Desvanecer

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(Goiânia – GO)

“Não recues! De mim não foi-se o espírito…  Em mim verás – pobre caveira fria – Único crânio que, ao invés dos vivos, Só derrama alegria. Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte Arrancaram da terra os ossos meus. Não me insultes! empina-me!… que a larva Tem beijos mais sombrios do que os teus (…)” ( Lord Byron)

Quando abri a porta já coracaoera noite. Passei o dia todo sem ter a decência de subir as escadas para vê-la. Era insuportável para mim se quer fita-la em alguns dias, era incomensurável definir o que sentia a cada degrau que me levava para a atmosfera pestilenta do quarto em que ela repousava. Adelaide estava como sempre aninhada no centro da grande cama de casal, envolvida por tantos lençóis limpos que a empregada devota trocava dia após dias na tentativa de dar à patroa uma espera pela morte no mínimo higienizada, mas a morte não era limpa, você certificava-se disso à medida que Adelaide definhava sobre a cama. Eu passava horas apenas olhando-a da minha cadeira ao lado da cama que afastava cada dia mais para longe. Não suportava ver aquilo e parte da minha indignação advinha não da certeza que minha adorada irmã mais nova estava prestes a dar seu último suspiro, mas sim, da doença que a afligia. Não compreender o que estava acontecendo é o que deixava-me tão devastado, não ter a compreensão, não conseguir crer no que os olhos viam, esse tipo de sofrimento leva-nos à algo indefinível e dormente, um latejar mental que não cessa porque não paramos de tentar encontrar o sentido do que nos é totalmente absurdo. A mente trabalhando, vigorosamente, para entender, para ao menos aceitar o inaceitável. Adelaide sempre foi uma criança enfermiça, é verdade, por esse motivo nunca me casei e dediquei a vida em cuidar dela, em viver com ela. Quando criança, vítimas de um pai louco e temperamental, prometi à Adelaide que jamais sairia de seu lado, essa foi a única promessa que consegui cumprir durante a vida, foi a única que fiz. Ela era a pessoa mais importante da minha vida, mas isso mudou quando de fato ela caiu enferma na cama. Estranhamente meu amor de irmão se tornou uma compaixão dolorosa que aos poucos se tornava uma repulsa discreta porque Adelaide se tornou um fardo, essa era a verdade. Minha querida irmã era o fardo que eu, fraternalmente, aceitei carregar. Mas aquela doença, ela veio e desfigurou o que havia de mais bonito em minha irmã, sua placidez e doçura desapareceram e ela se tornou o monstro que agora gemia e se agarrava à minha mão em desespero. Meu coração se compadecia e também a odiava secretamente. Durante as noites, sozinho no meu quarto, pedia a Deus em murmúrios para que levasse Adelaide de uma vez por todas. Toda manhã, antes abrir a porta do seu quarto, eu fechava os olhos com força antes do suspiro em busca de determinação e só desejava encontra-la morta, ela perseverava. O que mais me condoía era notar que ela queria viver de verdade mesmo agora quando já não mais podia. Nesta noite, porém, ela não se moveu quando abri a porta e as cortinas para que a brisa da noite pudesse afastar o ar pesado de doença do quarto. Ficou ali inerte na montanha de lençóis e colchas, Adelaide tinha espasmos terríveis, não parava de estremecer, nunca. Eu podia ver os tremores por baixo de todas aquelas camadas de roupas de cama, aquilo despertava em mim uma irritação inexplicável. Lenta e dolorosamente, comecei a compreender que o que realmente odiava era o que minha irmã havia se tornado, conferindo a ela uma culpa que não lhe pertencia. Perguntava-me cada vez que puxava a cadeira para longe da cama “Por que você foi ficar assim?” de uma maneira insistente, era como se ao ficar doente ela estivesse me traindo. É interessante encarar a morte da única pessoa que lhe fez companhia durante toda uma vida, você descobre que ela não é eterna e que a eternidade só existe na morte, quando se vai é para sempre, a eternidade do esvanecer. Eu me sentei, já estava longe o suficiente, minha cabeça ficava entre a cama dela e a janela, eu podia sentir a suave corrente de ar da noite dali e isso era reconfortante, era como se eu notasse que respirava de verdade. Passava todos os dias apenas prendendo a respiração, porque Adelaide infestara a casa toda, e minha vida, com o fétido odor da pestilência. Meus dentes rangeram de maneira involuntária enquanto a observava, ela arfava e os sons que emitiam pareciam de um animal atingido no peito, era grotesco ficar ouvindo a cadência de suas dores. Aquela estranha doença que lhe abateu, a incompreensão estava me enlouquecendo. Tentei abrir o livro que estava lendo e me concentrar, mas aqueles chiados de besta ferida não me permitiam. Fechei o livro com força, ela