I Love SP

 

 

 

 

 

(Cachoeirinha – RS)

 

A moça do balcão, embonecada no modelito laranja madura, me consola que o voo vai atrasar só trinta minutos. Peço um pão de queijo. Credú! O preço está nas alturas. Faço o sinal da cruz e embarco no buzu aéreo. 

O manete do motor está devidamente posicionado para as manobras de descida; o sujeito ao meu lado abana da janelinha para um senhor de poucos dentes, sentado no sofá da sala do minúsculo apartamento, espremido em meio aos prédios que abocanham o Congonhas.

Já enviei e-mail ao governador deste estado manifestando repúdio pela gabolice dos passageiros, que bisbilhotam a privacidade de lares de gente humilde e meio surda dos zunidos no céu. Clamei às autoridades a remoção do aeroporto à área digna e descampada de edifícios; aproveitei e conclamei também à redução do preço do pão de queijo.

Não havia ninguém no hall à minha espera, empunhando cartaz com os dizeres “bom dia, turista, seja bem-vinda”. Sei que a gentileza não me faria melhor, assim como não o fazem os estúpidos “bom dia” do WhatsApp, mas porra, me sentiria acolhida.

Despeço-me do piso xadrez de toalha de piquenique e tomo um táxi na tensa fila de humanos na saída do aeroporto. São Paulo me recebe indiferente aos meus tormentos. Todas as cidades são assim, arrogantes. Não pertenço a esta cidade, nem ela a mim. As pessoas fingem andar apressadas, fingem ser ocupadas, fingem ter carreiras de sucesso, correm autômatos para não serem engolidas pela terra de gigantes, pelos arranha-céus cinzentos, alheias ao burburinho da morte que as espreita diariamente.

Ordeno ao sujeito do táxi para me despachar no hotel cheio de bandeirinhas na Rua Augusta, próximo à sede da pátria amada capitalista na Consolação, onde me prostituo por polpudo salário para comprar o smartphone bala, a espaçonave de quatro rodas, a casa avarandada.

Assisto na empresa palestra motivacional de um cara bem motivado. Sei que esses trololós são pra gente ficar feliz e vender mais, a empresa ganhar mais, e podermos comprar mais smartphones bala, automóveis bala. Não fiquei motivada. Invejo a geração ípsilone-faceboquiana, que não titubeia em largar tudo e enfrentar umbrais, a fim de glorificar espíritos conectados com um novo mundo. Espírito de porco é a melhor definição à atitude que não tive. Mas o que fazer? Sou uma vendedora nata, disso não duvido. Sou capaz de vender qualquer coisa, como um dia fiz com a minha própria alma.

O homem motivado segue falando à horda de replicantes de Blade Runner, enquanto sigo imaginando estabelecer uma conexão com esse lugar. Sei que a culpa é minha, não lhe dedico as melhores intenções, porque aonde vou, carrego as piores intenções. Já estive em Nova Iorque, metrópole feliz, efervescente. Não fiquei feliz em Nova Iorque. A única coisa que efervesceu em mim na Grande Maçã foi o ácido acetilsalicílico − deu uma puta enxaqueca na viagem.Da sacada do confortável quarto do hotel de bandeirinhas, vejo a praça em frente tomada pelo matagal, os bancos maltratados pela gurizada fumando maconha. Esse pessoal de pálpebra caída tem mania de ficar prensando os narizes nas praças, em plena luz do dia, não respeitam nem as senhorinhas de fino trato. Se eu fosse o prefeito, corria com esses maconheiros, despachava-os para o Uruguai e revitalizava todas as praças, deixava a grama verde-bem-verdinha, podava as árvores, abria os pulmões de São Paulo a pleno vapor.É a enésima vez que venho a São Paulo, e conheço muito pouco de sua gente. Bem, na verdade, não gosto muito de gente, gosto mais de plantas e de pão de queijo. Na verdade, tenho medo de gente, tenho medo de gente de poucos dentes, tenho medo de gente motivada, tenho medo de andar de avião, tenho medo de faltar oxigênio nessa cidade, eu tenho tantos medos…

Caminho a passos lentos na calçada esburacada da Verbo Divino. Estendo olhar opaco às pessoas apressadas, de notebook na mochila, enfatiotados, as moçoilas empoleiradas nos saltos, uns cabisbaixos, outros entusiasmados, por certo compraram o smartphone bala.

Magicamente, no cruzamento entre duas avenidas, percebo a urbe. Talvez efeito da dose cavalar de fluoxetina. E, magistralmente, percebo que a cidade me percebe. As máscaras encobrem as fraquezas, a bipolaridade, a neurastenia, a melancolia.

A empresa aumentou os lucros depois da palestra motivacional, e promoveu confraternização entre os funcionários motivados no terraço do Edifício Itália. Caracas! À primeira vista da vista, fiquei enjoada; à segunda, deslumbrada. E então, de cara limpa, senti a metrópole. Já não ouvia a música sertaneja de fundo, nem via os vendedores rebolando nas calças de brim curinga muito justas, do tipo esmaga-colhões. Somente vislumbrei São Paulo. Enxerguei o horizonte, contemplei o infinito, a vida sem fim de São Paulo. As luzes, Deus do céu! As luzes me hipnotizaram, a vida pulsante da cidade que não dorme. Eu é que dormi tantos anos para ela.

Executo a maior excentricidade da vida de executiva, e reprogramo a viagem de volta para o dia seguinte. Confisquei o tio do táxi e partimos a galope por campos verdejantes, avenidas montanhosas, planícies de concreto. Eu e São Paulo, a capital e eu.

Por onde andava que não te notei? Pergunto-me, de braços dados, toda coquete, com São Paulo a tiracolo. Deslizo os dedos em afagos sobre o painel de fotografias amareladas no MASP, espremo os olhos no roçar do verde no parque Trianon, deleito-me na visão da torre de babel no Mercado Municipal, do croc-crocdos pastel”, do tutti buona gente de camiseta do Palmeiras. O Parque Ibirapuera, a Catedral da Sé, a Pinacoteca, o Museu da Luz, nada me passou despercebido.

O inusitado reservei para o sábado − compras na vinte e cinco de março. Conectei-me à energia dos transeuntes, andei no compasso da multidão, sem medo de gente sem dentes, sem medo de gente feliz.

Retorno ao Sul amontoada de souvenires na mala; ao marido entojado um beijo apressado; ao filho amado, o presente especial −     a camiseta de estampa I Love SP.

 

4 thoughts to “I Love SP”

  1. Bah, tchê. Baita conto (ou crônica). Até lembrei que sou gringo e senti um cheiro de churrasco saindo do papel. Gostei do arreganho com nossa SP, foi uma barbaridade! Logo vou deitar o cabelo e dar uma volta em POA. Eu e meu piá vamos gauderiar por lá. Conhecer o Guaíba muito guapo, ver a indiada do sul, correr numa rodada de mate, gastar umas pila. Na volta tri-contente vai me acompanhar na guaiaca uma camisete de estampa: I Love Rio Grande.

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