Dona Rosa

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

dona-rosaO passo estugado de quem teme chegar postumamente, envolvido na aragem impiedosa de um Janeiro particularmente frio, misturava-se com o torvelinho de pensamentos que revolteava dentro de si. Lúcio e as lágrimas de comoção e alegria que lhe saltaram dos olhos emaciados quando Branca, a parteira, o depositou nos seus braços extenuados. Um amor das entranhas. Seu filho, sua vida, doces sinónimos. Lúcio e as hastes do seu coraçãozinho cálido apertadas no seu pescoço. Na memória, ainda o cheiro tenro a leite e o corrilório de beijinhos com que escoava a loucura desse amor no seu bebé. Lúcio e a ansiedade do primeiro dia de escola. Ele, todo trémulo, a esfregar o choro nas pregas da sua saia levantada e enroscada até à insegurança dos seus olhos. Ela, apertada na carteira da escola, afagando-lhe as dunas louras da sua cabecinha. Com ele, até à censura da professora. «A senhora tem de sair, não pode estar aqui. Vamos lá começar.» E, de repente, tudo acabou. A candura, a entrega, o todo seu. Quando e porquê, exactamente, não sabe precisar.

A lembrança da aflição daqueles dias de sarampo atropelou as demais. A febre descontrolada, o seu menino a alucinar, depois em convulsões. Era tanto para perder. A corrida para a banheira, o banho tépido dado em pânico para devolver alguma calmaria aos indefesos sete aninhos em suas mãos. As horas de vigília, os dois misturados nos lençóis de algodão. «Ó mamã não vás, tenho medo!» A história feita a partir do coelho de orelhas longas bordado na fronha suada. Ele aceitando-a, querendo-a.

«Oito e vinte. Se não se apressa já não chega a horas.» Já nem sente a frieza do tempo, antes sim uma comichão incómoda a formigar-lhe as pernas. Ah, já os vê. Lúcio à frente, Cristina atrás a chamar os filhos. Ei-los então, dois sóis e uma avelãzinha. A menina também a vê e a sacudir as tranças louras corre para si. A face de Dª Rosa, curtida pelo frio, acende-se num sorriso majestoso. Só tem tempo de lhe lançar um afago, logo o braço da mãe agita o da menina de um fôlego, roubando-a para si. «Anda, estamos atrasados.» Um atraso endémico, daquela hora e daquele lugar como de quaisquer outros em que vislumbrassem a velha e sôfrega senhora. E sem sequer olhar nos olhos mendicantes da sogra arrasta a menina e os restantes filhos para dentro do carro. E é Lúcio quem remata o momento ao fazer estalar a porta de trás do moderno volkswagen cinza. Em segundos, desaparecem os cinco numa nuvem bege entrecortada pelo triângulo azul do Kispo de Jorge, trilhado na porta, a deambular ao vento.

Dª Rosa. Uma hora a pé para num ápice derramar toda a saudade num olhar cúmplice aos netos ou num passear de dedos pelos caracóis movediços. A alegria para um dia toda gasta num punhado de segundos – os melhores do seu dia. Vive para aquele momento e repete-o como um ritual todos os dias. Janeiro vai gélido. Assim vai também o coração dos homens.

cometario

 

3 thoughts to “Dona Rosa”

  1. Rico conto! O sotaque português. legítimo, ecoa agradável por todos os cantos da leitura, Para nós, brasileiros é preciso prestar muita atenção nos detalhes e seus significados, como por exemplo: “triângulo azul do Kispo de Jorge”. O inverno rigoroso dos janeiros europeus não se coadunam com o verão, quente e impiedoso dos nossos janeiros. É enfim, uma leitura muitíssimo agradável.

    1. Vindo de quem veio, este comentário vale por mil. Não que me desmereçam os outros autores, mas não posso deixar de realçar o seu cuidado e análise para os menos familiarizados com o português de Portugal – idêntico ao que sinto, mas que gosto e me enriquece, na escrita brasileira. – Esse seu cuidado honra-me. Obrigado Flavio Dias Semim

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