Lençóis ao Vento

lençóis

Lira Vargas

(Niterói – RJ)

O sol ainda secava as últimas gotas de orvalho de uma noite fria de outono. As folhas da mangueira forravam o chão do quintal, avisando que novos frutos estavam por vir. Era bonita aquela estação, o vento desfolhava com carinho as árvores, dando lugar a vida prometida. Quando uma mulher tinha seu ventre apertando as roupas simples, eu olhava para os frutos apetitosos das amendoeiras, e pensava que ali o fruto de algumas noites de amor também era obra do outono.

Não sabia explicar, mas aquela estação fazia bem aos meus pensamentos. Minha mãe levantava cantarolando uma canção popular, na cama eu e meus irmãos ainda sonolentos, ouvíamos sua voz como um aviso de  que era hora de levantar. Eu fingia ainda dormir, porque a preguiça e a cama quentinha era um convite para ficar encolhida sob os lençóis com emendas, restos que ela ganhava de suas freguesas. E aquela sensação de conforto não permitia despertar.

Olhava  para as telhas de meu quarto, os primeiros raios de sol faziam figuras na parede, eu fechava e abria os olhos, mas a voz suave de minha mãe se misturava ao cheiro de café coado em pano de flanela e às vezes aguado, mas tinha um cheiro de amor, dedicação e carinho. Na mesa farinha,  café  e esperança de mais um dia de trabalho árduo. Eu ia para a escola para aprender um pouco mais, nos pensamentos as palavras de minha mãe “é preciso aprender a ler para poder viver.”  Sabia que à volta da escola, muito trabalho me esperava.

Chegava em casa e do portão minha cachorrinha vinha ao meu encontro, pulava e latia como se fazia na chegada de alguém que partira há muito tempo era sua maneira de dizer que estava com saudade.

Do portão mesmo, ouvia minha mãe cantando, não sabia se de alegria ou de cansaço, mas ela cantava, e esfregava a roupa no tanque, batia com força as roupas pesadas, como para afugentar a realidade das dificuldades, da vida difícil, das manobras para nos alimentar, nos educar e nos dar uma vida digna de um ser humano Eu entrava porta adentro, se pudesse não entrava, ficaria no portão ouvindo sua voz e as batidas das roupas pesadas no tanque, mas parecia que ela sentia minha presença, e de meus irmãos. Ela parava, o silêncio era cortado pelos latidos da cachorrinha, ela nos chamava e dizia que era hora de almoçar. O semblante de seu rosto, naquele momento era fechado, nem parecia que daquele rosto sério, daquela boca eu ouvira, há poucos minutos, uma melodia tão bonita. Ficava imaginando como seria lindo se uma orquestra pudesse acompanhar as melodias que minha mãe cantava, quem sabe, assim, eu não precisaria tomar umas pancadas de colher de pau na cabeça, se recusasse a atender suas ordens.

No canto da pia, lá estavam dois frascos vazios de refrigerante, que eu nem sabia como foram parar ali, quem sabe, minha mãe achara no lixo, assim ninguém saberia para que servia aquelas garrafas.

Acabava de almoçar, e ainda sentada a mesa, minha mãe pegava as garrafas colocava ao lado de meu prato vazio, ainda silenciosa, umas moedas na minha mão e  dizia… “ Vá comprar cachaça na venda.”

Saia engolindo o choro misturado ao sabor da comida, saia ainda ouvindo sua voz cantando umas músicas tão bonitas, saia sabendo que ainda ouviria as melodias durante à tarde.

Minha mãe sorria quando eu voltava, não sabia se de alívio por nada ter me acontecido, ou se pela cachaça que eu trazia para ela beber durante à tarde.

As bacias brilhavam penduradas no tronco da mangueira, ela carregava com um gingado que ficava ainda mais bonita, os vestidos estampados, marcados no ventre pela água que respingava. As mechas de seus  cabelos em  desalinhos, mas tão finos que pareciam fios de seda, cobriam parte de seu rosto. As vezes ela sorria, outras vezes ficava séria, parecia zangada, observando se alguma mancha passara despercebida, examinava com tanta atenção que parecia ser a dona das roupas. Eu gostava de olhar minha mãe sem que ela percebesse.

