Diamante Negro

 

 

 

 

(Santana do Parnaíba – SP)

Quatros horas da madrugada de uma quinta-feira. O despertador, no celular de marca chinesa questionável, toca pontualmente e chama Maria Clara para mais um dia de batente. “Méri”, como é chamada pelos companheiros de batalha diária nos trens suburbanos que correm pelos trilhos que atravessam a cidade grande. Levanta-se sem reclamar ainda que com certa dificuldade. Logo está ajeitando os longos cabelos cacheados, típicos também em todas suas três irmãs afrodescendentes, adornados com uma faixa acessória de listras verde-água e brancas, que a faz sentir-se bonita e preparada para mais uma jornada. Maquiagem leve, batom suave, tênis, jeans, camiseta e uma blusa média amarrada na cintura completam o uniforme.

No aconchego da pequena casa de tijolos sem reboco , formada de quarto, cozinha e banheiro, ela rapidamente faz sua refeição matinal resumida a um pãozinho amanhecido lambuzado com margarina e acompanhado de um copo de leite frio. Às 4:40hs recolhe cuidadosamente o pequeno João do berço, que já dormia com um tipo de agasalho, macio o suficiente para a noite, mas também quente e pronto para o dia. Como de costume, enrola-o em uma manta azul para deixá-lo ainda dormindo na casa da vizinha, Cléo, que cuida diariamente de outras quatro crianças em uma casa ainda mais simples.

Após um doce beijo, e sem lágrimas, parte com a bolsa que leva 10 caixas de barras de chocolate Lacta Diamante Negro. São 200 unidades que precisam ser vendidas nos vagões hoje. O chatô fica para trás, mas com o luxo de ser bem localizado, próximo à estação Santa Terezinha, logo Méri está dentro do trem, e propagandeando seu produto. O destino inicial é para onde vão a maioria dos demais trabalhadores. Antes da primeira estação o espaço ainda é bastante confortável para sua caminhada de vagão em vagão, por onde vai oferecendo:

_ “Diamante Negro 1 Real, olha o Diamante Negro só 1 Real, na validade. Lá fora é de 2 a 3 Real, mas aqui na minha mão é só 1 Real. E na promoção, com 2 Real você ainda leva 3!”.

Neste cenário, e talvez com a ajuda de um sorriso sempre à mostra, ela já obtém relativo sucesso e vende as três primeiras unidades “na promoção” para uma senhora idosa. Na estação, importante ponto de partida para o transporte de tantos mais trabalhadores na cidade de mesmo nome, o trem fica cheio. As vendas aumentam e a meta do dia vai ficando mais próxima. Mas nem tudo são flores. Há dois desafios maiores a serem superados. Primeiro o triste inconveniente de desviar-se de doentes mentais que já, àquela hora, tentam aproveitar-se do agora pouco espaço para “esbarrar” nas partes de seu magro corpo. Fácil resolver esse problema com uma boa cotovelada e acelerando a passagem deixando para trás o inoportuno. Difícil é desviar do segundo desafio: os fiscais da companhia férrea, que para cumprir seu trabalho, tanto quanto Méri, também tentam garantir o pão nosso de cada dia, impedindo diariamente a todo custo o comércio das dezenas de ambulantes que por ali circulam. Nos limites das instalações da companhia eles têm poder de polícia, e apesar de não haver o costume de deter os ambulantes andarilhos, sempre que podem apreendem suas mercadorias, com muita briga, correria e gritaria. Vez ou outra, o “evento” faz até o trem parar, causando atrasos em toda a linha e prejudicando milhares de usuários do sistema, que se dividem na torcida entre os mocinhos e os bandidos, cada qual com seus argumentos válidos. Mas hoje Méri passa ilesa. Uma escondida aqui, outra ali, um aviso de outro colega, continua sua missão.

A estação de maior movimento chega, e com ela se vai boa parte dos passageiros que tem como destino a região sul da capital, em outro comboio. O espaço adicional retorna, e as vendas continuam até a estação final onde aí sim o trem fica vazio, pois quase todos farão conexão com a linha do Metrô, que continuará por via subterrânea em destino às outras regiões da cidade.

Méri toma o trem de volta, com destino à inicial, de onde fará novamente, e novamente, e novamente o trajeto, em sucessivas tentativas de atingir seu objetivo.

Já passada a hora do almoço, na qual serviu-se de três unidades de seu próprio estoque, seu telefone celular toca animadamente o hit Despacito, em contraste com uma tensa voz do outro lado solicitando seu retorno imediato para Santa Terezinha. Cléo, sua brava escudeira, ponto de apoio e confiança todos os dias, subitamente sucumbira à vida, vítima de infarto fulminante dentro de seu barraco com as cinco crianças. Sorte que entre elas, havia um já “maiorzinho” que aos berros e choro procurou auxílio nos outros casebres.

Ao chegar no local, Méri, afoita e desesperada, pôde constatar que João e as demais crianças estavam bem. A união entre os moradores da comunidade é costumeira nestes momentos, e o auxílio mútuo é total. Bem mesmo não mais estava Cléo, já envolta num saco branco e sendo levada por uma ambulância. Os policiais foram informados que não haviam parentes nem companheiro, e que suas únicas companhias, e aparentemente motivos de sua existência em cada novo dia, eram as crianças. Méri agora chorava, e abraçava seu filho com certa força até exagerada.

A sexta-feira, obrigatoriamente, foi declarada como feriado para a esforçada morena de Santa Terezinha. O final de semana foi de muita conversa naquela parte da comunidade, algumas histórias da antiga amiga, e sobre o que fazer com seus poucos pertences.

No domingo o dono do barraco já alojara um novo morador e Méri acertara com outra bendita alma da rua de cima para cuidar de João. A segunda-feira estava chegando e com ela mais 200 barras de Diamante Negro.

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