interrompeu seus rosnados e levantou a cabeça do travesseiro com muito esforço. Senti meus olhos ardendo por raiva e insônia, encarava aquilo sobre a cama como se a desafiasse a continuar respirando daquela forma grotesca. Adelaide sacudia a cabeça da esquerda para a direita em espasmos involuntários. Sai da cadeira e me aproximei de sua cama, deixando o livro para trás. Não me sentei ao seu lado mesmo quando vi uma de suas mãos que não passava de uma garra horrível e cadavérica estender-se em busca de apoio. Apenas a observei com curiosidade e repugnância. Aproximei o rosto do seu, analisando. Aquela estranha enfermidade me desnorteava, os médicos que chamara, inclusive especialistas de outros continentes, renomados pesquisadores, ninguém poderia salvar minha irmã, ninguém compreendia. A falta de compreensão era o que estava arruinando-me. Então, a ciência também desistiu de seu caso, foi dada como um “caso sem explicação e solução” e o último médico que chamei pediu apenas para que eu rezasse por um milagre, porque eles existiam, o que nunca fiz. O rosto de Adelaide não mais existia, a sua estranha condição apagara do rosto o que havia dos olhos, nariz e restava apenas a insinuação de uma boca, o orifício estreito por onde saía os chiados insuportáveis da respiração pesada e constipada. Não havia rosto mais ali, ele foi se definhando dia após dia. Os olhos foram os primeiros a serem engolidos pela própria carne, gradativamente o restante de seu rosto esvaneceu. Adelaide sempre fora uma garota de uma beleza celestial, cada elemento do rosto formava com simetria uma imagem dos céus, perfeita e alinhada. Tudo aquilo havia desaparecido de uma maneira irracional. Arrisquei tocar com as pontas dos dedos a massa sem forma que era seu rosto, a sensação foi de assombro, arrepios percorreram meu corpo quando deslizei os dedos por aquela pele sensível e febril. Ela continuava balançando a cabeça em busca de algo. “Irmã” falei baixo, o que restou das orelhas eram apenas dois orifícios ocos “Você ainda está me ouvindo?” ela estagnou o movimento do rosto por um tempo, atenta. Os cabelos não passavam agora de alguns fios esbranquiçados, e eu só conseguia pensar naquela proximidade atordoante que minha irmã estava, simplesmente, desaparecendo. “Deus” afastei-me e a voz que saiu de mim foi de puro pavor “O que está acontecendo com minha irmã, Deus?” cobri a boca desnorteado. Encará-la tão perto me deixou perplexo e infiltrado de um horror enlouquecedor. Cai sentado na cadeira, Adelaide voltou a respirar com sofreguidão, não podia mais olhar para a cama, não podia nunca mais vê-la. Decidi, então, por abandonar minha irmã na manhã seguinte. Nunca mais vê-la porque ter me aproximado tanto foi traumático, nunca mais a imagem de sua face sem rosto saiu das minhas lembranças. Hoje quando lembro de Adelaide não é da forma que seu pequeno rosto em formato de coração me sorria aos 9 anos, não é seu sorriso eufórico e iluminado ao correr nas tardes de setembro quando íamos comprar o whisky para o nosso algoz que também chamávamos de “pai”, não era da pequena garotinha que subia em minha cama e se agarrava a mim  com pavor de trovões e na certeza que eu a protegeria de tudo. Não era nenhuma dessas Adelaides que me vinham na memória, apenas aquele rosto repugnante sem forma, a pele branca e rachada em várias partes, o som chiado de sua respiração. À noite, acordo com a corrente de ar que entra pelo meu quarto e me pego pensando em Adelaide e no abandono ao qual a condenei quando fugi, tento remexer em meus sentimentos sobre todos anos que vivemos apenas um para o outro e a única coisa que encontro é uma morna saudade que esvanece a cada dia, o que ficou dela foi apenas a lembrança horripilante, todo o resto aos poucos vai se desvanecendo assim como seu rosto. Temo um dia acordar e não me lembrar mais de seu nome, nem de quem ela era para mim, temo um dia acordar e a única coisa que estará em minhas lembranças de vida será o rosto monstruoso de Adelaide. Comecei a rezar para que essa imagem saísse de minha memória, para que pudesse criar outras memórias, conhecer alguma mulher, casar-me, ter filhos mesmo depois de certa idade, viver minha vida longe das memórias opressoras e doentias de Adelaide, rezo todas as noites por isso, por algum milagre que nunca acontecerá.

 

One thought to “Desvanecer”

  1. Muito bom! Narrativa um pouco longa para um conto breve, porém não induz o leitor a desitir, como é comum com textos extensos. A gramática quase correta (sempre algum gramático encontra erros em nossos textos) aplicada merece elogios. A dor de um ente querido atingido por uma moléstia e a repugnância pela doente é envolvente na sua explanação. Parabéns.

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