Correnteza de Ouro

correnteza de ouro

Lira Vargas 

(Niterói – RJ)

A guerra na Coreia do norte e sul ainda devastava aquela nação.

Sean jeito de viver em  silêncio era atribuído a tensão que a guerra causava a todos. Via todos os dias centenas de pessoas morrerem, famílias se perderem na tentativa de fugir dos bombardeios. Ele se refugiava nos arrozal. Ele não entendia, mas sentia que na imensidão do céu tinha uma força que ele aprendeu que era Deus, e na linguagem sem muita explicação, pedia que acabasse com aquela guerra.

Na manhã os bombardeios foram intensos. Ele se abrigou. Seus pais ficaram em casa, e pediu a Deus que o tempo parasse, ou passasse rápido, ele tinha medo do que poderia acontecer a sua família. Todas as vezes que tinha bombardeios era uma incerteza, quem sobreviveria, era questão de sorte.

Depois que o bombardeio cessou, ele retornou a procurar seus pais e irmãos. Deparou com a cena que que jamais esqueceria. Sean sentou no chão e chorou. Envolveu os joelhos e escondeu o rosto, era uma tentativa de findar aquela dor.

Não se revoltou apenas a serenidade o conduziu a mudar o rumo de sua vida. Depois que perdeu sua família, não tinha ninguém e vivia trabalhando na colheita de arroz em troca de um lugar para dormir.

Uma tarde ele estava com trabalhando, ele ouviu os aviões se aproximarem. Correu sem saber para que lugar, mas tinha em sua mente que precisava sair daquele lugar que se tornara um inferno. A Coreia do Norte tinha invadido e tudo estava mais difícil.

Passou dias caminhando pelas montanhas. Decidiu que se embrenharia pela mata a só sairia depois que a guerra acabasse. Um dia ele ouviu seu pai dizer que a guerra terminaria, mas que deixaria um rastro de sangue na terra tão imenso que formaria um rio vermelho e outro na memória das pessoas que por muitas gerações teriam pesadelos com o céu se tornando vermelho também.

Sean trazia essas palavras em sua memória e decidiu andar pelas montanhas até achar um abrigo por entre algumas pedras e ficaria ali até um dia que as bombas silenciassem.

Adormeceu e sonhou que estava em um penhasco, as árvores estavam coloridas prontas para o outono, e seu pai se apareceu entre as nuvens e desceu até perto dele e disse que ele não parasse de andar, que havia um lugar em que as ondas do mar se movimentavam tanto que levavam grandes embarcações para terra que não tinha guerra. Sean amanheceu lembrando-se daquele sonho, e resolveu continuar a caminhar pelas montanhas e florestas.

Escalou uma montanha e ao chegar no alto, deparou com o mar compondo um horizonte sem fim. Muitos barcos e navios no cais. Planejou uma maneira de chegar e embarcar sem ser visto. Tinha na lembrança o sonho que seu pai disse para ele sair daquela região de guerra, sabia que encontraria uma saída para realizar seus planos de ir para  outras terras que não tinha guerra, como seu pai lhe falou  em um sonho.

Passou por uma casa e na varanda algumas roupas secavam ao vento que soprava. Fez barulho no portão e chamou para ser atendido. Na porta uma mulher veio atendê-lo. Demonstrou medo ao olhar sua aparência, mas Sean explicou em poucas palavras que estava nas montanhas e precisava de roupas para se apresentar no cais. Disse que estava à procura de emprego.

A Mulher fez um sinal que ele esperasse, Sean a ouviu conversar com alguém e sentiu medo que o denunciasse a polícia. Mas a mulher veio com umas peças de roupa e sapatos, fez um embrulho com alguns produtos para ele levar.

O cais estava com pouca luz. Alguns homens jogavam em mesas de madeira e bebiam. Fez a primeira tentativa, e não foi visto.

Sua coragem o fazia um guerreiro, ele queria entrar naquele navio, se fosse descoberto seria condenado a morte. Queria liberar em algum outro lugar, o grito contido da dor de tantas perdas, de tantos sofrimentos que a guerra reunia.

