Ei! Volte Aqui. Não Se Vá…

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

Chega aqui perto, amigo. Vou te contar histórias. Preste atenção! O dia está lindo, as pessoas passam absortas em seus problemas, em suas alegrias, em tudo aquilo cujas resoluções acreditam serem difíceis ou complicadas, nem tomam conhecimento de minha existência. Mas eu estou aqui, na sua frente e você não me vê? Ah, só vê você mesmo, né?

Porém, amigo, somente nós dois sabemos os seus sentimentos. Eu refletindo a sua imagem não sou tão somente um espelho, sou você vendo refletidas em mim a sua coragem, a sua disposição. Mas vejo que coragem e disposição estão ausentes em razão dos seus problemas cotidianos vividos e que parecem não terem soluções. Noto em sua face um tanto de desprezo e podemos refletir sobre isso, mas…

–Ei! Volte aqui. Não se vá…

Talvez o próximo me dê atenção e são tantos os próximos que nem consigo escolher algum, neste caminho de tantos humanos apressados, nesta passarela pública onde proliferam as lojas, os bares, os camelôs, os ricos, os pobres, a vida vivida.

Então a jovem bonita, bem vestida não resistiu aos meus encantos e olhou-me demoradamente. Tão bela naquele vestido justo, estampado, marcando o corpo, tendo como detalhe uma fenda à altura da coxa esquerda, nem notou quanto estávamos perto, não tão distante quão imaginaria. Olhando bem para mim apertou os lábios carnudos friccionando ambos para igualar o retoque do batom. Recebi aquele gesto como um beijo de amor à primeira vista. Eufórico expeli reflexos de luz em todas as direções em tributo ao meu contentamento. Seus lindos olhos negros em movimentos circulares me enfeitiçaram e quase desfaleci quando ela girou o corpo, mostrando para mim todos os lados daquele maravilhosos conjunto e delicadamente, com dedos finos, eliminou uma pequena ruga no tecido de sua vestimenta. Os cabelos louros longos, lisos assim como os saltos agulha de seus sapatos davam-lhe um toque charmoso e exibindo um ar sexy.    Impecável, seguiu seu caminho observando as lojas seguintes… sem se despedir!

–Ei! Volte aqui. Não se vá…

Retornei à minha insignificância, apesar de meus dois metros de altura e um de largura, postado ao lado de uma vitrine de modas masculinas. E o povo indiferente, apenas algumas crianças puxadas pelas mãos faziam-me micagem e caretas ao passar, recebendo o meu desprezo explicito para com elas.

–Pequenos imbecis!

Fico à espera do próximo, mas como não fui feito para mentir e sim para mostrar a verdade, somente a verdade na forma física dos que se aproximam, o entusiasmo não me acompanha. Ontem me diverti tanto, mas hoje sinto a tristeza chegar, vagarosa, envolvente.

Logo ele se aproximou. Quase não cabia na moldura do refletor, mas não parecia triste e sim conformado com a mostra de tanta gordura a lhe cobrir os ossos. Roupas largas, calças folgadas se tornavam o invólucro daquele corpanzil enorme, pesado. Sua tez demonstrava bondade e sua imagem simpatia, como é característica física dos rechonchudos. Provavelmente chegou ali à procura de uma balança que lhe mostrasse algum grama a mais ou menos, mas encontrou-me marcando a sua figura enorme, bochechas carregadas e a exposição de uma tristeza embutida na sua personalidade que somente ele podia sentir, pois para o mundo era alegre, bondoso, mas o certo é que a visão da imagem refletida não o deixava muito feliz. Queria poder consolar o homem, pois é verdade que o mundo é cruel com o gordo, mas cabe ao gordo se adaptar. Uma lágrima correu de seu rosto e antes que ela atingisse sua papada, partiu…

