Feliz Aniversário

 

 

 

 

(Fortaleza – CE)

Acordou macambúzia naquela manhã chuvosa. Empreguiçou-se até estralar os ossos das costas. Olhou para forro branco sem pensar muito. Virou-se na cama duas ou três vezes, mais uma esticada no corpo até que enfim se levantou. As ações seguintes transcorreram como de costume, embora aquela quinta-feira não fosse um dia comum. Começou a se despir para o banho, antes, porém, pôs o pó e a água na cafeteira e os pães na assadeira. Pronto o desjejum, foi em direção ao chuveiro. Recuou um pouco quando a gélida água tocou seu corpo, arrepiando-lhe os mamilos e os pelos das coxas. Pegou duas toalhas que lhe serviram de abrigo. Uma cobria-lhe o corpo ainda reluzente, embora a passagem do tempo já se fizesse em muitos aspectos latentes, enquanto a outra retirava o excesso de umidade das finas madeixas tingidas de preto.

No caminho ao trabalho, veio-lhe imagens dos seus primeiros aniversários.   A ansiedade da véspera, a preparação da mesa, o clima de confetes no rosto das pessoas, as guloseimas que despertavam a gula antes mesmo de preparadas. Fechou os olhos sem juntar os cílios e quase que pôde sentir o gosto bom do brigadeiro grudado na panela.

“Mamãe, posso lamber a massa do bolo?”.

As crianças se divertiam livremente. Tão livremente como nunca mais fariam. As músicas infantis mal eram audíveis dadas às gargalhadas e a correria da criançada. Ela, entusiasmada, contentava-se a cada recusa da mãe que lhe censurava a abertura dos presentes.

“Menina, não. É feio abrir os presentes antes do fim da festa”.

Vez por outra, às escondidas, ia até a cama do quarto no qual estavam os mimos e rasgava as pontinhas dos embrulhos a fim de adivinhar os agrados. Mas, a cada barulho mais intenso ou a cada timbre de sua mãe, ela recuava os instintos, retornando à festa.

De repente, voltou para si quanto a uma freada brusca que fizera ao perceber o semáforo apagado. Hesitou um pouco, prosseguindo em seguida em marcha lenta. Feliz aniversário, dizia para si como se quisesse confirmar que era realmente feliz.

“Feliz aniversário, minha filha. Tem de apagar as velinhas”.

“E não se esqueça de fazer um pedido, mocinha”, gritou sua avó materna com o fiapo de voz que lhe restava.

Feliz aniversário.

As luzes do semáforo a distraíram. Olhava a luz vermelha do painel como se desejasse que com os olhos acelerassem os instantes do tempo.

Verde verde verde…

À mesa de trabalho, ela se concentrava nos textos que vinham. A cada sentença, observava algum possível desvio gramatical. Encucava com as vírgulas e com as crases que constantemente eram alvos de suas reclamações. Naquele dia, chegaram mais matérias que o normal. Mas, não reclamou. Queria mesmo ocupar a mente que há muito andava absorta nas vésperas. Principalmente naquele dia. Aquela quinta-feira.

Feliz aniversário?

Não. Não mais. Muito diferente de alguns anos antes. Casa cheia, enfeites de bolas coloridas nas paredes e nas grades do apartamento. Salgadinhos e coquetéis. Às crianças das amigas, oferecia refrigerantes diversos e bolos. Sim. Muito diferente. Antes era feliz aniversário.

Ela, porém, nem ao menos se lamentava. Acostumou-se com o tempo. Embora, abatesse uma tristeza profunda na proximidade do aniversário. As lembranças lhe perturbavam, enchendo seu peito de uma saudade impossível de ser saciada.

