Dois Peixinhos

 

 

 

 

 (São Paulo – SP)

Quando o irmão nasceu e chegou, os três gatos pretos da vizinha miavam no quintal. O coro dos gatos tinha algo de choramingo de bebês.

Rubens captou a cena, enquanto a mãe encostava a mala atrás da porta. Ela não brincou. Brincara tanto nos últimos meses de gravidez e exatamente quando chegava da maternidade chegava daquele jeito besta.

A mulher colocou o embrulho no berço, espremeu o coelho de pelúcia na gaveta, abriu as janelas, empilhou o crochê no armário e chamou Rubens, seis anos, para mostrar-lhe o irmão (o conteúdo do embrulho azul) que acabara de nascer.

Rubens não entendeu o neném deformado, quase sem braços, com a cabeça saindo de algo que não parecia um peito.

– Aconteceu algo terrível, meu filho.   Mamãe não percebeu.

Rubens logo soltou os dados. Gatos iguais aos da vizinha comeram a criança. Ele era rápido nas deduções: gatos que miam tal qual recém-nascidos devoram recém-nascidos.

A mãe falou dos castigos dos céus. Estava gorda e flácida. Da barriga saltava uma sobra de pele. O menino olhou o tamanho da pança e imaginou um segundo parto, que se emendaria ao primeiro, para completar o corpo do irmão. Primeiro, o tronco e a cabeça. Em seguida, os membros superiores: os braços, as mãozinhas, as peças encaixáveis. Tudo muito simples.

O pai, prostrado sobre o sofá, ouviu a teoria do filho. Tentou explicar:

– Não haverá outro parto, menino. Isso é um efeito expansivo. Durante a gravidez, a barriga da mãe cresce porque o neném cresce, e depois… quando ele nasce, o ventre não perde o espaço que foi do bebê. A barriga volta aos poucos ao normal. Sua mãe não é um elástico. Entendeu?

Não entendeu. O pai sempre foi muito detalhista às vezes. Lecionava biologia no colégio. Falava de abelhas e dos cantos dos “cigarros” durante a noite.

No dia seguinte, Rubens empacou na questão dos pequenos braços do irmão. Quis procurar alguma imagem que lhes dessem continuidade. Pensou em balões de gás desinflados. Pensou em um criatório de pequenas salsichas. Pensou, principalmente, na explicação do pai. Se a gravidez acabara, se o bebê veio despedaçado, nesse caso, a culpa era somente dos gatos. Talvez gatos tenham realmente comido o neném.

As questões sempre se resolviam. O garoto tinha essa capacidade. Descobrir os mistérios. Sim, as mordidas dos felinos explicava tudo, menos o motivo. Por que logo o irmão tornou-se comida de gato? O irmão tinha um gosto, um cheiro, um sabor?

E vieram os banhos do bebê. Certo dia, Rubens se aproximou. A mãe deixara o pequenino sem roupa, estirado sobre a cama do quarto. Ela examinava o filho. Seus olhos espetavam a criança. E espetaram tanto que a mulher mordeu a língua, e soltou um lamento de dor. Chorou por cima daquele corpo miúdo. Pediu desculpas pelo descuido. Não deveria ter tomado o maldito remédio.

– Mamãe não queria isso.

A mulher levantou a criança como uma oferenda para Deus.

– Eu aceito, senhor.

O bebê, tão perto do brilho da lâmpada no teto, arregalou os olhos. Ficou hipnotizado como um peixe diante da isca luminosa.

Rubens, em instantes, completou a sua versão para os fatos. A luz chama a atenção dos peixes. Lembrou-se da minhoca luminosa no documentário da tevê. Os gatos devoraram o bebê porque o irmão era o peixe da maternidade.

Os gatos da vizinha miaram por causa do cheiro de peixinho. Sim, outros gatos saborearam o principal, mas eles queriam os restos. Comer a cabeça da sardinha.

Saiu correndo para ver o desenho. Há alguns meses, vislumbrara gravuras de sereias em uma revista. A mulher metade peixe. E ficara tão impressionado que seu impulso foi desenhar as metades. Esquematizar a parte rabo, escamas e a outra do tronco humano, dos braços, da cabeça de mulher e das tetas enormes.

Desenhou a sereia na parede do seu quarto, atrás do armário, longe da mãe. Ficou perfeita, mas, depois, não entendeu o impulso criativo. Hoje, o banho do irmão revelou o que fora aquele estímulo.

Rubens se fascinara com as sereias porque ele, Rubens, já estivera na metade peixe, sendo metade gente. Hoje esquecera que fora um peixe frio fora d’água fria.

O menino passou a nadar em aquários imaginários. Chamava o irmão de peixinho. Chamou tanto até a mãe, importunada, levantar a hipótese absurda, coisa de gente sem cérebro:

– Seu irmão não é um peixe, mas um dromedário.

Rubens foi rápido: os gatos haviam comido o cérebro da mãe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *