Felicidade

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Estou feliz, disse ela. Ele levantou os olhos da malga e sorriu. Enlevados olhavam para os pequenos que se iam debatendo com a tigela de sopa com broa migada. A luz da lareira, a instantes, afogueava os rostos contentes pela ceia.

– Porque está feliz? – Perguntou o mais velhinho.

– Estou feliz por podermos ir para a cama de barriga bem aconchegada.

Como era fácil ver aquela mãe feliz, bastava para tanto ter com que fazer uma boa panela de sopa, e broa para acompanhar, para se deleitar com o ruído das colheres no vaivém de encher e colocar na boca. Não havia mesa, nem fazia falta, era sobre os joelhos que cada um acomodava a malga, aquecendo-os.

Todos em volta da lareira olhavam para o tacho de barro em cima da trempe que a mãe mexia sem parar. Os primeiros “farrapos” já se viam. Pouco depois a mãe retirava cuidadosamente o produto que viera ao de cima para uns cestinhos. Amanhã, aqueles dois cestinhos seriam a guloseima que faria parte da refeição. O requeijão era então dividido em partes iguais, sem diferenças pelo tamanho ou idade, cada qual tinha direito ao quinhão.

Muitas vezes a porção que lhe cabia era dividida pelos filhos. A sua alegria era ver como os filhos sorriam a mais um bocadito que lhes aparecia pela manhã junto ao café de cevada.

Dez para doze anos que estava casada, e como fora difícil esse casamento. Desde os tempos em que sem permissão viera servir para uma casa fora da terra, atrás de um rapaz que os pais não gostavam. Ali, eram os pais dele que não aceitavam o namoro.

O namoro prosseguiu em pequenas escapadelas às escondidas, como se namorar fosse crime. Nada nem ninguém conseguiria evitar esse namoro tão criticado por ambas as famílias. Da parte da dela, os recados para regressar ou deixaria ser considerada filha. A dele, as ameaças dos irmãos mais velhos e o controle de não o deixarem sozinho.

As fugas à noite fizeram com que o amarrassem à cama, mas nem isso impediu os amantes de se encontrarem. Mas um dia tudo mudou. A barriga dela começou a crescer. Foi despedida.

Sem um lar onde dormir, dormiu nessa noite num buraco que fez num morouço de palha. No outro dia bateu às inúmeras portas, que se lhe fecharam, à procura de emprego.

Desesperada regressou à sua aldeia a pouco quilómetros dali. O medo e a vergonha levou-a a casa da tia que a acolheu. O choro impedia de comer. O que seria da sua vida. Estava desgraçada. A pobre via-se abandonada, e sem recursos para se sustentar. Valeu-lhe a generosidade da tia naquele dia, mas até quanto tempo mais? Com os pais não poderia contar, não que a mãe não a recebesse de braços abertos, mas o pai era duro e a mãe não se atrevia a contraria-lo. De manhã, a voz grossa do pai fez-se ouvir dizendo à irmã que a sua casa era a casa da sua filha. Emocionada chorou, mas desta vez de alegria.

Fez-se o casamento meio às pressas, da parte dele só apareceu um irmão. Viveram um tempo na casa do pai e depois numa casa emprestada. Ele entretanto ingressou na vida militar. Pouco depois sofreu um acidente ficando hospitalizado seis meses. Foi nesse entretanto que lhe nasceu o filho. Sem dinheiro, comia em casa dos pais.

Mal recuperou do parto ganhava o dia fora no que calhava pelos campos. Sempre com o seu menino atrás que amamentava a tempo e horas, deitado numa gamela com uma trouxa a servir de cama.

Finalmente o seu homem regressou do hospital, mas naqueles tempos difíceis não havia trabalho para ele. Na terra dele sim, como caiador junto da sua família. O pai recusou-lhe trabalho, apesar de ver o filho na maior miséria, valeu-lhe o seu irmão do meio que tomou a sua defesa, e foi ele que lhe emprestou uma bicicleta para se deslocar.

Com uns dinheiritos apurados, alugaram uma casa na terra dele. Veio o segundo filho. À alegria do nascimento sobrepunha-se à preocupação de mais uma boca para sustentar. Entretanto os pais dele aceitaram o casamento, e ofereceram uma casa velha que pagariam como pudessem. Senhora de brios, ela, pediu ao seu pai para ser fiador e pagou a casa ao sogro.

A fome era uma constante nos invernos mais chuvosos, aí não havia forma de ganhar dinheiro para os gastos com a comida, mas uma broa aqui, umas batatas acolá, e lá iam sobrevivendo.

Quando a comida escasseava, ela dizia já ter comido para deixar pro seus meninos e pro farnel do seu marido que ia trabalhar para fora. Este, nunca comia tudo deixando metade no fundo da pequena marmita que dividia com os filhos quando chegava.

Sim, estava feliz, sempre que conseguia uma refeição para a sua família.

 

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