Eternas Ondas

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

O mar não tão calmo, nem tanto furioso segue seu eterno ritmo, sua dança maravilhosa, meneando sobre um solo ora tão profundo, ora tão raso, da mesma forma como se alteram as variações da existência, da eternidade.

Impossível mensurar o tempo que o método, os movimentos das águas se repetem. Dizem os astros da razão que são milhões de anos, afirmam também bilhões de anos. Números como dezenas e centenas ficam fora de cogitação, salvo dos crédulos, dos religiosos que estimam em milhares apenas, baseados nas narrativas bíblicas e na fé.

“Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio tão furioso;”

Nesse vai-e-vem incontável, eterno, em algum lugar algumas gotas reunidas e desfrutando a singeleza da movimentação, flutuando preguiçosamente sobre algumas ondas do mar que se formam pela ação do vento sobre a superfície da água se aproximaram da praia mais próxima, um pequeno e maravilhoso recanto inserido na terra, lugar tão exuberante quanto afrodisíaco. O céu azul e aveludado declarava não poder haver espaço mais belo e agradável em toda a face da terra.

Na alvura das areias da praia distinguiram um jovem casal de humanos, apenas o par, apenas os dois, sem mais ninguém a os acompanhar, envolvidos em transa afetiva sem tomar conhecimento de qualquer ser ou coisa estranha àquele idílio, àquele momento de frenética paixão. Suspiros e soluços de amor emitidos por ambos eram levados pelo vento e se espalhavam sobre a relva costeira.

O sossego das gotas das águas do mar que até então curtiam das suas e de todas as calmarias foram gradativa e rapidamente se transformando em fúria, em indomável furor, zangadas pelo intruso desfrute da calma proporcionada pelo seu mundo, considerado por elas como particular e exclusivo. A intolerância com a presença daquelas figuras humanas, com o cantar da voz suave da moça enquanto alisava com as pontas dos dedos os cabelos louros do rapaz, desencadeou uma descarga emocional rápida, violenta, disparada por impressões estranhas, acompanhada de sinais claros e visíveis de excitação e da diminuição do controle do comportamento fez daquelas águas antes mansas, pacatas, mudar a conduta e cogitar severo corretivo a petulantes inimigos em potencial.

Transformadas em arautos da ocorrência, convocaram todas as forças do oceano, especialmente seus maiores aliados, os ventos, a promoverem uma revolta gigantesca demonstrando todo o seu poderio, agora transformadas em águas rebeldes. Assumiram a violência demonstrando seu empenho e com isto retomando o espaço que julgavam somente seus, exclusivamente seus, derrubando e massacrando aqueles e outros tantos seres viventes que ousavam ocupar ambiente tão particular, tão reservado.

O vento açoitava a vegetação e em seu furor, ante a cena considerada infame, invadiram as margens, afugentaram os pássaros, inundaram a terra e encharcaram seus habitantes nas cercanias.

“Derrubando homens entre outros animais,
Devastando a sede desses matagais;”

A exaltação, incontida e não reprimida, atingiu inocentes plantas e modesta vegetação, avassalando as margens e tragando com sua gula ferrenha os produtos da devora brutal, da devastação produzida. Sintomaticamente ouviam os movimentos da fúria, transmitidas pelo inepto beiço raivoso do trovão e seu consequente raio sinuoso de força e luz riscando ou cortando a atmosfera sobre o episódio, informando aos gritos: suas imagens terão como formato o último coágulo de sangue em meus lábios.

A sua reflexão fantasiosa seguiu uma imaginária ordem dada pelo que mais lhes faltava, o discernimento.

De nada valeram os votos vencidos dos que vislumbraram naquela cena inocente e romântica apenas demonstração de amor e afeto. Contrários aos argumentos vingativos estes apregoavam a paz e a tranquilidade, o bem entre todos os seres existentes sobre o planeta. Dos gestos pacatos e das palavras emitidas, ouvidos moucos se recusaram a ponderar argumentos serenos e por fim a maioria venceu.

A chuva não veio, não participou do espetáculo. Diante da “trovoada seca” somente o céu permaneceu claro, límpido e sem nuvens carregadas, indiferente aos clamores das ondas.

Como na humanidade, a emoção superou a razão e lábios furiosos ditaram a sentença.

“Devorando árvores, pensamentos seguindo a linha
do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso,”

Amigos e inimigos se unem ou se afastam. Um incentiva e ajuda enquanto o outro desdenha, reduz o valor merecido, prejudica. Alguns promovem ajuda e outros se escondem ou se calam. Existem os amigos visíveis e os ocultos, não sabemos quem nos vem procurar. O vento em forma pacata, o ar em movimento suave, que produzindo meiga brisa, refresca os entes em sua trajetória, semeia a terra transportando vida, levando o calor ou trazendo o frio é um deles. Mas pode também se transformar num inimigo, num destruidor portador de forças descomunais quando se altera, quando investido de cólera incontrolável produz tempestades e turbilhões.

Qual a condução que trouxe àquele destino a parelha – as mãos da imprudência pura ou os olhos do inimigo ocasional, porém cruel – não podemos saber. A história individual ou em conjunto de ambos, os seus modos de vida, as suas formas de ser, a biografia de cada um alcançada pela própria inocência, pela candura da jovialidade ou a conduta irrefletida dos racionais, inegavelmente é que incentivaram as diretrizes do caminho das águas e dos seus ventos.

A ordem é destruí-los e traga-los. Clamores emitidos por brados imponentes anunciaram e determinaram que viéssemos buscá-los, incautos!

Vingança efetivada, retaliação consumada e território retomado, a calmaria volta e nuvens, muitas nuvens passam e vão adiante. O vento em fúria, as águas tormentosas recuadas cessam o agito e inicia o caminho da paz anterior. De instante a instante, vagarosamente é observada a transformação que vai assumindo o azul da tranquilidade e a brancura serena da bonança. Simultaneamente à chegada das estrelas uma grande lua principia a subida para os altos, no caminho do céu, emitindo uma luz na tonalidade vermelha deixando no escuro do mar, quase apagada, uma trilha sanguinolenta.

O vento, agora aplacado, não mais furioso volta a ser brisa, movimentando suavemente as gotas d’água que novamente flutuam, candidamente sobre as espumas do mar. É presumível, no entanto, que se o vento amigo não as abrigasse é porque multidões ele foi arrastar.

 “E se teu amigo vento não te procurar,
É porque multidões ele foi arrastar;”

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P.S. Trabalho inspirado no poema da letra e música de Zé Ramalho – Eternas Ondas – destacada em itálico)

assista e ouça:

 

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