Limbo

 

 

 

 

(Juazeiro do Norte – CE)

O pulso que percorria estava ficando cada vez mais inerte num traço verde percorrendo o monitor. Ele estava só, percorrendo um túnel longo e profundo, sendo arrastado para o seu interior. Silente e soturno.

Assim era a escuridão: sem flashes sobre a vida passar diante os olhos, apenas a agonia de se estar preso num estado de sono incompleto, como se o relógio tivesse congelado sob o poder misterioso e cruel do tempo.

Ele não sonhava. Sabia que sonhos não eram tão vívidos assim. Sentia o cheiro da grama e o calor do sol sobre suas costas, mas por mais inquietante que fosse, ele sabia que não estava verdadeiramente lá, a visão daqueles campos elísios que a mente dele confortavelmente projetava escondia a cruel realidade. Escondia o ser humano preso a cama de um hospital depois de um acidente de carro que ele não recordava.

As vozes o seguiam, mas não estavam em sua cabeça. Dançavam no interior dos seus ouvidos, distante como um oceano entre dois continentes chamados vida e morte. Palavras não vinham ao encontro da sua boca, sentia apenas o estímulo desejoso de dizer que estava vivo, que esperassem por ele, que ele voltaria pra casa logo… Mas nada saía. Restava o vazio de um homem preso dentro de si mesmo, ouvindo as vozes negras do mundo.

– … A situação dele permanece inalterada….

– … Mas doutor, já faz tanto tempo…

A nitidez das vozes ia e vinha, mas elas continuavam lá, pairando como anjos, torcendo os pensamentos e revirando suas entranhas numa dança diabólica da esperança com o macabro, batalhando pela vida naquele vazio.

Os segundos dentro de seu corpo tornaram-se semanas. Longas parcelas da sua vida que haviam se separado naquele estado de limbo, despedaçado pela ausência de memórias do incidente.

Seu corpo tremeu, sentindo o pulsar elétrico percorrer sua composição. Não havia o que fazer. Parado sob a beleza do seu mundo mental, o colapso adentrou.

De repente os campos verdes tornaram-se mata queimada sobre seus pés, a água dos córregos não era mais fria e cristalina e sim escaldante como o inferno. E a falta de ar crescente, como se seu pulmão se esvaziasse a cada golfada de ar que ele lutasse para obter.

– A condição é crítica, e ele já não responde mais aos estímulos…

A voz penetrou em seu coração como um punhal. O fim se aproximava e ele estava ali, dentro de si mesmo, consciente e alerta, preso no corpo de um homem moribundo.

“Um sinal, eu preciso mandar só um sinal, preciso mostrar pra eles que ainda estou aqui, que ainda estou!”

O pensamento o ajudou a se colocar nos trilhos. O desejo agonizante de mostrar vida. O pensamento como única arma para fazer o resultado acontecer. Mas as vozes continuavam vindo, como corvos que espalhavam a miséria e as trevas.

Tentou os olhos, forçá-los a abrir e receber a luz do quarto do hospital. Eles continuavam imóveis, lacrados com a cera quente do juízo final. Mas ele não podia desistir por mais idiota que parecesse sua luta. Tentou os braços, as pernas, a boca… Nada. Apenas o senso de frustração fluiu, tornando a sua visão ainda mais escura e abafada.

– É escolha de vocês. Por favor, tomem o tempo que precisarem.

Há quanto tempo ele estaria ali? O quanto ele tinha deixado de ver e de acompanhar? Será que sua filha de 4 anos havia terminado a escola, entrado no ensino médio, faculdade, casado? E seus pais? Ainda estariam ao lado da cama como imaginaria que estivessem durante esse tempo todo? Ou estariam mortos?

Aquilo doeu mais do que imaginara. A imagem do seu marido nem chegou a aparecer na sua cabeça, teve de desfazer o cenário rápido e se permitir uma última chance de lutar pela sua vida.

Juntou toda a concentração que tinha, e focou. Seus olhos tinham de abrir, uma rápida olhada e eles saberiam que ele estava ali que estava vivo e preparado para voltar para casa. “Não importa o tempo, eu ainda estou aqui.” Repetiu para si mesmo, acreditando cegamente em cada palavra.

Sentiu a cabeça doer, pesar e afundar, como se a empurrasse contra o concreto. “Mais um pouco”, pensou, “mais um pouco e vai dar certo.”

O céu negro sobre sua cabeça foi atravessado por um feixe branco de luz, uma camada tênue que cavou sua ida até aquelas trincheiras do subconsciente.

“Está funcionando! Tá funcionando! Eu vou voltar pra casa!”

A concentração não falhou e o pensamento se tornou mais positivo e efetivo a cada segundo que passava, permitindo que o raio de luz o levasse de volta a superfície da realidade, o levasse para longe daquele inferno solitário e pessoal.

– … Doutor… Nós escolhemos desligar.

“NÃO!”

O pensamento surgiu como um berro. Abalando o feixe luminoso, deixando-o ser consumido pelas nuvens negras infinitas.

Na distância dos mundos ouviu-se o choro, fino e fraco, como uma lamúria fúnebre. Ele implorava, lutava para reaver o controle e a esperança que sentira durante todo aquele tempo que estivera lutando. A luz ia se esvaindo, tímida, até que por fim, só restou as nuvens. Escuras como a noite mais profunda.

Ele ficou desolado, ajoelhado no campo destruído do próprio ser. Poderia ter chorado se houvessem lágrimas, mas ele apenas ficou lá. Impotente, esperando o toque gentil do ser que o levaria embora.

E ele veio.

Mãos frias como o inverno cercaram seu ombro. O capuz negro estava descoberto, mas não podia se ver seu rosto. Apenas os cabelos escuros como carvão e as mãos pálidas como leite. Ah, e seus olhos. Dois diamantes que brilhavam sob o sol quente de um verão. O sol de uma vida.

– Venha.

Carregando em si a dor de mil famílias despedaçadas, ele caminhou junto à figura. Cada passo tornando sua visão mais escura e inebriante. A ida agora parecia não ter fim, nem tampouco volta, enquanto o mundo de sonhos se desfazia ao seu redor.

Ele sentiu pena, dor, remorso e aceitou seu destino enquanto traçava seu caminho para fora de si.

Com um breve relance para trás, observando as trevas que se formaram, ele pôde ouvir uma última lamúria: o som agudo de uma linha, que agora parada, havia se deitado para sempre.

5 thoughts to “Limbo”

  1. A hora fatídica, o natural indecifrável… Ela chega e nos faz percorrer caminhos floridos? caminhos assombrosos? Um imenso vazio eliminando-nos por completo? Não, tomara que entremos na outra vida.
    Só sei que foi muito bom de ler este texto cheio de mistério!!!…

  2. Bela ficção! São vozes da imaginação falando alto.
    Mas a pergunta que não quer calar: será assim, mesmo?
    Apesar de respeitáveis crenças, o certo é que ninguém, jamais alguém voltou para relatar a forma real do fim.
    Aguardemos!

  3. Muito bom , ainda que haja um pequeno descuido – “A imagem do seu marido nem chegou a aparecer na sua cabeça”, suponho que queria dizer esposa – não desmerece a sua qualidade. Parabéns!

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