Foi Um Prazer Te Conhecer

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

A gaveta lotada de inutilidades precisava urgentemente ser arrumada. Estava ali há anos servindo de depósito de objetos armazenados por gerações. Quem pode explicar a razão de ser guardada uma tampinha de garrafa? E fios de linha, pregos enferrujados, rolhas, bisnaga contendo pílulas, um pé, somente um de chinelo usado? Mas a conta só veio quando não pode mais ser fechada, atulhada de elementos desnecessários.

Deixou, por instantes o violino cujo exercício já se findava e decidido tal qual um herói tirou a gaveta toda, renegando o passado e pedindo desculpas aos ancestrais, desconhecidos colecionadores. Com a valentia saindo pelos poros carregou o gavetão nas mãos vigorosas com destino ao monturo e despejou o seu conteúdo inútil, sem atentar para o crime que praticava. Chacoalhadas, batidas no fundo e com a bravura de um vencedor voltou e repôs a caixa impingida no móvel. Antes da tranca sua atenção foi despertada por um papel, um envelope enroscado, escondido no encaixe da peça, que não fora despejado por força do destino, apenas.

Dentro daquele pequeno envelope velho um manuscrito anêmico, tendo como moldura o desenho colorido já quase apagado de uma flor, jazia inerte, triste, bem arrumadinho. Podia se observar o amarelo pálido proporcionado pelo tempo encobrindo o conjunto.

Uma carta! Uma missiva velha, precariamente conservada que o tempo empalideceu!

Levou a carta às ventas procurando um perfume que por ali já passou, mas que se perdeu com a ida das temporadas de todos aqueles anos sobrevindos.

Possuído do arrebatamento da curiosidade pegou a carta delicadamente e entre os dedos, tirou o meigo papel de dentro do envelope e leu lembranças de um passado longínquo. Cada frase evidenciando saudades de uma era e de um grande amor. A caligrafia afetiva com traços evidentemente masculinos mostrava em cada letra um suspiro profundo emanado da escrita carinhosamente desenhada, agora um riscado de tinta ainda inteligível. Uma mensagem quase apagada, mas carregada de falsas expressões de ternura findava com violência, com maldade explícita: “foi um prazer te conhecer”.

Luzes fantasiosas iluminaram momentaneamente o seu rosto congestionado, a fronte corada, os olhos indignados, faiscantes. Continuando à leitura, o seu semblante mudava de expressão, alterando de radiante a sombrio, ora interrogando, ora admirando. Todo o seu corpo foi sacudido por uma grande emoção, desde que o próximo parágrafo da missiva explicava a sua incumbência principal, eis que trazia, à queima roupa, a notícia do casamento do escritor, acompanhada de justificativas insensíveis, indolentes. Apesar dos anos já corridos podia se assistir claramente, como se estivesse na presença da destinatária, acudindo-a. Ela desmaiando, amparando-se em uma cadeira próxima. “Vai ser na Igreja de Todos os Santos, ao anoitecer e no nascer da próxima lua cheia” completava a informação. A maior dor que a torturava era ver seu amor abandoná-la daquela maneira. Pequenas manchas arredondas inseridas no envelhecido papel evidenciavam as lágrimas caídas sobre o envelope. Não se deslumbrava qualquer possibilidade de não notar seu busto contendo um coração cheio de sangue e de revolta.

Os olhos magoados do leitor alarmado errava em torno daquela desagradável situação. Sentiu um calafrio após ler, reler e entender aquela infausta notícia. Uma onda de amargura invadiu-lhe o rosto. Seus pensamentos viajaram no tempo e galhardamente afrontaram o remetente com valentia, com furor, pedindo prontas justificativas pelas juras de eterno amor que ele havia por tantas vezes confessado há muitos e muitos anos, exigindo também contas de sua falsidade. E desejou ser possível que uma bomba de arrependimento fosse jogada no passado e explodisse em fúria restaurando a situação de amor e felicidade que reinava até então. Nem a trombeta do juízo final teria o poder de acalmá-lo.

Voltando-se para a imagem imaginária da desprezada tentou consolá-la, lamentando a perspectiva perdida. Pediu-lhe encarecidamente que retornasse a sorrir, pois o sorriso alegra a vida, cura muitos males, devolve a esperança. Ela, porém, irredutível só via as palavras infelizes inseridas na mensagem e ainda indagou:

– Quem é você?

– Eu sou o futuro – respondeu com ternura, alto e bom som; expressões únicas que conseguira pronunciar.

Seguiram momentos de reflexão e análise de sua consciência para definir o entendimento da situação que vivia naquele instante. Um cansaço se apossou do corpo e da mente dele. Nada mais viu, ouviu ou conseguiu ordenar em seu aforismo.

Alguns momentos depois os seus olhos foram se abrindo, incomodados com a claridade que penetrava pela janela aberta. Levantou-se, apanhou o violino deixado de lado, colocou na estante a velha carta junto com a partitura, ajeitou-o sob o queixo e empunhando o arco iniciou execução do trecho da música que tinha diante de si, dando mostras da habilidade com que lidava com o instrumento em mãos. O primeiro acorde dissipado pelos ares denunciou a melodia “Viva La Vida”.  A música de som agradável propagou pelo ambiente envolvendo a atmosfera, as ilusões, as lembranças, os devaneios.

Ao fim, tudo anotado no livro imaginário do sofrimento, apanhou afetuosamente a correspondência fatídica e sem pressa rasgou-a em pequenos pedaços. Levou-os à janela ainda aberta e diante de um vento fraco e suave atirou os fragmentos todos para o ar, agora como que transformados em uma linda nuvem de borboletas voejando; depois estendeu os braços com as mãos espalmadas para o alto e apanhou dois, apenas dois esvoaçantes pedaços da carta e levou-os para que ficassem novamente guardados no gavetão solitário!

 

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