Máquina Quente

 

 

(Maringá-PR)

Vários amigos me rejeitaram depois que assumi meu relacionamento. Jenny – seu apelido carinhoso era Jenny – já era conhecida da turma, e todos admiravam sua beleza e a formosura de suas curvas. Levei-a comigo para o jogo de futebol e quando anunciei minha intenção de noivado todos ficaram chocados. A princípio riram, incrédulos.

Em seguida, ficaram surpresos com a seriedade de minhas palavras. E por fim não aceitaram nossa união. Loucura, julgaram uns. Absurdo, censuravam outros. Aberração, atacavam alguns ignorantes. Como puderam ser tão rudes, e, ainda mais, na frente dela?

— É porque ela é morena? – questionei, um tanto ofendido.

— Não, Jorge! – respondeu Antenor, preocupado. — É porque sua namorada é um carro!!

Antenor era o mais compreensivo de todos e acompanhou-me de volta para casa.

— Jorge, você entende que nós dois estamos dentro do seu Fusca, não é mesmo?

— Entendo perfeitamente a situação, mas Jenny sabe que você é só um velho amigo, e está sentado no colo dela sem segundas intenções.

— Jorge, você sempre foi um cara tímido, seus relacionamentos amorosos não duravam mais do que alguns meses, mas você não pode estar levando a sério um casamento com este carro! Talvez seja uma boa ideia você procurar acompanhamento psicológico.

— Concordo, amigo. Quer dizer, eu tenho 30 anos e Jenny é um Fusca 1959. Talvez eu sofra de um caso de complexo edipiano.

Antenor foi um dos poucos amigos que vieram ao casamento. Casamos ao ar livre, no estacionamento do shopping, como Jenny gostaria. Bárbara, amiga de longa data e que sempre aceitou nosso relacionamento desde o início – já que ela era uma saxofonista apaixonada pelo seu instrumento e com ele perdeu sua palheta –, foi quem conduziu os votos e organizou a cerimônia: amigos do noivo sentados à direita, amigos da noiva estacionados à esquerda.

Gaspar deu-me de presente de casamento um óleo perfumado trazido da Índia.

— Para facilitar as coisas na noite de núpcias do casal, sabe – sussurrava meio atrapalhado e procurando não faltar com o decoro. — Tipo, para ajudar na lubrificação, sabe, dos canais. Eu imagino que, agora casado, Jenny vá estrear o seu cano de descarga com o maridão – engasgava, enquanto dava tapinhas nas minhas costas.

— Ora, meu velho amigo, não seja um pervertido. Você sabe o quanto sou conservador e considero a penetração no encanamento traseiro antinatural e imoral. Por favor…!

Em nossa lua-de-mel, preparei para nós uma bebida destilada. Eu bebia vodca com limão, e Jenny, a gasolina aditivada que ela gostava. Toquei “Mustang Sally” no seu rádio para entrarmos no clima. Antes de dar ignição, iniciei as preliminares, afagando seu câmbio e engatando cada marcha provocantemente – primeira, segunda, primeira, segunda, quinta, segunda, quinta, segunda, terceira, quarta, terceira. Depois de estimulada, nosso rádio tocou “My Sharona” e Jenny ficou ligada. Ela era uma máquina quente e gostava que eu começasse devagar, depois acelerasse, depois desacelerasse, então pisasse fundo, e mais fundo, e mais fundo. Ao som de “Infinita Highway” os pneus dela cantavam e queimavam e fosse como se estivéssemos nas nuvens. Como eu amava Jenny!

Algumas pessoas duvidavam que teríamos uma vida normal. Mas não encontrei nenhuma dificuldade em me socializar com Jenny. Íamos ao cinema do Drive-in assistir nossos filmes preferidos: “Transformers” e “Velozes e Furiosos”; Lanchávamos no Drive-thru; passeávamos ao pôr-do-sol na avenida à beira-mar; até íamos a festas – automotivas. E aos que não nos respeitavam, sempre defendi Jenny. Certa vez, quando passávamos em frente a uma obra, um pedreiro gritou: “Mas que capô de Fusca!”. Deixei Jenny na esquina e fui tirar satisfações por tamanho desrespeito a uma mulher casada.

