Deslumbramento

 

 

 

 

(Rio de Janeiro – RJ)

Acordo com uma sensação. Uma palavra na mente. As letras imensas, me fazem tropeçar e por pouco não caio da escada. A palavra não é tão grande assim, há outras na língua portuguesa, como reminiscência, que é maior do que ela. As duas se assemelham por que uma traz as lembranças do passado, daquilo que se viveu com a textura da infância e a outra ainda está presente, caso se deseje.

Bem, como eu ia dizendo, esta palavra curta quase me fez cair da escada. Um dissílabo, sonoro e rechonchudo, tem a fisionomia de um dos amigos de Branca de Neve. Pequenino, o Feliz vive de bem com ele mesmo.

Esta manhã, de bem comigo mesmo, quase cai da escada. Eu olhava para cima, aérea e distraída, escutava o sibilar dos pássaros e do meu mundo interior.

Desci desembestada, pura reminiscência, os cheiros todos, dos tachos, dos risos, estavam ali novamente na cozinha. Ela falava pausado, me dizia o quanto me amava. Na panela, o cuscuz estava quase pronto, o cheiro do milho aumentava ainda mais a minha fome. E ali na mesa daquela cozinha, conversávamos e os assuntos não terminavam. Enquanto eu saboreava o cuscuz, eu escutava como era a vida por lá. Ela tinha partido há vinte e um anos atrás, eu tinha uma imensa curiosidade em saber o que ela andava aprontando.

Morri de rir. Ela contou algumas piadas do Juquinha. Sua voz rouca servia como um mantra.  Falou dos lanches ao ar livre. E de como gostava de brincar de roda com as outras crianças. Outras por que ela própria era uma criança grande. Conseguia acreditar em tudo e em todos.

Degustei grão a grão, a maciez e a rudeza, as lágrimas umidificaram o milho, consegui provar o mingau novamente, aquele que ela preparava quando meu corpo adoecia.

Comecei a contar a minha estória. Ela só sorria. Estranhei, minha mãe parecia saber de tudo. Mesmo assim ela escutava. O sol lá fora tinia. O verde do jardim sobressaia e entrava na porta da cozinha. Estávamos ali, nós duas. Volta e meia eu a abraçava para sentir o seu cheiro de canela doce.

Em meu peito, só havia um sentimento, aquele que me fez acordar olhando para as nuvens. O dia partiu. A manhã recomeçou.

Eu acordei com o semblante do Feliz. Desci a escadaria de tábua. A obra ainda estava por fazer. A cozinha enorme não tinha mesa, nem vida. Da fresta da cozinha, mirei o céu sem nuvens. Quase cortei o dedo, de tanto admirar a plasticidade do azul.

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