Cor de Afogamento

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(Petrolina – PE)

cor-afogamentoRegressado, mais uma vez. Idas e vindas – sem chegada. Partir, retornar: modos díspares de fugir. Desertar – mas de quê? A recordação das batalhas perdidas, o fracasso de quem, ao vencer, declina. Duas paredes rivalizam: numa, livros e quadros; noutra, troféus e medalhas. Todos os dias, o mesmo confronto. A luz reverbera no ouro dos utensílios majestáticos e irradia nas brochuras opacas. Uma objeção lógica retine em meus ouvidos: toda essa extensa leitura, estas páginas desbravadas e, ainda assim, estes troféus? Mais: não se contentara com a vitória, fora no coquetel de premiação, discursara, envaidecera-se com os aplausos, trouxera a glória nos braços, dera-lhe estante luminosa, exposta na parte mais visível da casa?

Da caixa de correspondência, papéis se amontoam, extravasam o espaço estreito. Publicidade, convites, algumas cartas. Num papel, designativo específico revolve na memória, regresso no tempo, uma sala, tapete ao centro, vinho, palavras, experiência única. Dele, outro irrompe sem muita dificuldade. Nome cravejado neste corpo disforme, a parte mais expressiva de vida. Ignoro os outros embrulhos, caminho até a cadeira de balanço do jardim lateral. Caro Felipe, leio, com algum desconforto, esta gravidade no trato. Como escutasse juiz de direito, o martelo descaído, proferindo, com palavras arranjadas e graves, sentença condenatória de pena privativa de liberdade. Infinitas possibilidades e, no entanto, uma já pensada como certa, temendo transportar os olhos para o parágrafo inicial. Adilah, digo e a voz salta como um clamor. Dois, três períodos. Isabel, por digressão, escande: Todas as águas são cor de afogamento. Uma lágrima borra a frase, a qual julgo ser do Cioran. Claudico. Ignoro a resolução de ir até o fim, confrontar os signos dispostos à minha frente. O sol, escaldante, raia numa garrafa esquecida próxima ao portão. Um frio me domina, bato dentes, mas evito o escorrer da água dos olhos. Outra ausência? É possível? Ante a dor, a rigidez do homem torna ao pó, nenhuma capa é suficiente para dissimular a fraqueza nunca escorraçada, embora tenazmente aparente. A carta na mão, entro, caminho até a sala. Agora, já não vejo medalhas e troféus. Volto-me para as estantes, interrogo os livros, uma súplica salta de meus olhos. Silêncio. Descerro um livro, outro, ainda um terceiro. Nenhum rumor, todos calados, ausentes, alheio ao meu desespero. Caio, joelhos flectidos, as mãos erguidas até a altura da cabeça. Atrás, na outra rua, a litania dos fiéis de São José do Operário. Aqui, o meu oratório sem velas, papéis apenas, sem figuras de santos. Outra vez, suplico, estertoro, a carta ainda na mão, Isabel mirando a minha imagem fraca. Desesperadamente, reviro páginas, que é feito das marcações? Que axioma me trará a paz, neste instante? Silêncio, hora morta: a palavra reina, insuficiente.

Um vento noroeste forma pequenas ondas nas águas do São Francisco, Adilah, circunspecta, ergue as mãos na tentativa de segurar os cabelos serpenteados. A ponte é balançada pelo trânsito dos carros, quatro vias de pressa e travessia. Um resto de sol irradia as faces dos trabalhadores que passam ao seu lado – bicicletas, mochilas, cansaço. Adilah mira o horizonte, confronta a finitude de sua vida com o sem-fim da paisagem, o itinerário sinuoso do rio, a serpente encoberta pela cruz. Embaixo, meninos apontam o dedo para Adilah e sorriem. Esses risos, que representam? Cabeças e pernas preenchem os espaços da Ilha do Fogo. Uma menina, entre gritos e esconjuros de uma mulher, mãe talvez, rompe a barreira do possível e precipita-se na água. Por um instante, apenas um, Adilah hesita. Esse movimento de pés sedentos por liberdade, ouvidos indiferentes aos gritos de prudência e medo, um convite à vida? A criança retorna, a boca aberta em dentes; um chicote na outra margem, a mãe a esperá-la, cara amarrada, gritos ainda: pancada, choro, pernas cativas. Adilah retorna a si, o rio defronte de seus olhos. Um pulo. Apenas um pulo e o fim – desenlaçado.

Uma mulher, o pano premido na pedra, levanta o vestido. Raio cróceo refletido na negrura exposta, o movimento verticalizado das pancadas do lençol na calosidade da pedra, a lavadeira repara na própria perna, molhada, cor de sexo, o suor ressumando da face, lábio inferior cravado por travas brancas, cortantes, abandona pano e sabão, arreganha as duas pernas, um uivo retine, copula com o rio, nunca indiferente aos corpos margeados. Súbito, um grito sobressaltado, gozo confundido, interdito: resto de líquido no copo manchado na borda. Silhueta de um corpo, antes mulher, ladeando pedra semi-encoberta. Fissuras brilhosas, a rigidez do sangue, petrificado, elucidando a metáfora da ferida acesa, incandescente, em chamas. Peitos, pernas, braços cobertos por viscosidade lodosa, parcela de humanidade ignorada, as fezes dos ricos prédios e chácaras, o sêmen e o grude dos pobres que transam e amam e matam e morrem no cimento da orla. Saias rodadas, o suor em manga de camisa, lavadeiras e homens de arado na mão correm em direção à estridência, indagam, uma só voz; os olhos, instante seguinte, encontram o volume morto ondeando na água. Incógnita. Adilah, seus olhos mortos, opacos, libertos da vida, da imposição da imagem, libertos do fogo, do reflexo do corpo violado, libertos do pai, dos homens, do confronto dos olhos da mãe, libertos de si – entregues aos peixes.

