Há Dias Assim

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

ha-dias-assim– Quero uma taça de vinho branco. Se ninguém pagar pago eu!

Estranho modo, este, de pedir que lhe sirvam uma taça de vinho branco com gasosa, porém, teve o efeito de fazer-me voltar a cabeça para visionar o seu autor. Olhei para o lado e vi que me encontrava apenas com os meus amigos, Antero e Avelino junto ao balcão. É certo que muitas vezes gosto de me aviar na sua banca e sempre que o vejo peço-lhe para ser ele a atender-me, ao mesmo tempo que lhe solicito quando for a época para me arranjar avelãs (um dos meus pecaditos). Mas daí a entrar com tal rompante sem que alguma vez tivéssemos confraternizado, achei-lhe um certo descaramento.

Uma das funcionárias prontificou-se em servi-lo, mas nesse preciso momento, o barril do vinho tirado à pressão findou. Imediatamente levantou o intercomunicador para solicitar a uma outra colega para repor o barril.

– Mas o tempo que espero até que alguém me atenda, mais vale eu ir lá busca-lo.

– Então Cecília, esse barril vem ou vem? – Perguntou o sedento cliente ao ver que estávamos quase acabar a nossa bebida, e o risco de não lhe pagarem o copo estava eminente, sim, porque não se paga adiantado.

-Tenha calma, a cooperativa é muito grande.

– Porque é que me estás a mentir rapariga?

– E porque é que lhe tenho que dizer a verdade?

Sem querer ia entornando o favaios como ataque de riso que me deu com este trocadilho. E pensei para comigo «Bom, vou-lhe pagar o copo só por esta gargalhada», todavia, o doutor Antero antecipou-se, pagando as nossas despesas, e claro que o copo dele.

Mas a “festa” continuou com o Avelino a dizer que um pratinho de qualquer coisa é que calhava bem a fim de abrir o apetite para o almoço. Sem mais aquela, até porque, se não alinhasse tudo ficava sem efeito, dou por mim a interrogar com o olhar o Antero, cujo rosto me acusava de ser um desmancha-prazeres. Assim, embora faltassem dez minutos para a hora do almoço, emborcamos uma garrafita de tinto, uma dose de frango e uma outra de carne de porco à alentejana.

Meio às pressas porque ainda tinha de levar gás para casa, fiz o resto das compras em passo de corrida. Atrasadíssimo, antevia um sermão da esposa, mas como à noite tínhamos convidados para o jantar, também ela se atrasou em preparativos.

Correu bem animado o jantar, sendo o meu amigo Antero um homem sempre bem-disposto, que tem em mim um cúmplice para gargalhar.

 Não sei a que propósito, para no meio de um excelente arroz de cabidela, falarmos no funcionário mais antigo da Junta de Freguesia, responsável entre outros, pela limpeza do enorme recinto da vila, acrescendo ainda a função de coveiro apesar dos seus oitenta anos. Perante a minha admiração quanto à idade do senhor, a esposa do meu amigo, sorrindo, afirmou que o álcool conserva. Numa alusão já bem minha conhecida de estar sempre pronto, para mandar umas e outras abaixo.

– Numa ronda pelo arraial para ver se tudo estava conforme e de alguma forma mostrar a este povo que o secretário da Junta também trabalha. Vou dar com ele e a equipa dele nos copos. Em tom de brincadeira disse-lhe para ter cuidado com a bebida, ou ainda ia desta para melhor mais rápido que um foguete.

– Não se preocupe doutor, porque ainda faço tenção de o enterrar primeiro!

Por sorte o pão-de-ló que estava a degustar já tinha passado os gorgomilos, doutra forma, seria uma desgraça, como aconteceu com o vizinho Avelino que teve que tapar a boca e correr para a casa de banho, para não expelir sobre nós o pudim flan com que a tinha atestado.

Apareceu pouco depois meio corado, ainda a tempo de ver o filho do Antero dar um tremendo abração na sua esposa, para desobstruir a goela de um osso da galinha que lhe entrou sem dar por isso, ao ouvir aquela do coveiro enterrar primeiro o Antero.

– É no que dá chegares atrasada. Nós já íamos na sobremesa! – Comentou meio azedo.

– Esta bem, mas tu também te engasgaste e por pouco não nos borrifavas.

– Mas não precisei de que me dessem um apertão.

– Não seja por isso senhor Avelino, se precisar, conte comigo. – Ofereceu-se Gustavo com um sorriso malicioso.

– Abraço de homem? Antes a morte que tal sorte! E tu, minha menina, para a próxima não te ponhas tanto a jeito.

As coisas ditas assim culminaram numa risada pegada.

Bem hajam amigos!

 

6 thoughts to “Há Dias Assim”

  1. O seu gentil comentário fez-me ver que estou em falta para com os escritores deste site. Prometo fazê-lo o mais rápidamente possível.
    Pois é meu caro escritor, sabe bem receber um comentário sobre o nosso texto. Assim sentimos que gente que comunga pelo mesmo ideal – na escrita- se dá ao trabalho de nos comentar. É gratificante, ainda mais, quando nada nos obriga a fazê-lo. Obrigado Flavio Dias Semim!

  2. Aprendi mais com você meu caro Lorde. Eu não sabia que havia sotaque na escrita e os dicionários dizem que sotaque está apenas na maneira de falar, de pronunciar fonemas em um idioma. Agora posso discordar pois na leitura de seu conto senti, em todo o esplendor, o sotaque lusitano entre as letras. Ouvi e desfrutei do som das palavras à maneira portuguesa, legítima, original. Obrigado escritor, continue a nos brindar com seus textos dessa forma e prometo que meus pensamentos tomarão forma de viagem e desembarcarão nessa sua freguesia, nesse lugarejo tão agrádavel quanto meus desejos de conhecer essa pátria amada!

  3. Também quero uma taça de vinho. Não sou muito chegado a vinho, mas há dias assim, dias em que o diferente faz a diferença. Brindemos, caro Lorde.

    Abraços,
    Tião

  4. Se eu não fosse o lorde provavelmente teria tento na língua e não começava uma critica ou quiçá um comentário sem antes me benzer. Até porque, respeito todos aqueles que se expõem ao colocar os seus textos aos olhos do mundo. Assim como, respeito e admiro um texto que me obrigue a pensar e, quantas vezes recorrer ao velhinho dicionário, já ensebado, culpa do mestre Aquilino Ribeiro que até parecia que escrevia só para nos chatear… Perdi-me, já não sei onde ia…Ah já sei! Dizia que se não fosse o Lorde bla bla bla, mas como sou, vou desancar-me por não ter cuidado ao enviar um texto cheio de gafes.
    Pois é verdade, cheio de pressas, envio o texto que tinha mais à mão. Até aí tudo bem, se descontar-mos as pressas que nunca deram bom resultado. Então quando vi o texto publicado rejubilei, mas quando o revi, corei, e às pressas – sempre às pressas- mandei por e-mail o texto corrigido para substituir este, que para mal dos meus pecados, ali está acusando-me, tal qual o prof. Emílio, de analfabeto de pai e mãe.
    Bem, como isto já vai longo resta-me pedir que; desculpem qualquer coisinha.

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