Duda Provou Crack, (E Achou Um Barato…)

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Quando Duda provou crack, ela me disse que sentiu uma tremedeira, um ecstasy, um barato ligeiro e muito intenso. Alguns minutos depois ela sentiu vontade de ter aquilo dentro de si pelo resto da vida e o pouco de racionalidade que ainda tinha lhe dizia que isso não era possível, porque nada na vida, nenhum tipo de alegria, – sintética ou não – pode se alojar dentro de nós o tempo inteiro… esta consciência de finitude, com relação ao barato do crack, lhe gerou muita angustia, tristeza extrema e mais do que tudo isso, uma ansiedade incontrolável de voltar a usar a droga.

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Cinco anos depois eu soube que Duda tinha saído pela terceira vez de um centro de reabilitação e que andava recitando poemas de Fernando Pessoa nos ônibus que iam do Iguatemi até a Estação da Lapa, então, uma vez por semana, eu fazia o percurso de ônibus na tentativa de encontrar minha amiga.

Finalmente a vi, com uma saia preta indiana, que quase se arrastava no chão, muito magra, cadavérica, cabelo curto apenas com uma pequena trança colorida que descia solitária até o ombro esquerdo, ela não me reconheceu de início. Eu a encarava sorrindo, assistindo a Duda destruir um poema de Fernando Pessoa, recitando o poema de uma maneira extremamente tosca e exageradamente performática. Mas… era a Duda! Então estava tudo bem, pois a Duda podia errar quantas vezes bem entendesse. Duda era a pessoa mais meiga, doce… mais linda de Salvador, talvez do mundo inteiro. Não sei. Talvez toda as cidades do planeta tivessem uma Duda, para guiar os corações das pessoas medíocres.

Quando Duda me reconheceu, puxou uma rosa de sua pequena sacola e me entregou. Não disse mais nada e saiu saltitando pelo coletivo. Desceu na Estação da Lapa e lá de fora me olhou com olhos ternos e tristes. Eu fiz menção de acenar, mas senti um peso enorme no meu braço e o máximo que fiz foi sorrir de forma abobada.

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Duda me mandou um e-mail algumas semanas depois, me dizendo que provou um homem. E que ele lhe causou um prazer imensurável. Ela queria tê-lo o tempo todo. Ele tinha dois filhos e um emprego, era do tipo que chama atenção e ela não estava conseguindo lidar com nada disso. Ela queria o homem só pra si. Ela o perseguia, ela fazia escândalos, ela tentou prendê-lo de todas as formas, mas aquele homem tinha muitas… muitas… muitas obrigações… quando ele finalmente deu fim ao relacionamento, Duda voltou a usar o crack e se sentiu super bem… depois se sentiu super mal… e se sentiu perdida e acabou enfiando uma chave de fenda no pescoço. Ela queria morrer, mas não morreu, segundo os médicos, estava viva, Vivinha da Silva, e pronta pra outra… outras… outras doses, outros ônibus, outras Estações das Lapas, outros homens, outras doses de droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga…

Mas pra mim, Duda já estava morta desde as primeiras palavras do texto.

Droga, droga, droga, droga, droga, droga..

 

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