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(Itabi – SE)

Seis e meia: pontualmente, a moça de vestido colorido se levantava e colocava para secar o coração afogado nas cordas esticadas sob o céu já claro. Por volta das oito ele já era seguro o suficiente para não causa-la uma hipotermia e, então, a moça de vestido tirado recolocava um coração denso no buraco putrificado e saía. O sol fazia o restinho salobro lacrimal evaporar, o calor deixava o sal fino da dor acumular no fundo do seu peito remendado. No fim do dia, quando o sol sumira e a noite já estava quase úmida e o vestido não tão colorido assim voltava ao corpo curvado, a mulher chorava acabando-se nela. Chorava, chorava, chorava: não sabe de que, se de saudade do doce ou de tristeza profunda por ser só. Inundava-se mais uma vez em toda a madrugada filmada por dois olhos cristalinos e doloridos; encharcava o coração salgado com água insonsa e límpida, revogava o trabalho diurno de secar-se e instituía um ciclo quase enjoativo. Chorava, alagava e adoecia. Toda noite, toda semana, em todos os meses nos últimos quatro anos. Quando vou secar, perguntava louca, desesperada ou desentendida. Levantava, no dia seguinte que parecia o mesmo de mil atrás, e estendia seu coração no varal verde-limão, prevendo o que aconteceria no restante do dia. Secou-se e foi caminhar por aí, esperar a hora de começar a se regar. Não lembrou-se como, mas, naquele dia que tinha a cor do de outrora, sorriu quando viu-se refletida no céu azulzinho. As nuvens pairavam para um lado e para o outro, numa brincadeira repetitiva de sopros amigos; há muito percebera que cada dia ganhava mais uma nuvem macia e que tal acréscimo só dela podia vir. Seu líquido secava e formava a maldita nuvem pálida e, por isso, tinha obrigação de retomar a si quando já não se enxergasse mais: quando as nuvens se tornavam idênticas ao teto cor de escuridão, ela voltava para casa… com ela inexistindo acima de si própria, podia afundar-se no mar profundo de sua desconhecida dor cuja fonte explicava-se pelo nada. E aí, largada, após sofrer fissão, ela alagava-se. Novamente. Seis e trinta e cinco: ela levantou, secou-se e saiu. Atrasou sua secagem e sentia-se imensamente pesada nesse dia, olhou-se e viu que era cinza, feia e elétrica. Cortava-se em raios grandes, compridos e estrondosos. Viu-se e a dor se antecipou, quis chorar frente a si. Respirou fundo, desviou-se e correu para onde ela não pudesse se ver. Chorou às dez. Na madrugada fria e chuvosa estava encharcada, o coração bombeava quanto podia, mas a água salobra pesava e dificultava seu movimento naturalista, chovia fora do quarto e dentro dela. Alagou-se. Às seis e meia nada fora mexido. Às sete, o varal continuava vazio. Dez da manhã de um domingo e o céu não tinha uma nuvem sequer. A tempestade passou, o solo agora precisa secar. E a menina cuja dor fizera alagar, chorou com a intensidade das gotas vindas do céu; fingiu-se natureza e achou que tudo podia suportar, mas desconhecia o tamanho da sua ferida e o buraco sem fim que tinha sua alma: podia chorar por anos seguidos e as lágrimas não secariam. Ela era sua própria dor. Morreu-se, de tanto seu peito doer ou do vazio em se alagar, nada há como afirmar. Só se sabe que a menina morreu triste e molhada por seus olhos ocos; quem um dia jardim acabou-se em lago tomado, em terra invadida por forças cúbicas revoltosas e azuis. Foi-se, como numa rebolada de correnteza bruta; foi-se, chorando em silêncio, numa madrugada que chorava o mudo do mundo, lacrimejar noutro lugar. Às duas da madrugada o corpo que não se chama mais ela continuava respirando a morte e o inexistente. A não-vida vivia num corpo molhado, num pedaço de nuvem caída e na matriz do que acha-se ser tristeza. Seis e meia: pontualmente, o mundo viu amanhecer um céu sem nuvens e um pouco sem cor. A fonte se esgotou, escondeu-se debaixo dum teto de concreto e fez pequenina a beleza de olhar a vida passar. Às seis, sete, oito e dez horas olhava-se o céu e via-se a nuvem que não formou. Acabou, tudo de belo e alvo foi-se junto com o pedaço encharcado dela: não haverá nuvem que se molde livremente, pois, não se sabe porquê ou como, a menina de vestido colorido, que pendurava-se num varal fino e assistia-se evaporar, moldar e embelezar o mundo ruim, num surto de loucura ou dormência da alma, ousadamente decidiu não secar. E os dias que se repetiam há tempo demasiadamente longo, obteve nova cor: azul claro, limpo e puro, sem manchas e vãos; azul corre-solto e livre. Um azul típico de alma que não secou.

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