Eu Preciso Te Falar

 

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

Cansado, esquelético, roupas desalinhadas, barba e cabelos crescidos, meias e sapatos rotos, sigo a rotina de minha vida. Confesso que foi minha escolha é verdade, porém involuntária. Tudo era somente uma brincadeira e foi desenvolvendo, me absorvendo e de repente eu me assisti deste modo. Vi a minha força ancorada nos seus passos, assisti que sem você não tem passagem e eu, simplesmente não me entendo. Observei um amplo afeto gritar adentro de mim, quão grandemente eu previ há muito tempo, desde muito antes que você partiu…

Mas é verdade, não posso negar a sua sinceridade desde quando você veio me contar essa sua paixão inesperada, súbita, por distante pessoa…

Há anos que não aquieto, minha busca é incessante. Todas as horas, todos os dias saio à sua procura e preciso te encontrar de qualquer jeito. Cuidar de minha própria pessoa, de minha aparência e de meus sentimentos é necessário, mas jamais urgente, pois ando há tanto tempo ao seu encontro que não mais faço a contagem do passar das estações. Primavera, verão outono e inverno se revezam no caminho que transponho e a cada parada do trem da vida, minha esperança se renova. São asas de uma ilusão, como um sonho audaz voando tal qual uma águia esvanecendo bem ao alto.

É aqui! Estação das Rosas, nome bonito e esperançoso! Desço do trem da vida nesta parada, num dia de domingo. Olho para todas as laterais e sorteio uma pela qual me aventurarei. Esquerda, direita não importa e pela minha indecisão o desenho das pedras do mosaico assentadas no piso indicam – para trás! Volteio na ponta dos pés e me dirijo para o lado da esperança.

Ando muito e sem destino, vejo o sinal de fim da estrada e por isso imagino que ainda é cedo. Tudo em vão, não a encontrei, apenas me enganei como sempre e em várias ocasiões. Renovo a esperança e volto embarcando no vagão primeiro do trem da vida, agora parando na estação do Sol Nascente. Ali o astro-rei sempre nasce, nunca morre. Eternamente jovial, clareia suavemente, apenas bronzeia, jamais queima e orgulhosamente mostra seu esplendor para o sempre. Diz soberbamente o óbvio: a todos que ao mostrarem o rosto para ele as sombras de suas cabeças ficarão voltadas para trás. É avarento, pois não oferece nunca lugar à lua e trata com carinho quem queira sempre o idolatrar. O ator principal do Reino do Sol recebeu o meu desprezo por não se interessar na minha súplica de te encontrar.

Neste caminho que eu escolhi e não tenho para onde ir ando contra o vento numa corrida competitiva com o trem da minha vida e deixo-o para trás acumulando uma distância considerável. Olhei e vi-o parado em outra estação que ultrapassei rapidamente, já que fiz de conta que é muito cedo para concorrer e deixar o encontro da emoção de estar, mesmo por um momento, ao seu lado. Não sei ao certo, mas me pareceu que havia alguém em sua companhia e não foi o acaso que o colocou ali.

Um tropeço e desabo, embarco novamente agora na Estação da Revolta. Meus sentimentos desejam o contrário mas deveriam almejar que você seja feliz. Tenho saudades e acredito que seja bom isso, muito melhor que um caminhar vago e portador de pouca ou nenhuma esperança. Me afloram na lembrança todas as coisas de que você me ensinou, principalmente àquela que dizia amanhã teremos um novo dia, recordado como se fosse um sonho perdido ou abandonado. Hoje não há mudança, pois, atendo a vontade de contar com a alegria de estar novamente à sua frente, com mais carinho, de novo jeito, bem baixinho:

-Eu preciso te falar.

Prossigo e empaco novamente, agora frente à Estação do Coração, do alto coração! Pulsações mais fortes, permaneço aqui, deixo falar a voz do peito porque não dá mais para ser portador de um sentimento, não mais carregador de significado. Eu pretendo doravante seguir por onde ninguém for, na contramão do acaso. Creio que estes devaneios têm sentido pois é levado por esta inseparável emoção provocada pela minha fértil imaginação, na esperança de que seja descoberto o lugar onde está escondido um saudoso e último amor.

A busca chega, enfim, na Estação Consolação. Ambiciono voltar, apagando o sentimento de uma bela ilusão porquanto não dá outra vez para viver aceitando a falta de você estar comigo, de te tocar, de te ver sorrindo.

Mas… eu preciso te falar!

 

3 thoughts to “Eu Preciso Te Falar”

  1. Parabéns escritor! Após ler a introdução do texto, com o começo da estória, passei a “ouvir” a música cantada pelo saudoso Tim Maia. Ela foi me envolvendo com o desenrolar do tema e senti-me no centro do drama do personagem, pois ele não foi marcado com uma identidade definida e por isso me senti como se fora eu aquele que “precisava te falar”. Arrasou, caro escritor!

  2. Olá Flávio!
    Parabéns, seu conto é excelente.
    A música sempre imprime em nós lembranças e emoções, muita sensibilidade sua em usá-las neste conto!
    Gostei do estilo, no conto não há uma identidade definida para um personagem, o leitor consegue colocar-se no drama e viver sua própria história.
    Abraços e sucesso!

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