Gritos de Pavor…

 

 

 

(São Paulo – SP)

 

Riachos de chuva desciam pelas ruas antigas da cidade velha.

Não tinha guarda-chuva e seu agasalho não tinha capuz. Correu pelas ruas estreitas e silenciosas. As roupas e sapatos irremediavelmente encharcados.

Em busca de abrigo enfiou-se por um portão meio aberto, enferrujado. Era um casarão em ruínas, escuro e desolado.

A porta dos fundos estava aberta. Entrou. A escuridão era completa.

“Tem alguém aí”, gritou sem obter resposta.

Percorreu acanhadamente um corredor até dar num grande salão povoado de velhos móveis e espectros dançantes, projetados pelos clarões dos trovões, que se infiltravam pelo vidro da janela.

Havia uma escada para o segundo andar. As paredes, forradas de veludo vermelho estavam cobertas por pinturas de uma linda, etérea e virginal jovem, cabelo ruivo em cachos.

Imaginou o palacete em seus dias áureos, décadas atrás. O salão vestido de festa. No centro, ideou a jovem dos retratos dançando com um rapaz, provavelmente, alguém que amava. Ele estava de costas e não conseguiu idealizar um rosto para ele. Jonas se perguntou se teriam sido felizes.

Inesperadamente, sentiu um calafrio e levantou os olhos. Lá fora, o vento assanhava as árvores. Pela cortina de chuva divisou as estatuas do jardim. Em seguida, o som de uma harpa.

Havia algo de muito errado ali. As estatuas levitavam de seus assentos, e entre elas, uma silhueta envolta numa capa branca, olhava fixamente para ele.

É a jovem das pinturas. A mesma pele branca como a neve, olhos verdes translúcidos.

Quando a explosão de um trovão rasgou o ar, viu o que achava ser seu corpo se desfazendo em cinzas.

Gelou. A ideia de sair lá fora não era nada tentadora, mas, ali era muito mais sinistro. O cenário de um pesadelo.

Afastou-se de costas, o medo dominando-o. Fazendo-o acreditar que o pior passara.

Foi quando se virou que a viu. No alto da escada, revestida de lambri, o fantasma da moça ruiva, ou o que quer que fosse aquilo, olhava para ele, os braços estendidos.

Correu, mas o espectro da jovem interceptou sua passagem. Suas mãos, quase transparentes, abriram um medalhão que trazia no pescoço.

Zonzo, o rosto cinza de tão pálido, fechou os olhos, apertando as mãos contra a cabeça. O retrato ao lado do dela era ele.

Como num filme imagens surgiam em sua mente.

Viu-se no mesmo casarão. É uma festa. Alegria, risos, música. O dia do seu casamento. Depois, choro, gritos desesperados de dor e raiva.

“Canalha”! Berrava a jovem ruiva, acusando-o de traí-la com sua prima no dia mais feliz da sua vida.

Ouviu-se tentando explicar o que não dava para explicar. Minutos antes estivera sim, na cama com a irresistível e tentadora morena que não o deixava em paz.

Correu atrás da moça que fugia em prantos. Que num gesto louco, insano se atirou nas águas turvas do rio.

As imagens se apagaram. Jonas recuou, apavorado. Seu corpo todo tremia como se sua alma estivesse sendo cutucada pelos tridentes de mil demônios.

Ele não entendia.

O hálito frio enregelando-o. Ela muito próxima, sufocando-o. Sussurrando, doce, possessivamente: Ah, meu amor, há uma eternidade espero por você prisioneira de uma escuridão sem fim.

O rosto congelado numa máscara de terror, Jonas gritava “Afaste-se de mim. Não é real, não e”.

E o espectro ria e o aprisionava num abraço cada vez mais apertado.

Lá fora a tempestade rugia sobre o telhado em ruinas. Rios d’água inundavam o casarão sombrio abafando gritos de pavor.

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