Esse sentimento de sufoco da alma, o fez mais corajoso, e se aventurou a entrar em um navio daqueles que vagariam por outros mares levados pelas ondas. Deixaria para trás as lembranças, deixaria até o sonho que seu pai veio em uma noite na montanha, levaria apenas a necessidade de soltar o grito de dor para esquecer a guerra também.

Entrou pelo porão e não foi visto. E deitou para descansar. Acordou quando o apito do navio ecoou tão alto que ele se assustou. Sentou e ficou a espera de algum movimento. Percebeu que o motor fazia aquelas paredes tremerem e a ansiedade que ele estivesse se movimentando quase o traiu, mas retornou para o local e pegou o embrulho que a mulher lhe dera com as roupas e ver o que ela embrulhou naquele saco de tecido de algodão.

Ali tinha bolos de arroz, pão, açúcar e sal. Ele sorriu agradecendo em pensamento a gentileza daquela mulher. Permaneceu muitos dias naquele navio. Resistia a vontade de sair e conhecer algum compartimento.

As vezes o navio balançava muito, e o medo era suportado porque tinha  certeza que algum dia o navio atracaria em algum cais. E uma manhã Sean percebeu que o navio estava parado. Procurou a saída e se misturou aos estivadores que carregavam sacos de trigo.

Desceu e sentiu o ar quente daquele lugar. O céu azul e as pessoas apressadas contrariavam com seu jeito calmo e tímido. Percebeu que as pessoas pareciam alegre, diferente do que viveu em seu país.

Passou uns dias perambulando pelas ruas e descobriu que estava no Brasil. E com a ajuda de outros estrangeiros conseguiu emprego em um restaurante. Alguém sugeriu que ele fosse para o interior daquele Estado. Foi para Serra Pelada trabalhar.

Economizou dinheiro, montou um restaurante para atender os garimpeiros. Era época de fartura e a oportunidade de montar seu próprio negócio. Os garimpeiros eram rudes, mas Sean era meigo e humilde, esse seu jeito o fazia uma pessoa admirada e respeitada.

Mas o instinto masculino o levou a conhecer as mulheres que davam prazer em troca de dinheiro, Ao entrar na casa ESTRELA DOURADA DO  AMAZONAS ficou olhando as jovens que ofereciam seus corpos para o prazer misteriosos das noites quentes do Amazonas.

Jamile tinha a pele morena e os cabelos dourados e os olhos tão verdes, que pareciam as folhas molhadas do orvalho.

A voz macia e ele sentiu que mesmo ela sendo uma prostituta, sua alma emergiu na íris de seus olhos fazendo a emoção do amor despontar em seu coração.

Ela tentou afastar aquele tremor que ouvia falar que existia, mas que jamais sentira. E ao chegar mais perto de Sean, não resistiu e o beijou.

Sean também sentiu a mesma emoção e aquela noite foi a última que Jamile passou na casa em que ela trocava seu corpo por carícias com os garimpeiros.

Foi morar no quarto nos fundos do restaurante. Sean convivia com os olhares dos garimpeiros que em outras noites se deitara com a aquela mulher morena de cabelos dourados e olhos da cor das folhas brilhantes pelo orvalho. Ele trabalhava com uma grande faca para cortar os legumes e essa peça transmitia respeito.

A noite quando os garimpeiros iam se divertir, Sean pegava nas mãos de Jamile e ia para os riachos que escorriam dos garimpos e com uma peneira colhia as espumas dos mercúrios e ali eles achavam pequenas pepitas de ouro. Guardavam em um pote de barro. Segredos que mantinham entre eles dois.

Sean dizia que um dia a levaria daquele lugar e iriam morar no Rio de Janeiro. Jamile sorria e perguntava que lugar era esse que tinha o nome de rio e mês do ano. Sean ria dessas perguntas.

