Eu Gosto do Jeito Com Que Você Me Faz Queimar

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(Patos de Minas – MG)

Ainda me sinto perdido, sem chão, como se pisasse em falso a cada passo meu, me sentindo cair a todo instante. Já faz algumas semanas que não a vejo, desde aquela fatídica noite, aqui, em meu apartamento. Ando muito agitado, talvez ansioso demais, como se eu estivesse passando os meus dias esperando pela imagem dela entrando repentinamente por aquela porta. Mas no fundo, sei que isso não vai acontecer.

Ela deve esperar que eu vá atrás dela, que faça juras de amor e prometa que tudo vai mudar. Mas eu não sou desses de prometer, não sou de falar, de planejar as coisas. Eu simplesmente faço acontecer, isso sendo bom ou não. Ela sabe que não sou bom em dizer palavras, eu só consigo escrevê-las por trás de pseudônimos e acontecimentos fictícios. E mesmo que eu prometesse, não acho que algo iria mudar.

Não ando mais conseguindo dormir sóbrio, ou ao menos lúcido. Apenas bebo e desmaio. Bebo tanto, que perco a consciência e não saiu mais do lugar. Já perdi a conta de quantas garrafas de vodca, uísque e rum eu já tomei durante esse tempo que não lhe vi.

Você não poderia imaginar a frequência com que eu tenho sonhado com você e as tantas vezes que acordei durante a noite, achando que era você voltando para a minha cama e não uma fã qualquer… Sim, eu fui descoberto e você já deve estar sabendo disso. “O mais novo grande autor brasileiro”, “O jovem pródigo escritor”, são meras bajulações, além de erronias, formas com que andam me chamando por aí. Sempre achei que essa seria a causa do nosso fim e não que ele viesse antes disto.

Foi inesperado o modo com que os jornalistas me acharam. Se me lembro bem, era uma terça-feira de manhã, eu acordei – infelizmente, eu acordei – na calçada de um bar copo sujo, com a claridade do dia me incomodando os olhos, segurava uma garrafa de vodca barata vazia, sem a minha carteira, imundo e fétido. Eles estavam me esperando na porta do meu prédio, eram muitos, nem tenho ideia de quantos eram. Foi bem difícil entrar no meu apartamento, mas até que as fotos não foram das piores, para um mendigo do lixão.

Essa pseudo fama toda – vazio e vulgar – se tornou uma maldição para a minha vida. Comecei a viver cercado de pessoas com quem não quero estar e não consigo estar com quem eu mais quero. Aquele agente desgraçado – eu deveria demiti-lo, até o faria, se ele não fosse a única pessoa em quem ainda posso dizer que confio – diz que fez isso pensando no meu bem, que eu estava entrando em depressão, ou em um alcoolismo profundo, e precisava de mais pessoas me bajulando e me ocupando. Mas não foi de todo mal, ao menos agora eu tenho companhia de fãs enlouquecidas que não me deixam entediar e mais dinheiro para gastar em bebidas fortes para me fazer esquecer o que mais me faz mal.

O meu agente não é uma pessoa tão ruim, mesmo sempre enchendo o meu saco, dizendo que devo maneirar com as bebidas alcoólicas, que devo usar camisinhas sempre e que não produzo mais nada desde que você foi embora. Sobre o álcool e as camisinhas, eu juro que estou tentando sempre, mas sobre não conseguir mais escrever, acho que a fonte realmente secou.

Eu gostaria muito de saber o que anda fazendo sem mim, como anda vivendo, o que faz agora para preencher o tempo que passava comigo antes, o tempo que estávamos juntos. Talvez eu devesse ser mais corajoso e te procurar pelas ruas dessa grande metrópole brasileira, mas eu não saberia por onde começar e muito menos, quando parar.

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