Claro que nosso casamento também tinha altos e baixos. Quando Jenny brigava comigo, ia dormir na garagem. Uma vez, tivemos uma discussão séria no trânsito. Eu havia chamado a atenção dela por ter acendido o farol para um Camaro, e ela vinha com argumentos emotivos e imaturos como eu preferir ela a outros Fuscas só porque ela não pagava IPVA, essas coisas. Brigamos e Jenny bateu em um hidrante, deixando uma marca no para-choque dianteiro. Torcia para que eu não fosse denunciado na delegacia por violência doméstica.

Confesso também que era um marido ciumento e fiquei muito preocupado quando tive que deixar Jenny na oficina para tratar do para-choque. Aquele mecânico a examinava indecorosamente. E ainda por cima estampava a parede da oficina com fotos de outros carros sem a lataria. Vi até umas fotos de motocicletas. É certo que Jenny sabia que eu guardava algumas revistas de carros importados na gaveta da cômoda, mas eu já tinha explicado que isso era apenas um fetiche para apimentar o apetite. Afinal, eu tinha minhas necessidades masculinas.

Depois de alguns anos de casamento, contei para Antenor que já era hora de eu e Jenny termos um filho.

— Você sabe que sua Jenny não pode engravidar, certo?

— Não seja ridículo, Antenor. É claro que sei. Por isso vamos adotar uma bicicleta.

Nossa pequena Cindy veio no natal. Todo final de semana saíamos para passear. Cindy subia nas costas de Jenny e juntos brincávamos nos parques e bosques da cidade. O tempo foi passando e eu percebia que breve chegaria o dia em que Cindy sairia de casa para viver a própria vida, afinal, seus para-lamas estavam mais firmes, e ela já tinha 18 – marchas. Certa tarde, um atleta da cidade pediu minha bênção para levá-la a um tour na França. Eu sabia que nunca mais veria minha menina, agora crescida. Uma lágrima escorreu quando ela deixou de lembrança sua campainha de quando era criança, e eu tenho certeza de que Jenny recordou-se da cena do Mágico de Oz em que o Homem de Lata chorava durante a despedida de Dorothy.

Agora sem Cindy, refletia no quanto o tempo passa rápido. Chamei meu advogado para formalizar meu testamento. Após minha morte, deixarei que Jenny seja desposada pelo rico colecionador de veículos antigos da cidade. Afinal, alguém como Jenny não merecia ficar viúva para sempre.

 

7 thoughts to “Máquina Quente”

  1. Quando vi o nome do conto, que havia ganho o destaque do mês, confesso que não me senti tentado a lê-lo, mas a curiosidade a respeito do motivo de ter sido escolhido foi mais forte. Todavia, a surpresa foi positiva, pois a trama é original, em certo sentido. Além disso, é um trabalho bem feito, cujo texto se desenvolve uniforme, sem altos e baixos, com as devidas concordâncias, sem que a gramática brigue com o tema literal.
    Peço que me perdoe se analiso a obra, mas o faço sem a intenção de julgá-la. É apenas um prazer pessoal.
    É um prazer conhecer a produção de um verdadeiro artista.

  2. Muita inspiração nessa hora, hein caro escritor!
    Seu conto me levou as lembranças dos versos do Chico em Geni e o Zepelim especialmente no trecho: “Mas de fato, logo ela/ Tão coitada e tão singela/ Cativara o forasteiro/ O guerreiro tão vistoso/ Tão temido e poderoso/ Era dela, prisioneiro/ Acontece que a donzela – e isso era segredo dela/ Também tinha seus caprichos…”
    Seu texto nos dá satisfação ao ler. Como num verdadeiro conto breve, tem inicio, meio e fim e ideias e palavras com sentido dúbio são manipuladas com maestria! A ortografia e a gramática bem empregadas completam o texto. Assim sendo jamais se joga pedra na Jenny e muito menos na Cindy!
    Parabéns!

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