Uma noite foram pesar e descobriram que tinham mais de vinte quilos de ouro. Quantidade para começar uma vida confortável no Rio de Janeiro. Jamile comemorou bebendo cerveja e sentada no colo de Sean, fez juras de amor. E falou aos seus ouvidos que estava grávida.

Sean a abraçou e disse que devia um grito a noite. Dessa vez era de alegria. Foi até a janela e gritou, ecoou pelo rio e uma coruja gruiu. Sinal de fartura.

Meses depois Jamile sentiu as dores do parto e Sean a ajudou no parto de seu filho. Ela emocionada com o filho em seus braços falou que ele teria o nome de Orlando. Sean não perguntou por que esse nome. Mas aceitou. Planejaram a viagem.

Sean dizia que em qualquer lugar do Brasil eles seriam felizes. Sean fez os planos de esconder o ouro na bagagem e quando chegasse ao Rio de Janeiro ele ia negociar.

A embarcação de nome ITA que iria para o Rio de Janeiro.. Percebeu que Jamile chorava e escondia as lágrimas. Ela debruçou na janela e ficou olhando o rio. De repente ele viu que ela acenou para alguém. Ele ficou pensando que ela levaria saudade de sua terra.

As pessoas se misturavam umas as outras a procura de um lugar confortável. O ITA viajava até o sul do Brasil. Sean acomodava as malas. e o tesouro que acumulou nas noites quentes do rio Amazonas. Lembrou com emoção que gostava de acariciar o corpo de Jamile nas noites de lua cheia quando ela se molhava nas águas do rio.

Lembrou que uma noite fez um arranjo de flores e ornou seus cabelos. Ela emergiu nas águas e a luz estava iluminando a noite. Ele perguntou se ela era uma mulher ou um anjo, ela respondeu que era uma mulher que o amava. No alto falante a música ecoou pela embarcação,Sean viu as pessoas silenciarem, e lágrimas rolavam do rosto que estavam indo em busca de um sonho.

Peguei um “Ita” no norte/ Pra vim pro Rio morar/ Adeus, meu pai, minha mãe/ Adeus Belém do Pará

Jamile estava debruçou na varanda da embarcação. Ele a olhava admirando tanta beleza.  Uma brisa balançava seus cabelos e ela olhava as águas em correnteza. Um ramo de folhas passou na correnteza e ela acompanhou até ficar de perfil ela apontou para que seu filho olhasse. Sean pensou que ela era a mulher mais linda do Amazonas .

Jamile saiu da varanda e pediu que Sean carregasse Orlando. Deu um sorriso e disse que não iria para o lugar que tinha nome de rio e se chamava janeiro. Ela o beijou levemente no rosto e foi embora. O apito anunciou a partida. Sean ficou olhando a silhueta da Jamile se perder no cais. Chorou como uma criança sob o olhar de Orlando que o fitava sem entender.

Desembarcou no Rio de Janeiro e foi a um hotel. Descarregou a bagagem e pegou o saco de pepitas de ouro. No dia seguinte achou um local para negociar o tesouro. Antes de sair do hotel conferiu o saco de pepitas e descobriu que no lugar havia terra. Jamile o roubou. Sean chorou outra vez. E criou Orlando com todas as dificuldades de um homem abandonado pela mulher que tanto amou. E escondia a verdade do filho. Mas escrevia sua vida em um diário.

Antes de morrer pediu a Orlando que destruísse seu diário. Mas Orlando não o atendeu e pagou a um tradutor para dizer o que seu pai escrevia no diário. Ele dizia que o ouro era um metal fascinante, mas que poderia ser mortal, pois ele destruiu o grande amor de sua vida.

Orlando foi procurar sua mãe. Soube que ela foi assassinada por um homem que tinha seu nome. Ele roubou sua mãe e a matou por causa do ouro.

Orlando contou sua história para a amiga Joana que ouviu e não conteve as lágrimas. E quando ele terminou de contar estava chorando também. Repetiu que o ouro tem valores que custam a alma, e a correnteza do rio poder ser dourada, mas vermelha de sangue também.

2 comentários em “Correnteza de Ouro

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