No mesmo envelope, sotopostas à carta, folhas presas por espiral parecem enunciar algo ainda desconhecido. Adilah esboçava o projeto de um livro, romance talvez. Isabel, a carta aberta, diz-me que estas folhas foram enviadas a pedido da própria Adilah, caso algo lhe acontecesse. Desconfiar, impossível, conta Isabel, que Adilah carregava a resolução de não mais ser. E, no entanto, ainda não o é? Sou eu quem faz a pergunta, mas – mudez.

De imediato, a luminária acesa, sorvo as palavras de Adilah. Presunçoso, esquadrinho frases, parágrafos, vocábulos isolados na tentativa de me encontrar nesta trama labiríntica, caótica. Adilah escreve como se bosquejasse semblantes nunca observados, familiares libaneses dos quais só ouvira falar, redesenha faces desagradáveis, dá-lhes novos contornos. A outras, a palavra cuida de não deixar deslembradas, extraviadas pelas curvas do tempo, as novas esquinas, os encontros fugidios, desencontrados. Aguilhoar o tempo com os recursos gramaticais? Adilah vai além, fende regras e fórmulas, excede a percepção da planura e, desconfio, pode que seja eu esse personagem tímido e medíocre, sempre de livro na mão.

Todas as águas são cor de afogamento – estas palavras, citadas por Isabel ante o anúncio da morte de Adilah, quando me despovoarão? Cor de afogamento… Entre um livro e outro, esta sala e a universidade, cidade presente e dispersa, aqueles dois olhos – já, quantas semanas? – em meu derredor, por sobre mim, vigília, afago e maus-tratos, como meus avós, Adilah, morta, desafia os vivos, já esquecidos do sangue que corre em veias dilatadas, comprimidas, estouro prestes.

Uma tarde, o sol quente desta cidade, fixada, repetindo-se em minha memória. Estilhaços de uma conversa, o perfume de rosas misturado ao odor de frituras das casas vizinhas, os gritos, muitos ruídos, dispersando-nos, fazendo, vez ou outra, cessarem as palavras trocadas. As mãos em meus cabelos, Adilah me pede para falar de mim, da vida da província, dos passos temerosos pelas ruas desta capital. Minha vida, tolice qualquer, importância nenhuma que contar, misturo memória e invenção, o receio de, silente, a mão repousar, partir para outros cabelos, devolver-me à solidão de todos esses anos. Enquanto observa a foto de meu avô na escrivaninha, demora-se numas folhas riscadas a lápis, frases inteiras borradas, setas indicando possibilidades impraticáveis e, margem superior da folha número um, duas palavras em destaque: esquinas inconciliáveis. Isto, o que é? – indaga-me, a curiosidade saltando da negrura de seus olhos.

Quando, a partir de que instante ou circunstância Adilah começara escrever? Ouve-me com paciência, minhas inquietações, os motivos de minhas insônias constantes, hostilidade e afeição – coexistindo – nos livros da estante, a sofreguidão em levar a palavra ao silêncio total, eco nenhum a ressonar; e, no entanto, seus lábios imóveis, palavra qualquer que encontre, num abraço, a minha fala, os meus anseios. Já, neste instante, Adilah desenha estas letras que me conduzem ao transcorrido e distante? Ainda assim, silencia, faz-me falar, enquanto, em si, tumores crescem, multiplicam-se? O estouro, quando? Estes dois volumes – leio, um só tempo, frases de um e de outro -, gerados em cidades distintas, agonias conformes? Duas caligrafias coabitando mesmo espaço, apertadas, um corpo sobre o outro, colidindo e se distanciando em pontos imprecisos? Nós dois, eu e Adilah, duas esquinas, em cidades multifárias, que se cruzam e se perdem? Como no poema de Baudelaire, alguém encontra outro alguém e, não fosse a curva do ponto adiante, o amor? Uma passante, o torcer de pescoços, a multidão indeterminada e sem rosto: fadados ao desencontro, estamos? Cada qual, uma esquina – e todas, inconciliáveis?

Que sentido secreto, nestas palavras de Adilah? E nas minhas, estas folhas maculadas à toa, qual? Tudo isso, uma ilusão, sombra na parede de contorno que bem pode inexistir. Escrever para nos conhecermos a nós próprios, para pintar quadros aprisionados e fugidios, o medo de não apreender, breve espaço de vida, os corpos esvoaçantes, os olhos entrecruzados em esquinas quaisquer? Cada vez mais, em passo contrário, a ignorância de si e do outro, a palavra rabiscada no papel e esquecida tão logo abandonemos o lápis ou fechemos as folhas numa pasta. Esquecemo-nos, a todos também, no exato instante que sucede ao abandono das palavras, pouco importando se à folha o fogo abraçará. Fadados ao esquecimento – total – e ao ceticismo que sequer espera pelos quarenta, já não cremos mais em nada – na vida, um tanto menos. Adilah naquelas águas, seu corpo coberto de fezes, a beleza tornada em nada, interrompida, vida, embaraçando o gozo de uma lavadeira, as pernas arreganhadas, o sexo em chamas contra o sol. Estas palavras, Adilah, o que me restam de ti? (Zabelê, a voz cativa, já não garganteia a tristura de seu amor malfadado.) Serás mais facilmente esquecida.

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