Manhã de Primavera

 

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(Maringá – PR)

As últimas pétalas de ipêipe-amarelo amarelo pincelavam pela longa calçada, assíduas ao começo da nova estação. Gotículas de orvalho prateavam como um caleidoscópio sobre os finos espinhos de um pequeno cacto. Uma pálida orquídea brotava solitária enxertada no topo de um arbusto, ostentada como um cálice sagrado. O sol acordava descortinando-se acima de um lençol de nuvens peroladas, desdobrando as finas pálpebras turquesa daquela manhã de primavera, seus feixes de luz acariciando como dedos afáveis a copa das árvores, dedilhando suas madeixas florais com seu cafuné dourado, depois despindo por sua vez cada árvore da escuridão, como um amante ardente.

Um casal que caminhava pela calçada, acompanhando a filha até a escola adiante, parou para admirar brevemente a lua minguante que se deitava por trás da cidade ao longe, como se o sol erguendo-se do outro lado incitasse a lua a brincar de esconder-se. A mulher foi fitando as casinhas distantes, perfiladas no limiar entre o céu e a terra com seus telhados brancos e chaminés cinza, turvadas pela neblina matinal quase fazendo-as flutuar por sobre o horizonte, que logo as comparou com uma cidadela celestial, sorrindo em paz interior afinal, e retomando o caminho cimentado.

A cor das aráceas vermelhas que se enfileiravam pelo meio-fio competia com a ruivez flamejante das grevíleas e das acácias. O espaço das pequenas borboletas que enxameavam o relvado disputava com uma constelação de jovens filhotes de anu-preto com seus olhos de gude e bicos de opala explorando e pululando aqui e ali como vírgulas de brilho azul por entre a grama alta, por vezes cadenciada pela brisa. O perfume dos jasmins rivalizava com o aroma do café da cantina. O burburinho dos pássaros que piavam e chilreavam de seus ninhos concorria com o pio e o chilro das crianças aninhadas no portão da escola.

Carros paravam defronte, de onde brotavam outras tantas crianças, cada qual tendo recebido beijocas dos pais que as vertiam – ao sul do equador os filhos são beijados pelos pais ao chegarem à escola. Recostado no muro, o atento zelador reparava nas pequenas cascas de casulo das joaninhas que nasceram no início de setembro – e pela cor da casca sabia até qual a cor das asas. Um bem-te-vi que observava a tudo do telhado da escola, desceu em um rasante por sobre o muro e pousou sossegadamente na calçada, inclinando a cabeça de um lado para o outro como se quisesse ouvir mais de perto as conversas das pessoas. E como se os esperasse, parara para ouvir um homem e seu filho que habitualmente passavam em frente à escola no mesmo horário, e o pai sempre contava ao filho historietas sobre monges budistas e deuses gregos. O menino ria das sombras que os acompanhavam por sobre o asfalto caminhando como gigantes desengonçados.

De repente, uma nuvem verde e tagarela de maritacas sobrevoou o campo de um lado ao outro para depois voltar-se como um bumerangue de confetes até embrenhar-se na copa de um cedro frondoso. O bem-te-vi vigilante decolou da calçada e empoleirou-se no elevado de um poste de luz, assistindo àquela manhã de camarote, enquanto flores desabrochavam, pássaros gorjeavam, e as pessoas iam e vinham, subindo e descendo pelo horizonte como viajantes em uma peregrinação insólita. E, do alto de seu trono, com o bico empinado e o ar soberbo de quem não tem medo de nada, nem mesmo do homem, o bem-te-vi anunciou que havia visto – “viii!” – o pai carregar o filho nos ombros e, inflando altivo o peito emplumado, meditava em uma lagartixa que escalava o muro, no território que era seu vasto mundo, nos mistérios da vida, e no homem, este esquisito pássaro que não voa, assim pensava o bem-te-vi, que, estendendo suas asas de leque, voou dali, riscando o anil como uma leve, destemida, e insistente interrogação de peito amarelo.

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