Folhas Caídas Pelo Chão

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

O verão se fora levando com ele seus agradecimentos. Não existia muita simpatia pela estação quente do ano, pelas praias desfrutadas pelas pessoas, pelo sol carregando a noite para mais tarde, pela alegria maior que emana de todos nessa época do ano.

A sua preferência era por um clima mais ameno, tal qual o clima de outono. Sempre teve dificuldade para fazer amizades, por isso passear pelas ruas arborizadas da pequena cidade do interior era sua predileção. Pisar nas folhas caídas pelo chão e sentir o descaso que o mundo lhes proporcionava só acalmava o consolo de que aquelas folhas seriam levadas pelos ventos, abrandando seus devaneios. Aplaudia com entusiasmo o entendimento do grande escritor que disse “o outono é mais estação da alma do que da natureza”.

Cabeça baixa com os olhos no chão não a fez perceber a vinda, em sentido contrário, um rapaz caminhando displicentemente e observando a natureza com alegria demonstrada explicitamente em seus gestos.

Ouviu uma voz agradável, provinda dele, dirigida a ela saudando o dia e o outono:

– Bom-dia, feliz outono!

Não acreditou nos seus ouvidos e fechou os olhos azuis, tentando lembrar-se do som já conhecido e que pretendia esquecer. Ele estava de volta, cruzando o seu caminho, desfilando a mesma elegância, a mesma beleza, o mesmo glamour, exalando aquele amor que lhe entupia as veias e fazia paralisar seu coração.

Foi rápido, mas sua mente mostrava a cena, sempre. A confissão dele, entre beijos e carícias, dizendo que ia embora para sempre, pois seu espírito aventureiro clamava por novas plagas, outros modos de viver, novas figuras humanas, a liberdade!

E partiu…

A notícia trazida pela imprensa afirmando que morreram todos também fazia constar o nome dele da lista divulgada dos passageiros do voo fatídico. E a imagem, em sua mente, do avião chocando com o oceano formou uma figura tão clara, tão cruel, tão surreal que jamais pode esquecer sua voz clamando por socorro.

Caíra no mar, desfalecendo sem ouvir o estrondo do choque com a água. Vagarosamente despertou e forçou a abertura de um dos olhos, por onde entrava uma tênue luz, quase tapado pelo sangue coagulado que lhe cobria grande parte da face. Tentou levantar, mas uma dor forte tornou imobilizado seu braço direito.

Aos poucos lembrou-se do acontecido. Olhou a sua volta e pouco restava da enorme destruição. O pássaro de prata, em descimento vertiginoso, tal qual uma ave predadora, mergulhou no mar, porém ele ficou preso a uma parte da estrutura que agora boiava sobre as águas. A cabeça doía-lhe fortemente. Aos poucos voltava a realidade nua e crua. Começou a apalpar o braço esmagado que se prendia ao corpo, seus dedos foram subindo e encontrou o ombro ferido curvado para a frente, ao mesmo tempo que dores terríveis de uma perna quebrada o assaltavam. Aos seus pés um corpo enroscado jazia inerte, mutilado, morto; era seu único companheiro na jangada improvisada. Não podia calcular, avaliar quanto tempo passou inconsciente, naquela situação, à deriva. Desesperado começou a gritar por socorro. Gritava a cada pouco, cada vez mais com maior força e com mais angústia, nada obtendo como resposta. O som de sua voz se perdia levada nos caminhos da correnteza marítima. A sede, aos poucos ia tomando conta dele. Tanta água a sua volta e não podia beber, pois a água do mar não se bebe.

O sol foi se escondendo e em poucos minutos se faria a noite. Com ela o frio, a umidade e o vento calmo se tornaram companheiros. Tentaria adormecer e a esperança de socorro na claridade do dia renasceu. A noite, sem luar, escureceu o local e milhões de estrelas dançavam seguindo o balanço do mar. A febre já se fazia presente e começou a produzir seus efeitos, pois com pequenos movimentos da cabeça e dos olhos, fitou o morto, seu companheiro, e desejou-lhe uma boa noite!

A madrugada trouxe um vento fresco e quando o dia começou a clarear o reflexo do sol nas águas despontou belo e cruel. Acordou e procurou avistar alguma coisa, ao redor, no horizonte longínquo, porém somente água, uma imensidão d’água se mostrava em todos os limites da visão. Não saber em que posição do mundo se encontrava também martelava a sua consciência, sentindo-se desalentado, impotente. E agora, o sol abrasador avançando nas horas , queimando a pele exposta, atingindo com rigor o flagelado, parecia se divertir. O tempo passou lentamente e a esperança do socorro ficou para o dia seguinte. Somente o silêncio intenso era levemente quebrado pelo bater das vagas na embarcação acolhedora.

Principiou a escurecer e a noite apareceu novamente, e com ela um mau cheiro começou a se desprender do corpo do companheiro morto. A sede aumentara e a garganta seca começou a arder cada vez mais. A febre, as dores, o sono e o frio se juntavam ao sacrifício e a goela cada vez mais pedia água, água, água… Fome não sentia, mas a secura amordaçava a sua garganta. A agonia aumentava, somente igualada pelo fedor exalado do corpo ao lado, que apodrecia. A cada momento ficava mais difícil o respirar, inalar aquela maresia insuportável invadida pelo cheiro fétido. Sua mente, fatigada, iniciou o desejo inabalável da vinda da morte. Com a cabeça caída os soluços e o choro intenso começaram a sacudir-lhe o corpo. Por que viver naquela situação, suportar tal suplício depois de ter sido tão altivo, tão amado? Insano, implorava alucinadamente a morte.

E foi atendido!

Uma voz foi ouvida e se aproximava aos poucos, dizendo: “Não se vá. Vamos passear pelas ruas arborizadas da pequena cidade do interior e pisar nas folhas caídas pelo chão, entre árvores, deixando um aroma de renovação da vida”. Ainda se lembrou, arrependido, da resposta dada que seu espírito aventureiro clamava por novas plagas, outros modos de viver, a liberdade.

A poucos passos aquém da vida, muito perto de iniciar o caminho sem volta do desconhecido, ainda se viu como um rapaz pisando displicentemente por entre incontáveis folhas caídas na estrada, observando a natureza com alegria demonstrada explicitamente em seus gestos. Fixando sua visão naqueles belos olhos azuis, cumprimentou-a:

– Bom-dia, feliz outono!

8 thoughts to “Folhas Caídas Pelo Chão”

    1. Caro Américo. Quando leio os escritos de meus amigos portugueses vem, inevitavelmente, à minha lembrança um trecho do meu escritor favorito, José Mauro de Vasconcelos em Meu Pé de Laranja Lima: “Aí ele contou do capim que vira feno no inverno e da fabricação dos queijos. Aliás, queijos não, “caijos”. Ele mudava a música das palavras mas eu achava que que ficavam com mais música…”

  1. Obrigado pelo incentivo, caro Lorde. A cada virada nas Páginas da Vida (com licença do Américo) encontramos episódios com finais trágicos, cômicos, tristes, alegres, felizes, etc.. Só que na ficção, ao contrário da realidade, podemos escolher…

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