Estilhaços

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 estilhaços

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)

A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca.

Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos.

Deste apartamento pequeno, quarto e sala, cidade provinciana, não exala quentura. O frio – fazendo de mim fantasmagoria entre uma e outra lembrança. Movimento-me, é certo. Com meus passos? Antes um títere, agitado por cordéis de sabe-se lá que mãos. Estas heranças atávicas, estes sulcos em minha pele e, por fim, minha completa inaptidão. Hesito.

Li, em algum lugar, a propósito da magnitude do contingencial. Meus dias, conquanto, maquinais. Em vão, a distinção do calendário, cada dia com seu nome próprio, específico. Isto e aquilo, imperturbavelmente. Logo cedo, acabo reduzido pelo trabalho. Faço relatórios, contorno palavras nas quais descreio absolutamente. Mas sempre presente, aplicado, diligente. Também eu apreensivo ante o aceno da indigência. Do que me resta dos dias, o ponto batido, malbarato a olhar estas paredes, dois ou três quadros. Gauguin, sua tela ‘Jacó e o anjo’, devolve-me tempos de conflitos vários, balbúrdia e o regresso obstado por não sei que força feérica. Permaneço. E a luta sempre a mesma, não com anjos, mas com imagens fantasmagóricas, as quais nomeio Laura, Adonias e Gaspar, eu mesmo.

O celular sempre toca. Vejo o nome de Laura na tela, a tenacidade gravada em cinco letras. Até hoje, não sei quem se fora, se ela, ao sair de casa com malas e livros, ou eu, que permanecera, deixando a porta cerrar-se, fechando-a eu próprio. Ainda assim, essa teimosia, o auto-engano de Laura em querer romper este ferrolho empedernido, que me tornaram. Digo, tornaram, isto mesmo. Os gritos de Adonias, a sua fúria que, materializada em homem determinado, cinge outros tantos. Menino, meu primeiro contato com o mundo adulto deu-se através dum ferrete. Meu pai e outros dois, funcionários seus, mostraram, ao menino, o que é reservado aos traquinas que, descuidadamente, derramam o leite há pouco retirado da vaca. E me explicavam. Ao menos, não carecia fundamentação sentença tão cruel.

– Isso custa dinheiro, diabo!

Laura não entendia tamanha inabilidade para o amor. Insistia, tornava a ligar dia após dia. Nunca, uma reposta minha, este coração duro, medíocre. Ou talvez compreendesse e buscasse me salvar. O látego, Laura, batia na carne, perfurava, invadia-me, apoderava-se de mim e eu só pensava no revide. Acabei fraco, restara-me expor estas feridas, por outros olhos impenetráveis.

One thought to “Estilhaços”

  1. Belíssima narração, digna de um literato. O conto em sua exposição obriga-nos, pobres néscios, a ter às mãos um dicionário. O personagem principal prende a atenção e a terminação leva-o a um exame de consciência, possivelmente possuidor de uma força reparadora.

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