Corpo Habitado

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)
“Que exilado – de si pode fugir?” (Byron. “A Inês”)

Lavoura arcaica IEste mato seco, paisagem desértica, um casebre ao longe. Uma mulher atravessa a porta, parece chamar alguém, grita em direção à plantação de milho. O ônibus passa, meus olhos se perdem por entre o invariável cenário. A seca ainda castiga, penso como alguém que estivesse fora da terra. Não sou eu daqui? Há quantos anos deixei tudo? Uma mala pequena, quase nenhuma roupa e um livro. Sim, um livro, que até hoje carrego comigo, amarfanhado. O vento bate em meu rosto, abandono-me às reminiscências pungitivas, às horas de dor e sangue, de pranto e embaraço. Retorno.

Meu pai coloca a enxada no ombro, o chamado de minha mãe, sempre pontual – hora do almoço. Interrompemos o movimento dos corpos sob o sol. Papai, de ordinário, bruto, não arrisca desatender ao sinal de sua mulher, para quem não existe família sem a composição rigorosa da mesa. Molhamos as mãos e nos direcionamos aos nossos lugares, sempre os mesmos, na mesa. Mamãe manda eu iniciar aquele rito enfadonho, insosso. Rezo.

Por que voltar? Penso que talvez seja um disparate, e uma vontade de retornar logo que desembarquem os outros passageiros me assalta. Que represento eu, esta vida desprendida, esta retirada sem adeus, sem hesitação? Uma vaidade ainda, talvez tenham me esquecido, nome riscado da boca dos meus. Há quantos anos? Quinze, parece-me. ‘Quinze anos’, pronuncio e me assusto. Nesse intervalo, sempre só, vínculo nenhum com mulher, vazio de frutos desta árvore podre que acabei. Na memória, durante todo esse tempo, a rudeza de meu pai ante mim e meus irmãos, e a minha resolução de seguir, tornar-me apartado de tudo o que até ali me açoitava, tudo quanto aparecia contornado com imagem de látego. Pouco dormia, não me permitiam muito sono. Ainda assim, o sonho vinha, um mundo outro se desenhava, via lugares onde o grito não existia, onde sabiam da possibilidade do abraço, do afago. Mas logo me botavam de pé, o desenho esvaecia e a dureza das vozes me golpeava. Olho esta brochura em minhas mãos, a sujeira grudada em suas páginas, todas amarelecidas. Destas páginas extraí coragem, retorqui meu pai e lá se foram quinze anos. Quinze anos!

Velas e flores ladeiam um féretro médio, excessivamente simples. Barulho de xícaras, copos pousados em mesas de madeira frágil, algumas pessoas sorvem o café servido. Há choro, palavras confortantes aos familiares; alguém, ao canto, relembra momentos específicos vividos com o morto, aquele que, neste instante, é só um corpo, podre, desfalecido, ansioso pelos vermes que já por ele desesperam. Desperto sobressaltado, minha face ressumando, um eco de grito interrompido. Este sonho sempre a me assomar, deixando-me o gosto do remorso, talvez, da culpa por um desejo, que sei eu?, represado. Levanto, faço café, não durmo mais. Retorno aos textos – sou revisor de um jornal desimportante -, aproveito a insônia que seguirá para corrigir estes absurdos. Jornalistas não escrevem bem, por isso me pagam para retirar uma vírgula indecente, acrescentar o x, possibilitar períodos.

Mais uma rodoviária, a algazarra deste pessoal impaciente, uma luta para descer logo, como mais não fosse do que uma competição. Acredito não haver prêmio para o primeiro. Mesmo os salgados, sempre de ontem, frios. Peço um café. Nada mudou nestes lugares, ou mudou pouco. Alguma árvore que cresce, casa que cai, obra inconclusa da prefeitura. Apenas alguns quilômetros e chegarei a minha cidade. Minha? Desertor, sou a minha própria habitação. Todas essas cidades percorridas só existem em mim – se vou até elas, frusto-me, não vejo nada do que julgava em lugar certo, determinado. As paisagens, pontos citadinos, casas corroídas – tudo preservado aqui dentro, existindo onde estou. O motorista buzina e, mais uma vez, a maratona dos passageiros recomeça.

O céu aqui é pequeno, reduzido pelos prédios. Faz frio, o vento gélido, em falta de agasalho suficiente, golpeia minha pele. Estremeço. Já não sinto minhas pernas, essas muitas horas de viagem. Desgastado, com fome, melindroso. Cidade. Meus ouvidos, agastados pelos gritos dos meus, parecem-me sensíveis ante o estardalhaço deste lugar. Carros de som, vozes de gente que caminha e fala ao mesmo tempo, sem cessar, o barulho, o barulho – tonitruante. Estático, olho para todos os lados, revisito-os, procuro em alguma face sinal de amparo. Em resposta, indiferença, azáfama. Invade-me uma saudade, o desenho de uma casa pequena, a paisagem seca ao redor – interrompo uma lágrima.

Quantas vezes li este livro? O que nele busco já não existe. O menino, encantado pelo contato primeiro, perdeu-se pelas horas, tantas foram as estradas. Ainda assim, esta minha tolice em querer ressurgir tempo morto, concluso, acabado. Desconfio desta minha busca por um passado que bem pode ser ideação, inventividade. Esses anos avançados, trilhados, e a cabeça sempre no mesmo lugar, aquela morada, a mulher chamando os seus para o almoço, a oração invariável, as cadeiras circunscritas, os bramidos de uma casa desabitada pela delicadeza, serenidade. Todos me verão, pensarão que voltei arrependido, carregando saudade excessiva. Eu, no entanto, consciente de que regresso para reencontrar comigo mesmo, o menino que há quinze anos decidiu-se a outras possibilidades. Saí em busca de silêncio, da possibilidade de exercer a minha parcela de humanidade. Na cidade, conheci barulho ainda maior, estupidez ainda maior – e acabei reduzido pelo trabalho. O patrão substituiu o pai, restando, da ambivalência, apenas o temor. Agora, aqui, neste ônibus. Este mato seco. Estes traços turvos na memória. Estes gritos reverberando em mim. Estas vozes. Cidades. Pontes. Rios. A indiferença: uma constante. Esta busca voraz, impertinente. Este eu presente. Este eu ausente. Cidade. Cidades. Cidade. Corpo habitado.

2 comentários em “Corpo Habitado

  1. A “mea culpa” de um retirante na volta ao antigo lar. A gramática não foi ignorada e a sequencia dos acontecimentos prende a atenção do leitor. Conto com a qualidade literária inserida no caminho da busca do objetivo do portal. Parabéns!

  2. Excelente conto. O fluxo do pensamento permite ao escritor delinear sua vida, sua visão de vida. Um paralelo muito bem feito entre a linha psicológica e a realidade que desfila à frente do narrador.
    Flavio Cruz

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