–Ei! Volte aqui. Não se vá…

Muitos passantes me ignoravam, mas uma mulher idosa, estatura pequena, toda de preto, vestindo uma espécie de casaquinho que fazia um tailleurzinho ridículo, com um par de sapatos pretos de padre e uma meia até em cima, bolsa, bota e guarda-chuva enrolado parou à minha frente e ato contínuo fez o sinal da cruz. Tentando ser agradável eu lhe disse, carinhosamente: –você está linda! – mas não fui ouvido e imediatamente explodiu no rosto dela uma mostra de idolatria, amor ou algo semelhante. Ops… reagi imediatamente! Talvez ela tenha visto uma santa refletida na própria imagem, talvez ela tenha notado o capeta tentando alcançá-la, talvez ela tenha… sabe lá o quê. Fiquei a raciocinar e conclui que o modo, apenas o costume imposto por uma crença fizera dela uma beata, um autômato e por isso se benzia em qualquer situação, ocasião ou oportunidade. Fiquei magoado, abatido quando um grupo de meninos de rua chegou para mais próximo e em coro gritou para ela em tom zombeteiro, provocativo: “corre atrás da gente, corre, corre…”

–Ei! Deixem que se vá…

Não demorou muito e uma senhora se aproximou, olhou em volta e, aparentemente irritada, começou a falar baixinho:

–Eu perdi a minha própria existência. As pessoas são constituídas de uma maneira própria que é adequada à natureza do humano. E vou te confessar, espelho idiota, a vida está cansada de mim, eu sinto tanto! Não acredito que tal aconteça com qualquer outra pessoa e por isso sou diferente. E o que faz acreditar nisso são simples coisas corriqueiras, assim: não gosto mais de pentear meus cabelos, não suporto mais ver o sol nascer sempre, todos os dias, só para dar lugar à noite. O banho diário se tornou uma obrigação odiosa, o trabalho é uma coação sempre cansativa. É como se eu estivesse caindo num buraco fundo numa queda interminável e minha personalidade se esvazia a cada centímetro após o início da queda e não consigo ver nenhuma escapatória. Minha mente, espelho imbecil, está se atrofiando e não tenho mais sonhos, nada a realizar e já se referem a mim como “’a-louca’” com hífen e tudo. Mas sei, acredito mesmo, que existe uma partícula de possiblidade de localizar a minha existência e eu quero encontrá-la e tenho certeza que não poderá ser num espelho, pois eles só refletem a minha fraqueza. Porém, espelho cretino, minhas esperanças direcionam para outros lugares que eu ainda vou descobrir qual será, e quando isso acontecer, vai ser incrível, maravilhoso!

Saiu rapidamente sem atender meu chamado para consolá-la.

–Ei! Volte aqui. Não se vá…

Ainda sob os efeitos emocionais nem percebi a chegada do grandalhão, forte, atlético, musculoso que exibia seus atributos físicos a quem quisesse ver. Vestido com short e camiseta colorida, calçando sapatilhas saltitava nas pontas dos pés intensamente enquanto os punhos fechados socavam o ar. Um boxeador, pensei acertadamente. Chegou, aproximou-se colando a testa em sua própria imagem refletida e com olhar sério, olhos nos olhos do considerado adversário, com muita, muita valentia e a cara mais ameaçadora que pode mostrar, assim como fazem os pugilistas momentos antes do início da luta posando na foto consagradora e usando a melhor técnica de intimidação. O Rocky Balboa tupiniquim se afastou um pouco, retesou o pescoço e os ombros por mais uma vez e logo após o fantasioso badalar do sino que anuncia a autorização do juiz, atingiu com um dos punhos fechado diretamente o queixo do imaginário antagonista, um soco intenso, com muita violência, tentando e obtendo um KO logo no primeiro round. Por conta do golpe duro, lâminas de vidros se espalharam por toda a entrada do estabelecimento e alguns cacos de espelho, oriundos da minha fragilidade, foram lançados para fora, no calçadão, provocando um barulho intenso. Ante o prejuízo material funcionários e transeuntes partiram atrás do pugilista que correndo a passos cadenciados ainda mantinha um dos braços para o alto como sinal de vitória, do grande ganhador do combate. Mas mesmo e apesar do alvoroço coletivo foi possível ouvir em coro:

Ei! Volte aqui. Não se vá…

 

4 thoughts to “Ei! Volte Aqui. Não Se Vá…”

  1. Se o meu espelho falasse…
    Bem retratado o quotidiano de quase todos nós. Uma superfície espelhada ou um espelho são testemunhas mudas das nossas vaidades, tristezas, alegrias e misérias. Mas ele lá está, respondendo com verdade aos nossos anseios, muito embora nem sempre sejam os que gostaríamos de ver reflectidos.
    Um abraço meu caro Flavio Dias Semim!

    1. Lorde amigo. Seu comentário traduz exatamente as palavras da imortal Clarice Lispector:
      “Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio”

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