Espinhos da Profissão

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

O mês foi novembro e o ano… já se foram tantos! Preparando para encerrar o expediente da semana, fui avisado pela secretária que havia alguém para uma consulta, vindo por indicação de um cliente do escritório.

O homem, apesar de bem vestido, estava desleixado e demonstrava desânimo, cansaço, irritação e suas olheiras eram amostras que passava por sérios problemas. Acostumado com situações semelhantes, não fiquei surpreendido quando se identificou como um pequeno empresário, em dificuldades financeiras. Sua empresa estava em situação pré-falimentar, com fornecedores pressionando o recebimento de duplicatas atrasadas, impostos a recolher, somente o pagamento dos funcionários, até então, estava em dia. Por isso, dizia ele, já não mais conseguia alimentar-se ou dormir e o pouco que conseguia era acompanhado de pesadelos. Confessou que seus nervos em frangalhos não lhes permitiam que administrasse a empresa com a tranquilidade necessária, tinha dificuldade para se concentrar e um profundo sentimento de culpa, por isso, aconselhado por um amigo, veio a minha procura em busca de socorro.

Procurando acalmá-lo o mais possível e tentar diminuir a sua visível depressão, orientei-o no sentido que a Justiça tem remédio para situações semelhantes, por intermédio do instituto da concordata preventiva. Porém, somente após analisada a situação real da empresa através de seus documentos poderia até tentar uma moratória amigável, negociando com os credores, antes do remédio jurídico vigente à época. Enfim, após a exposição de várias possibilidades, judiciais e extrajudiciais, que agradava o cliente em potencial, reforcei os argumentos com o que costumeiramente fazia efeito, em casos semelhantes:

-O senhor cuida de sua empresa que eu cuido dos problemas, assim juntos haverá condição, então, de desfrutar da tranquilidade necessária para sair dessa situação e voltar a ter uma vida normal e próspera!

Já bastante aliviado, pois horas já havia passado desde que começamos a conversar, ficou acertado que na segunda-feira, à primeira hora, o cliente traria alguns documentos para exame, assinaria a procuração constituindo-me seu advogado e logicamente, algum valor para adiantamento dos honorários, que ficaram para ser estipulados. Na saída, o inevitável “obrigado doutor”.

O domingo era de festa, pois em razão do aniversário de meu casamento – por isso a lembrança apenas do mês – reuni os familiares e fomos almoçar em um alegre e barulhento restaurante italiano, no bairro do Bexiga, lá mesmo na Capital de São Paulo. Quem conhece sabe que esse ambiente é de festa sempre, haja ou não motivo para comemorar. Ao erguer o copo para o brinde da confraternização, avistei adiante, após algumas mesas, no canto do salão, alguém que me fitava sério e sisudo. Era ele, o cliente de que falamos, e imediatamente fiquei feliz por notar que havia superando, pelo menos a crise emocional, pensei. Cumprimentei-o, sem me levantar, com um aceno de cabeça e um sorriso, porém, não fui correspondido.

À saída da cantina, junto à porta, lá estava ele, visivelmente irritado, aguardando e interpelando-me agressivamente, disse:

-Então é assim doutor, dessa forma que o senhor assumiu os meus problemas? Vai ver que está até gastando por conta do que me cobrou!

Surpreso, não tive tempo sequer em responder, pois ele saiu imediatamente, pisando firme e rápido, desaparecendo na primeira esquina daquela rua.

Raciocinei, então: o homem entendia, contrariado, que apesar da iminente ruína prestes a descambar sobre sua vida, tendo eu assumido os seus problemas, não era justo que estivesse ali, a me divertir e não estar em casa infeliz, melancólico, lamentando pela sua situação.

Nunca mais voltou.

(conto baseado em fatos da vida real)

2 thoughts to “Espinhos da Profissão”

  1. Complicado, mas compreensível, o homem estava prestes a arrancar os cabelos e, ao ver o “sócio” numa festa, não achou justo que não fizesse o mesmo. Bom! Foi-se embora, mas também não deixou saudades…penso eu.
    Um abraço!

  2. Que pensamento infeliz do cliente. Ele não conseguiu fazer a separação da vida pessoal da profissional. Uma pena! Poderia ter resolvido os seus problemas se não fosse tão amargo e confiasse no advogado recém contratado. Um ótimo conto para reflexão!

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