Eu Quero Ser Preso

 

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Pedro olhou para a magra carteira com um semblante carregado. Uma única nota de cinquenta euros era quanto tinha até ao final do mês. Pegou na receita médica, amarfanhou-a e deitou-a para o lixo. Ou o pão e o leite ou os medicamentos. «Medicamentos para quê? Para prolongar uma vida de miséria? Isto assim não é vida». Tinha que tomar uma resolução, desse por onde desse. Estender a mão à caridade ia contra os seus princípios, nunca o fez e não era agora depois de velho que o faria, antes a morte.

«O senhor tem que aviar esta receita ainda hoje e começar a tomar estes comprimidos». – Dissera-lhe o médico.

«Sim senhor doutor». – Anuíra, embora cheio de dúvidas, como é que os pagaria? Mas orgulhosamente agradeceu e saiu do consultório sem deixar transparecer a sua penúria.

Longe iam os tempos de abundância, nesses tempos a saúde não apoquentava como agora, tinha trabalho e os ganhos davam e sobravam para os gastos. Solteiro e sem família era agora que se arrependia de não ter arrumado uma companheira, mas doente e sem trabalho vivendo da mísera reforma, quem olharia para ele.

Tinha que tomar uma resolução, mas qual? Pensou, pensou, até que uma ideia meio absurda lhe veio à mente. Sim, era a única saída: Assaltar um banco.

Durante toda a noite não dormiu, às voltas para arquitectar um plano credível. Entre planos e problemas de consciência, venceu a necessidade de dar uma volta à vida, ainda ponderou a hipótese do suicídio, mas isso não, seria a última solução se acaso tivesse coragem para tanto. Estava decidido, iria assaltar o banco local. Apelou a toda a sua memória de leitor assíduo de livros policiais e durante toda a noite praticou os passos a dar no assalto.

Como de costume, o banco abriu às oito e trinta. De rompante os clientes entraram e foram cumprimentados e cumprimentaram os funcionários, num tratamento usual de quem se conhecia.

– Mãos no ar, isto é um assalto! – Berrou um encapuzado, entrando de rompante no banco, ameaçando com uma caçadeira de canos cerrados – Vá que ninguém se mexa e tudo correrá bem. Rápido, enche este saco – rosnou o assaltante apontando a arma ao caixa.

Aquela hora do dia o assaltante apanhou toda a gente desprevenida. Meia dúzia de clientes e os quatro funcionários tremiam como varas verdes. O caixa meio atrapalhado, ia enfiando os maços de dinheiro um pouco atabalhoadamente, enquanto disfarçadamente accionava o alarme silencioso, directo à polícia. Não era a primeira vez que assistia a um assalto, sabia por experiência que tinha de agir na maior calma para que não houvesse sangue. O seu olhar experimentado reparou no nervosismo do assaltante. «Estes são os mais perigosos, mas calma, muita calma» – pensava o caixa, raciocinando friamente, fruto da sua experiência militar de ex-comando, enquanto procurava uma oportunidade para o abarbatar.

– Mãos no ar!!! Gritou Pedro, de rosto descoberto.

A surpresa foi geral perante aquela ordem, inclusive a do assaltante que não esperava ser surpreendido pelas costas. Aterrado, levantou as mãos deixando cair a caçadeira com estrondo. O facto foi aproveitado pelo caixa para o manietar.

Surpreendido e meio em graça, Pedro olhava para tudo aquilo como se não fosse ele o autor de aquele reboliço.

– Muito obrigado senhor Pedro, é preciso coragem para fazer o que fez – disse o caixa.

– Mas eu…- gaguejou Pedro, no preciso momento que entra a polícia e algema o assaltante.

Seguiram-se cumprimentos, enfatizando a coragem de Pedro ao enfrentar o ladrão com um dedo esticado no bolso da gabardina. Da central chegou o gerente do banco, que aproveitando as câmeras de televisão que tinham acorrido ao local, para entregar um cheque de recompensa ao herói do dia: O senhor Pedro.

Já em casa, Pedro reflectia na sorte que teve, quando nervoso entrou no banco e de dedo esticado simulando uma arma, gritou mãos no ar, sem se aperceber que de costas à sua frente estava um verdadeiro assaltante.

«Sorte minha, azar do outro! Por uns tempos não me vou preocupar com o dinheiro para a farmácia, mas quando acabar?!…Vou ter que arranjar forma de ser preso, Talvez com uma caçadeira igual, e assim que me prendam ganho direito a comida, assistência médica e segurança, na prisão para onde me enviarem! Assim não morrerei como um cão sem dono!».

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