e colocar num pote e guardar em minha casa. Mas, não dá, nunca dá. Portanto eu prefiro ficar sozinho. Eu prefiro ficar em casa assistindo Netflix. Ou aqui sozinho, mas não como hoje… não desse jeito.

– Não comigo. – Ela completou, mais uma vez me olhando e rindo lindamente…

– Não com você. – Conclui.

De repente Kamila deu um adeusinho em direção ao grupo lá longe, sorrindo com um jeito de patricinha afetada. De repente ela não parecia ela mesma. Mas quem eu pensava que eu era pra já achar que a conhecia?

– Pronto. Ufa…!

Kamila então pegou a minha mão e a apertou com as duas dela, depois a pressionou contra o seu peito, de olhos fechados. Ela estava quente, e seu coração parecia pular de seu peito. Como se eu fosse importante… Como se eu fosse o cara mais importante que ela conhecia. Aquilo estava ficando surreal demais, fora de meu controle. E eu amava e odiava cada minuto com ela.

– Vamos! – Ela gritou.

– Ué? Pra onde?!

– Apenas venha!!

Me puxou e saímos correndo… eu odeio correr e ela parecia saber disso, pois me puxava com força e me olhava com pirraça, gargalhando parecendo uma criança. E quando ficamos de pé, reparei em seu corpo. Ela usava um short jeans que delineava perfeitamente o seu quadril e nádegas, que eram absurdamente voluptuosos e perfeitos. Sua barriguinha estava meio à mostra numa camiseta branca meio velha… e seus peitos eram pequenos, mas não o suficiente para pularem junto com seus passos, como se fossem vivos e dançassem de alegria.

Chegamos então num terreno baldio ao lado de um casarão antigo, onde moravam dois velhinhos.

– Moram dois velhinhos aqui… – Eu alertei com um jeito abobado, parado em frente à Kamila, evitando qualquer tipo de contato visual. Ela sorria e ofegava, me olhando e se divertindo com a minha cara idiota.

– Olha, falando sério… eu não estava fazendo charme, do tipo “diferentão-misterioso”, Kamila… eu realmente abandonei esse tipo situação… eu não tenho algo, nem alguém, há… cacete, muitos anos. – Expliquei com voz nervosa e gaguejada, porém com muita sinceridade e tristeza.

Ela parou de rir e voltou ao seu olhar penetrante inicial. Depois me beijou e transamos ali mesmo, em pé… o que não foi nada confortável e nem maravilhoso… apenas, foi.

O melhor de tudo, com Kamila foram os períodos em que ficamos apenas nos olhando, sem nada dizermos um ao outro. Era como se nossas almas se olhassem e ficassem dizendo coisas importantes entre si. Coisas que em toda a nossa vida, todas as pessoas, jamais conseguiram falar.

– Mate-me, querido.

Kamila tirou do bolso do short uma pequena faca. Estava tão limpa e lustrada que brilhava e refletia a luz branca do único poste que havia por perto. Meu corpo tremeu e de repente senti um frio tremendo. Comecei a chorar.

– Você me deu tudo. – Ela disse. As lágrimas saindo de seus olhos a deixaram ainda mais linda. Seus olhos pareciam cristais molhados.

– Mas…

– Não tem mais. Você não entende isso?! Você me deu tudo e eu te dei tudo… a gente pôs tudo… onde não havia NADA!

Quando dei as costas, ganhando a rua, olhei pra trás mais uma vez… e vi o corpo de Kamila, lá, estendido no chão. Ela só queria alguém que acabasse com sua vida chata. Mas não um criminoso e também não uma pessoa comum, que acabasse sendo prejudicada. Mas sim, um ser detectável… um ser invisível. Dei um suspiro e continuei meu caminho, o cheiro de baunilha cobria todo o meu corpo. Quando eu tomasse banho e o cheiro saísse, tudo estaria acabado… e eu assistiria minha Netflix e comeria alguma coisa. Estava faminto…

– Ela não perguntou meu nome… – Pensei.

FIM.
Nota: Quando eu estava escrevendo este conto, estava me sentindo incrivelmente sozinho na multidão. Eu estava sentado no computador do sebo de livros em que sou dono, enquanto muitas pessoas estavam lá fora: amando, enlouquecendo, gritando, sussurrando. Crianças corriam enquanto pais e mãos bebiam cerveja em cadeiras. Quando uma mulher linda (talvez a mulher mais linda da cidade) entrou e conversou comigo. Ela me disse que agora estava disposta a “abraçar o mundo”. E então eu completei “Ainda bem que você está abraçando, em vez de empurrar.”, ao que ela respondeu, sorrindo, mas… com alguma tristeza: “já tentei empurrar… mas não deu certo.”.
E a vida seguiu.

One thought to “Mate-me, Querido”

  1. Muito bonito meu caro Henrique!
    A vida nos leva a devaneios, a quimeras que se tornam um sonho lindo de viver!
    Transportar essa vivência onírica para o papel estando constantemente entre livros é a exposição de uma arte!
    Só lamentei a passagem com o cheiro de baunilha, pois acredito ser horrível sentir tal aroma em uma pessoa!!

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