Ao voltar, percorreu o mesmo trajeto de sempre, alterando apenas uma parada em confeitaria para buscar uma encomenda e seguiu direto para seu apartamento. O elevador demorou mais que de costume ou o seu estado alterara sua percepção do tempo. Enfim, veio. Saltou no sexto andar e rapidamente retirou as chaves da bolsa preta de couro. Mal entrou, sentiu um aperto. Parou por instantes como se não soubesse o que fazer. Em seguida, retirou o bolo que havia comprado na padaria e ajustou na mesinha do centro de sala onde estavam dispostas fotografias diversas.

Sentou no sofá e abriu uma cerveja belga que buscara na geladeira. Como que mecanicamente, folheou o jornal do dia sem prestar muita atenção. Na verdade, tentava em vão evitar o óbvio. Tomaria em minutos as fotografias para si. Tomou-as. Chorou copiosamente ao se deparar com as fotografias que tanto evitava, embora sempre olhasse naqueles dias. Os cabelinhos loirinhos e o sorriso no rosto mostravam a menina feliz. Esboçou um riso ao ver outra foto na qual aquela menina havia se lambuzado com recheio do bolo de chocolate da última festa de aniversário.

Olhou o verso no qual estava datado e escrito com tinta azul:

Feliz aniversário, minha filha.

Fechou os olhos e lembrou-se da filha morta no dia do seu aniversário.

Nunca mais teria feliz aniversário.

 

12 thoughts to “Feliz Aniversário”

  1. Ah como me sinto macambuzia essa semana! Já me conquistou com a primeira frase.

    Eu vi uma mistura de cotidiano com sensualidade.
    A temática em si é o aniversário. Mas se enquadra em tudo o que se vive. A nostalgia de algo.

    “Sentou no sofá e abriu uma cerveja belga que buscara na geladeira” . Nessa frase, por exemplo, vejo tantas pessoas(inclusive eu em certas horas)… Só substituir a cerveja belga por uma barata brasileira kkk sem ofensa…

    Parabéns pelo texto, Escritor!
    Merece navegar por milhares de pares de olhos. Merece que o brasileiro leia-o e se veja.

    1. Olá, estou maravilhado com este elogioso comentário. Há realmente muita nostalgia de um tempo que, de uma forma geral, é delicioso. Que bom o texto ter prendido sua atenção desde primeira sentença. Obrigado pela leitura e pelo comentário.

  2. O leitor viaja no tempo com a personagem, vai da nostalgia à melancolia e se impacta com o final terrível porém real que afeta várias famílias nessa sociedade violenta e cruel que sensacionaliza bobagens e desvaloriza a vida. Parabéns, um ótimo texto que nos deixa sem palavras no momento pois as mesmas são substituídas por reflexões…

  3. Belo texto! Fui fisgado desde o primeiro instante. Então, deixei-me ser levado pelas forças das palavras que se uniam e formavam um só fio. Surpreendente! Raro! Parabéns!

  4. Esse mexeu comigo. Me identifiquei demais. Me tocou. Apesar do fim não me pertencer.

    Ele me mostra como tentamos fugir de algo (ruim, quase sempre) mas sempre há um momento em que nos lembramos e a dor/sentimento nos vem tão forte, quanto no dia em que ocorreu. É algo indescritível.
    Belo texto. Muito bom mesmo. Queria tê-lo escrito. Obrigada!

    P.S.; essa “paranóia” por vírgulas e crases me lembrou uma pessoa. 🙃

  5. Palavras,palavras,palavras! Como pode umas simples letrinhas, se amarrarem em palavras e exportar pata tão lonje nossa imaginação. Eis o poder das palavras, que morrem com o tempo e se enterram nas lembranças e por fim ressucitadas na imaginação. Parabéns meu caro escritor. Helder Felix.

  6. Realmente um belo texto, faz a reflexão de que a vida as vezes pode ser imprevisível, e por isso devemos aproveitar ao máximo nossos breves momentos felizes.
    Parabéns ao autor e continue com esse belo trabalho.

    1. Obrigado pelo elogioso comentário. O retorno do leitor e a vontade de produzir um texto que causa reflexão e entretenimento são elementos preponderantes para continuarmos na árdua e gratificante arte literária.

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