Lara

 

 

 

 

 

(Santo Estevão – BA)

Naquela manhã de primavera o quarto brilhava com os raios de sol penetrando pela janela aberta, as cortinas se esvoaçavam com o sopro da brisa. Na cama uma jovem de cabelos avermelhados com olhos tristes presos no teto. Assim vivia Lara há mais de duas semanas depois daquela noite.

Ela linda em seu vestido de noiva desfilava entre tulipas que enfeitavam o corredor da pequena capela da fazenda. No altar o mais feliz e elegante dos jovens fazendeiros a esperava com um sorriso alargado no rosto demonstrando toda a sua paixão.

Lara seguia levada pelo braço do seu avô. Parecia uma princesa de conto de fadas, a felicidade fazia com que flutuasse pouco acima do chão em sapatos de cetim branco, o vestido todo bordado presente da bondosa madrinha que fez especialmente para deixar a afilhada a mais bela e radiante noiva da região. A cada passo os olhos de Lara cintilavam como se escapulissem fagulhas de felicidades.

– Você está encantadora – disse o noivo todo apaixonado tomando-a pelos braços depois de cumprimentar o velho avô da futura esposa.

O casamento foi em clima de muita alegria, a festa requintada com direito a baile e um delicioso cardápio de dar inveja a quem não estivesse presente.

A meia noite o casal se despede embaixo de uma chuva de rosas brancas e vermelhas. Os noivos correm para o carro em direção à estação pois seguiriam aquela noite para a tão esperada viagem dos sonhos, como os dois costumavam brincar.

Infelizmente o carro não chegou à estação, o sonho terminou ali mesmo na primeira curva depois do espaço onde estavam todos os convidados se divertindo com o fim da festa.

Lara só veio acordar dois dias após o esposo ter sido sepultado. Os dias se arrastavam, ela perdia a vontade de viver. Já em casa continuava em estado de choque, não falava, não respondia as perguntas apenas o olhar fixo no vazio em busca de uma resposta. Mas que resposta? Ela se perguntava envolvida em seu mundo silencioso.

Raquel, sua amiga de infância, não pode vir ao casamento. Aquela seria a hora de estar ao lado da sua amiga numa visita da mais dolorida que desejaria fazer. Mas estaria ao seu lado e faria tudo para tirar daquele mundo de sofrimento.

Sem nada pronunciar abraçou a amiga – chore se quiser minha amiga, grite se desejar ou não diga nada eu compreendo tudo, mas me ouça: um dia a morte vence a vida e cada um tem o seu dia e sua hora marcada para partir. Lembre-se o verdadeiro cristão não morre ele passa a viver em outro plano e foi isso que aconteceu. Agora cabe a você seguir em frente esquecendo o sofrimento e relembrando os momentos de alegria – dizia a amiga carinhosamente segurando as lágrimas.

Lara que até então estava imóvel feito uma estátua fria e sem vida caiu no choro, soluçava como se colocasse para fora todas as lágrimas congeladas pelo choque. Ficaram horas abraçadas sem uma palavra. Apenas as lágrimas diziam tudo. O choro fez com que Lara finalmente adormecesse e quando acordou minutos depois se sentia mais leve, a dor e a saudade continuava alfinetando o seu coração. Sozinha em seu quarto ela conseguiu escutar depois de dias o canto do rouxinol no jardim. As palavras da amiga martelavam em sua mente: Nada mais somos que filhos de Deus e a nossa missão aqui na terra termina quando Ele decide.

Um ano se passou. Era novamente uma manhã de primavera, soluçando baixinho Lara disse: – A primavera para mim será sempre triste – relembrava aquela noite a qual nunca iria se esquecer o sonho e o seu desfecho trágico.

Lara passou a morar em um convento onde decidiu viver os seus dias atrás daquele muro alto. Para ela a vida lá fora terminou naquela curva.

 

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