Ficava olhando o sol reluzir no alumínio e nas roupas brancas quarando, e ela dissolvia anil para o branco ficar mais branco, o que eu nunca entendia como o azul poderia ficar tão branco. Os lençóis ao vento faziam verdadeiros labirintos no quintal, as roupas eram tão bem estendidas que pareciam gente penduradas, eu sentava no degrau e ficava brincando de imaginar as pessoas penduradas para se  secarem ao vento do quintal de minha casa.

Quando ela acabava de lavar todas as roupas, as que ela colocara  no varal já estavam secas, ela estendia uma tábua sobre dois cavaletes e  passava o ferro de carvão tão pesado, que sentia pena dela,  mas deslizava tão leve que parecia que andava sozinho sobre as roupas. E desse ferro saía fumaça eu gostava daquele cheiro de carvão de madeira. Eu imaginava o trem que diziam que era uma Maria Fumaça sobre os trilhos.

Os trilhos do trem, “me” fascinavam, porque pareciam frágeis. Brilhavam ao sol e de noite aos faróis, os mourões tremiam ao peso da Maria Fumaça, mas eles permaneciam firmes, mesmo que os enormes parafusos ameaçassem saltar, eles cantavam  ou gemiam sob as rodas de ferro que pareciam bailar, na sinfonia do apito ou das cortinas da fumaça.

No furor dos ferros ordenados pelas fornalhas, Maria Fumaça passava elegante e bela, rebolando nas curvas, levando carvão ou sonhos, parecia feliz sobre os trilhos de aço fino, que murmuravam ais, enquanto ela fazia piuiu, piuiu . Que saudade daqueles tempos . Maria Fumaça mudou de nome agora é homem, agora é metrô. Lembro de uma irmã que deitava os ouvidos no trilho e ao lado dos mourões para sentir o medo da morte, disso não sinto saudade, sinto medo.

Ficava olhando minha mãe passar cada peça com tanto zelo, que parecia que eram dela. Depois arrumava dentro de uma grande sacola de curvim, retalhos dos bancos dos ônibus da empresa que meu pai era motorista.

Eu e meus irmãos íamos fazer as entregas. Lembro de uma portuguesa que me dava uma maçã todas as vezes que eu ia a sua casa. Era uma alegria tão grande, que eu voltava cheirando como se fosse um frasco de perfume, mas não podia comer, tinha que dividir com meus irmãos, bem que eu planejava um dia dizer que não ganhara a maçã para comer sozinha aquela fruta do pecado, mas nunca fiz, queria viver no paraíso. Pensava sorrindo.

Voltava certa de minha missão cumprida, mas sabia que a cena era a mesma de sempre. Chegava em casa, a cachorrinha não latia, não ouvia a canção do meio dia, o silêncio se misturava ao cheiro acre de cachaça, o vento em harmonia com o sol, secava os últimos lençóis do varal. A bacia pendurada no prego do tronco da mangueira. Entrava silenciosa, e lá estava minha mãe deitada no chão da cozinha, a cachorrinha ao seu lado,  as garrafas de refrigerante vazia, mas guardada no canto da pia, como para assegurar outros dias de bebedeira.

Eu agachava perto de seu corpo cansado, esticava sua saia para cobrir suas pernas, e sentia seu corpo frio. Puxava a toalha da mesa quadriculada azul e branca e cobria seu corpo. Sentia vontade de beijar seu rosto, mas não me atrevia a despertá-la. Ficava olhando aquela mulher dormindo, o sono tão profundo que ela ressonava, eu saia de perto ouvindo sua voz cantando uma melodia como se fosse meio dia.

Ela vive nas mais belas de minhas lembranças, quando estou no palco de meus sonhos canto suas melodias, e brinco de imaginar que ela está em algum lugar das mesas e até ouço seus aplausos. Um dia ainda a convido para cantar comigo… A estrela D’Alva.

Pastorinhas

(Noel Rosa e João de Barro)

A estrela d’alva/ No céu desponta/ E a lua anda tonta/ Com tamanho esplendor/ E as pastorinhas/ Pra consolo da lua/ Vão cantando na rua/ Lindos versos de amor/ Linda pastora/ Morena da cor de Madalena/ Tu não tens pena/ De mim que vivo tonto com o teu olhar/ Linda criança/ Tu não me sais da lembrança/ Meu coração não se cansa/ De sempre e sempre te amar.

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