Inversão de Papéis

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 (São Paulo – SP)

 

chafarizQuando o Coronel Ermenegildo de Castro leu a notícia de que a oposição iria impedi-lo de inaugurar o tão sonhado chafariz na praça central, amassou furioso o Correio Matutino, desfiou um rosário de vitupérios e arremessou o copo de cachaça contra a parede. Afinal, ponderava, o fato de ter mandado incrustrar-lhe a própria efígie em nada arranhava a honradez de sua administração. Esse mimo, pagara-o do seu bolso, num ato de extremo desprendimento. Que mal haveria então?

– Foliculário! – chamava-o o autor do artigo, seu arqui-inimigo – Nem a imprensa nem a Justiça me amedrontam. O cronograma será mantido, e ai daquele que tentar me atrapalhar!

Ocorre que o Ministério Público não encampou as bravatas do prefeito, e, por meio de liminar, embaraçou-lhe a autopromoção com o auxílio da polícia. Assim, acuado diante de um poder maior do que o seu, alternativas não teve o chefe do Executivo senão as de meter o rabo entre as pernas e de descontar a afronta nos ouvidos de seus assessores.

 O mau humor era tanto que, menos por temor de demissão do que por amor aos seus tímpanos, o primeiro escalão se reuniu às pressas para tentar encontrar uma solução no mínimo honrosa àquele nó. No entanto, se o supunham cego, descobriram-no górdio – a inconstitucionalidade era indiscutível –, o que só fez aumentar a ira de Sua Excelência.

 Dona Veridiana, a esposa de muitas décadas, porque bem lhe conhecesse o temperamento, deixava-o esbravejar o quanto quisesse. Mas nunca se esquecia de misturar ao café recém-passado o calmante caseiro que aprendera com sua sogra. Isso mantém um casamento, dissera-lhe mais de uma vez a tarimbada matriarca.

A pouco e pouco a cruz que carregava se foi amainando, e os conhecidos rosnares foram trocados pelos costumeiros roncos. Desta vez, porém, o sono do orgulhoso político se daria um tanto diferente…

– Como vão as coisas, Coronel Ermenegildo?

– Quem é você?

– Chamo-me Fídias. Ah, por certo que já ouviu falar de mim.

– Nunca.

 – Nunca?! Bem, isso me surpreende deveras. Não obstante, creio que esta pequenina introdução o agradará sobremaneira: em 446 a.C., Péricles, meu governante e amigo, incumbiu-me pessoalmente de restaurar Atenas, que fora destruída pelos persas. Sob minhas ordens, a nata dos arquitetos e a fina flor dos artistas conceberam, em poucos anos, obras extraordinárias para o mundo helênico, pois que de uma beleza e harmonia inestimáveis!

 – O quê…?

– Talvez seja mais útil dizer que o hábito de colocar a própria imagem em monumentos é bem mais velho do que se imagina. E graças à minha larga experiência nesse assunto, ofereci-me de muito bom grado para ajudá-lo na questão do chafariz. Deu para entender agora?

 – Sim!…

Fídias, então, contou que naquela época havia um templo chamado Partenon, o maior da Acrópole, e que era dedicado à deusa Palas Atena, a protetora da cidade. No interior desse santuário foi colocada uma estátua dessa divindade que contava gigantescos vinte e seis metros de altura. Seu corpo fora esculpido em mármore, e as vestes, modeladas em ouro. Estava de tal maneira disposta que os raios do sol, quando se lhe incidiam, realçavam-lhe o brilho da túnica e a brancura do corpo.

Essas informações pouca impressão causaram ao prefeito, até que Fídias revelou ter mandado acrescentar dois pequenos retratos ao majestoso escudo que a deusa segurava com a mão esquerda: o seu e o de Péricles. E concluía ufano:

– Tributos mais do que justos aos responsáveis pela glória e aformoseamento atenienses! Não concorda?

 – Sim, sim! Mas, e o meu caso?

– Ora, assim como os nossos retratos mereceram ser incorporados àquela escultura, pois, insisto, presenteamos o povo grego com o sublime da arte, por que Vossa Excelência não faria jus à mesma homenagem, pois que também brindara o seu município com uma obra-prima?

 – É isso mesmo, o senhor tem razão!

– Pois reúna os castrolenses e os esclareça acerca desse fato histórico, dessa prática normalíssima que se repete pelos séculos. Assim fazendo, verá que eles o apoiarão, que tomarão o seu partido. E não será uma ação qualquer na Justiça que impedirá a vontade de um povo agradecido de o ver glorificado. E, de quebra, sorverá a execração pública daquele escritor de folhetos.

O Coronel Ermenegildo era só alegria. E como não se dava conta de que sonhava, mal sabia o que fazer quando Fídias se despediu e sumiu. Queria chamar seus auxiliares, contar a sugestão, arquitetar a publicidade certeira… E tão inquieto ficou que acordou de inopino, e pingando suor.

Já na prefeitura, a camarilha ouviu o seu líder com atenção. Mas as reações não foram unânimes: os bajuladores ficaram efusivos, sobretudo quando o todo-poderoso se fez passar por erudito e soltou um comuníssimo vox populi, vox Dei; os beneficiados do nepotismo – o genro e um sobrinho – aderiram de igual forma ao entusiasmo do padrinho; os mais centrados, porém, ainda tentaram opor alguns senões, mas que foram logo rechaçados pela confiança da maioria.

Assim, decidida a estratégia, dos preparativos à ação poucos dias se passaram. E o largo da cidade era tomado por uma multidão que, esclarecida e convencida, exigia a inauguração do chafariz com a figura do seu amado prefeito.

Não tardou para que todo esse rebuliço batesse na porta do órgão ministerial. E, de igual forma, para que o defensor da Constituição se manifestasse com idêntica firmeza e eficácia. Daí que não só a controversa imagem foi apreendida, como também foram propostas mais de uma ação visando à apuração das responsabilidades; e isso sem contar a dor de cabeça oriunda de um pedido de cassação protocolado pela oposição.

 À noite, quando finalmente pegou no sono – Dona Veridiana aumentara a dose daquele calmante –, o Coronel Ermenegildo era novamente visitado por Fídias:

– Ao que parece as coisas não saíram como o previsto, não foi?

– Fídias, está tudo pior! Tenho várias ações nas costas e estou com os pés no cadafalso: vão me cassar!

– É, eu sei.

 – E é só isso que tem para me dizer?!

 – Não, claro que não. Na realidade, faltou contar o que me aconteceu depois que mandei colocar as efígies no escudo da deusa Atena: fui submetido a um vergonhoso, a um doloroso Processo de Impiedade. E só não fui desterrado ou condenado à morte porque Péricles interveio.

– Mas, o que isso tem a ver… – Fídias o interrompia:

 – Adivinha de quem partiu a ideia de me processar?

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