Folia da Bicharada

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(Santo Estevão – BA)

frioEra uma vez… uma confusão numa floresta mais ou menos encantada, árvores que dormiam numa preguiça tão infinita que nem uma folha se balançava.

Nesses dias, em que iniciava o inverno, era tanto silêncio que nem se ouvia o canto de um atrevido passarinho, nem o voar de um inseto, de tão frio. O dia acordava e todos os moradores só sabiam implorar ao sol para aparecer pelo menos um fiozinho de nada. E quando um rastinho iluminado penetrava entre as folhagens pendidas pelas gotas serenadas que caíram durante a noite, lá estavam todos se refastelando nas horinhas quentes, uns se espichando ao solo, outros de asas abertas empoleiravam nas cerquinhas, até os macaquinhos enfileiravam para se aquecerem do frio. As borboletas, se achando o encanto da natureza, ficavam esvoaçando e bicando o sereno das flores. Mas logo escurecia, a chuva miudinha caía, todos os bichos sumiam escondidos em suas casinhas quentes e assim o dia se arrastava preguiçoso.

Num desses dias, em que o sol não deu as caras, o majestoso carvalho – árvore poderosa e respeitada de toda a floresta – resolveu escrever cartinhas e foi rabiscando tudo que ia lembrando. Eram tantas as lembranças de tarefas a serem distribuídas que a carta ficou comprida e quase nem tinha lugar para guardar, pedindo, por isso que os passarinhos cuidassem de enrolá-la.

Devido ao frio a agência dos correios estava fechada e logo que o tempo melhorou a chuva se recolheu, o sol se fez presente e o carvalho cuidou logo de contratar o vento para que espalhasse as cartas por toda a floresta, em todos os ninhos, em todas as tocas, em todas as casinhas e assim nenhum morador ficaria sem receber tal comunicado.

E logo saiu o vento sacolejando pela floresta já iluminada pelo sol, encontrando alguns bichos sonolentos jogava a cartinha e seguia viagem. Foi cruzando estradas, vilarejos, rios, riachos, cachoeiras, até que todas as cartinhas foram entregues a seus destinatários. Ficou o vento cansado e resolveu tirar uma soneca na beira do mar, mas logo despertou e continuou a imaginar o que estaria escrito naquelas cartas para serem entregues com tanta urgência que nem tempo teve de chamar a brisa, com toda a sua calmaria, para ler e poder lhe relatar o segredo do majestoso carvalho.

Do outro lado, a árvore gigante e imponente esperava a resposta de todos. Não deu cinco dias e lá surgia em meio ao nevoeiro uma jangadinha descendo rio abaixo. Eram seres pequeninos que se mexiam de um lado a outro e que mais pareciam pontinhos florescentes balançando numa rede.

Lá pelas tantas um se desequilibrou e bum… caiu na água e nessa confusão toda a jangadinha desapareceu no meio do nevoeiro.

O carvalho estava começando a se cansar. Onde foram todos os bichos daquela floresta? A coisa estava ficando complicada e se não aparecessem logo iria fazer greve e não ofereceria mais sombra para que eles se deitassem as tardes enquanto o sol resolvia deixar a floresta iluminada.

Um pouco desanimado estica seus galhos para atender ao telefone, resmungando foi logo gritando sem mesmo ouvir quem estava do outro lado da linha. Sem entender o que diziam desligou e foi falar com o restante da floresta, com o rio que corria se alargando, com a montanha que dormia tranquilamente e com as árvores que se espichavam para receber a luz do sol.

Naquela noite ele ficou balançando seus belos galhos, suas folhas exuberantes e desandou a matutar pensativo sobre tudo que estava fazendo.

-Se a chuva não para, os riachos enchem e o frio congela, como posso esperar que os bichos  saíssem  das suas casas, das suas tocas, dos seus ninhos, dos seus quentinhos agasalhos só porque um velho e soberbo carvalho fica aqui impaciente? – O velho carvalho ficava triste sentindo falta da movimentação dos passarinhos saltitando em seus galhos, das lebres correndo sobre o tapete das suas folhas caídas, das abelhas que ficam fazendo zum…zum  despertando-o do seu sono relaxante e até das lagartas quando resolviam subir em seu tronco e picotar suas belas folhas.

Quando o novo dia acordou o inverno já estava fraquinho e o sol aparecia saudando a todos e avisando que logo estaria de volta.

Ali havia todos os encantos e fantasias, os passarinhos se falavam, as nuvens dançavam e as árvores com suas aventuras entoavam lindas canções embaladas pelo vento.

O sabiá, considerado o mestre da criatividade, era o conselheiro de todos e com seu canto magistral dava aula aos passarinhos. Era muita diversão, tinha animação e lanchinhos apetitosos preparados pelas andorinhas.

Tinha orquestra bem equipada: o pardal tocava flauta, o rouxinol era violinista, o bem-te-vi tocava tambor e as cigarras faziam o coro.

A noitinha era aquele alvoroço, os pais chegavam para pegarem seus filhotes e levarem para casa, precisavam ter cuidado para não serem atacados pela bruxa malvada da noite, uma coruja velha que vivia atacando filhotinhos indefesos.

E os passarinhos voam daqui, pulam dali e de repente… zap ….  Um voo rasante passa pertinho deles e foi aquele terror; a coruja resolveu atacar, mas a infeliz esbarrou no macaco que cuidou de atirar a malvada a milhares de árvores de distância.

A floresta precisava voltar a se movimentar, lembrou o velho carvalho relatando a mensagem da sua carta comprida. E assim os moradores se reuniram alguns em seus galhos, outros em seus troncos, nas suas raízes e no solo sombreado pelas suas folhas e todos retornam para suas casas prontas para cumprirem as ordens do velho e soberano carvalho e continuarem com suas tarefas que havia parado devido ao rigoroso inverno.

A natureza volta a ser do jeitinho que o carvalho gosta e, com certeza, a bicharada se encanta ao saber que em algum lugar tem uma criança lendo e rindo das suas aventuras.

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