Malalú

 

 

 

 

(Osasco – SP)

Acabara de completar nove anos. Nos moldes ocidentais estaria em uma escola plena, recebendo a devida instrução e interagindo com outras crianças. Mas no leste do continente africano não era assim. Tinha que ajudar nas tarefas diárias da família.

Sua ajuda era vital. O amassar do grão do milho, tão bem feito como o de um adulto. Pescava com o pai o bagre barrento, que, salgado, supria a fome sempre presente.

Como todos no povoado, era alta e magra, nariz redondo e proeminente. Não tinha um padrão belo de acordo com os locais, mas, segundo eles, a vivacidade de seus olhos valia duas vacas e uma cabra. Sexta filha de uma prole de onze, recebera o nome de Malalú (a esperta), no dialeto da tribo.

Mesmo com todos os afazeres ela ainda se divertia. Estava muito à frente dos irmãos.

E assim os anos passaram. Faltava um mês para os treze. Tornara-se mulher. Logo um moço da aldeia a cortejaria.

Mas a grande seca chegou. Primeiro foram as plantações. Depois os animais de trabalho e sustento. Os mais velhos se reuniam, mas não tinham perspectiva e nem para onde ir. Até o bagre barrento sumira. Todavia, nem tudo estava perdido.

Um acampamento fora montado a poucos quilômetros. Ajuda do governo chegara, porém, alimentos só em troca de favores com o administrador, um negro alto e gordo.

Sempre que ia com o pai carpir o local em troca de migalhas, observava as mulheres dispostas a trocar favores sexuais por alguns grãos de comida.

Os dias passavam. A chuva não vinha. A fome começava a matar.

Naquela noite, vendo os irmãos mais novos chorarem com as mãos na barriga, chamou o pai para fora do casebre.

A conversa foi séria. Os dois se abraçaram, concordando. Lágrimas eram difíceis, devido à desidratação. Num gesto que só um pai que ama seus filhos sabe, acariciou o rosto de Malalú. Nenhum deles conseguiu dormir,

Ela levantou cedo. Seus pensamentos estavam claros. Sabia o que tinha de fazer. Era um sacrifício, mas a família vinha em primeiro lugar. Cumpriu suas parcas tarefas.

Começara o entardecer quando se dirigiu ao acampamento. Demorou bastante, como se precisasse criar coragem para o que viria a seguir. Respirando fundo, entrou na cabana do administrador. Ele estava só.

A conversa foi rápida. Como um pecuarista que olha um boi reprodutor na hora da compra, examinou-a, lascivo, abrindo um largo sorriso.

Foi até a despensa, coletando duas canecas de milho, uma de feijão e um naco de carne defumada. Afinal ela nunca tivera relação. Seus olhos brilhavam.

Caminharam por várias centenas de metros, até uma caverna, local conhecido como o ponto de “abate“ do administrador. Ele era todo prosa.

Ao chegar lá, fez questão de acender um charuto. Vira isso em um filme ocidental.

Após algumas baforadas, cuspiu, jogando-o longe. Esses americanos. Sorriu.

Mostrou a ela um amontoado de palha seca. Malalú deitou-se.

Sem pensar, deixou o corpanzil cair sobre ela. Sua língua, espessa, dançava em seu rosto. Sentiu a mão dele em suas coxas. Nojo e asco encheram os seus sentidos.

Com esforço, conseguiu sacar uma fina lâmina, escondida em suas roupas, enfiando-a no olho do frenético “parceiro”. Atingiu-lhe o cérebro. Saindo de baixo dele, limpou o sangue que lhe atingira o rosto.

Na porta da caverna, soltou dois pios, como o de uma ave de rapina, seguido de um assovio. Seu pai apareceu, semblante preocupado, tranquilizando-se quando notou estar tudo bem.

Como combinado, pegou uma peça de tecido que levara com ele. Enrolaram o corpo.

Limparam o local, arrumando-o como se estivesse pronto para um novo “abate”. Aguardaram em silêncio o chegar do anoitecer.

O resto da noite foi cansativo. Fora muito mais difícil do que pensaram, levar o corpo do administrador até o casebre.

Mas uma certeza eles tinham. Havia muita carne para ser salgada, e escondida. De fome eles não morreriam.

Afinal ela era Malalú

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