Coisas de Doidos

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

C.Gomes, homem que não admitia ser chamado pelo nome, apenas pelo sobrenome, senhor de meia idade, ventre avantajado e pouco cabelo, de acordo com a aparência normal de um endinheirado morador de uma pequena cidade mineira, convidou para uma visita à sua casa, Bartolo Carrapeta, como era conhecido o Bartolomeu naquela comunidade, visita essa que aconteceu numa manhã ensolarada de domingo.

Bartolo chegando foi logo adentrando a residência do amigo, tendo em mãos o que restou de uma lata de sardinhas aberta pelo caminho com a ponta do facão que invariavelmente trazia à cintura e saboreada com a ponta do dedo indicador, logo pediu a dengosa esposa do Sr. Gomes, a dona Mafalda, uma mulher enorme, para que aproveitasse a sobra junto as bordas da lata da sardinha e desse ao cão policial que, sonolentamente, guardava a morada. Em tom irritado, dona Mafalda respondeu que o nobre guarda de sua residência não era gato, para comer sardinhas, ainda mais em restos da lata. Aproveitando ainda a pequena raiva perguntou ao visitante a razão de seu nome esquisito, curiosidade que guardava à algum tempo. Desculpando-se pelo deslize, Bartolo pediu a dona Mafalda que não se ofendesse pela oferta da guloseima ao cão policial, pois não tinha intenção nenhuma de ofendê-los, tanto a ela quanto ao cachorro, e foi quando, então, explicou a origem de seu nome:

– Na verdade eu sou Bartolomeu Neto, pois meu pai recebeu este nome de meu avô, origem da dinastia Bartolomeu, que ficou assim denominado, por não ser o vovô muito normal do juízo, na verdade um pouco atarantado, por isso era constantemente roubado pelos fregueses que habitualmente frequentavam a sua vendinha, um pequeno e sujo armazém mais parecido, na verdade com um boteco, lá pelos altos das Minas Gerais. Era comum, frequentadores diários e com pouco dinheiro, chegarem ao bar e beberem muitas e muitas vezes, pagando – quando pagavam – apenas algumas doses. Minha avó, então, irritada pelos prejuízos sofridos eternamente, escreveu em mal traçadas linhas, na frente do estabelecimento:

BAR    TOLO

Entusiasmado com o nascer de meu pai, o vovô correu ao cartório para dar o nome ao rebento exatamente como estava no painel de seu negócio e acrescentando: Bar Tolo Meu. Porém, o ilustre oficial do registro negou-se a fazê-lo, concordando em anotar como Bartolomeu, depois de acirrada discussão entre as partes e assim mesmo por já ter ouvido falar de tal personagem, quando em seus tempos de escola primária, o professor ensinou que, nos idos do descobrimento do Brasil, um navegador estrangeiro aportou em nosso litoral e tentou aprisionar os índios para trabalho, que como até hoje, é claro, se recusaram, mas essa é outra história que fica para outra vez.

– Bom dia, Sr. Bartolo! Como tem passado? – Saudou amavelmente o anfitrião, Sr. Gomes, ao ver o visitante.

– Antes de responder a só essa pergunta, responda também a outra: como entrou em minha sala, passando pelo nosso cão policial que temos no quintal, sem ser molestado?

– Bom dia mesmo, Sr. Gomes – respondeu amavelmente, tirando o chapéu de palha e procurando assento.

– Temos passado como a vida nos leva, isto é, aos altos e baixos, pois conforme o senhor já sabe, eu agora sou ascensorista do elevador do prédio novo, de 22 andares lá na rua do Retiro, e quanto a segunda pergunta, tenho a lhe informar que eu também já fui policial, na patente de oficial, podendo, portanto, passar tranquilamente por cães policiais, que sejam de patente inferior à minha, como é o caso do seu cão, visto que ele jamais passou de soldado. Um policial, por sinal muito cônscio de seus deveres, pois se perfilou à minha passagem, em posição de sentido e fazendo uma continência perfeita para um cão policial que não é muito bem tratado, pois notei, poderia até seguir carreira na profissão, e ser promovido, chegando oxalá, a posto de cabo.

-Há bom! Está explicado – respondeu elegantemente o Sr. Gomes, ainda vestido com seu roble azul turquesa, com fitilhos dourados na lapela.

Sentados na varanda, o Sr. Gomes como seria de seu dever, procurou assunto para tão agradável visita, e perguntou ao Bartolo se já tinha conhecimento de sua criação de pasteis, ocupação a que estava se dedicando há algum tempo e pela qual se apaixonara.

– Mas pastéis se cria, Doutor Gomes?

– Cria!

Resposta dada com a maior ênfase possível, ainda mais sob o efeito repentino do título de doutor recebido.

– Criamos pasteis japoneses, os mais comuns, criamos pastelões chineses, os mais cobiçados e valorizados, isto tudo buscados na experiência oriental, pois pastéis existem há milênios. Conseguimos, ultimamente, um pastel reprodutor chinês, originário da família que criava pastéis para Confúcio, que cá entre nós, a história não conta, mas era um irrecuperável viciado em pastéis, alegando serem eles o combustível de seus pensamentos. Estamos procurando, através do estudo da genética, melhorar a raça do pastel brasileiro, que foi durante muitos anos misturado com castas europeias, americanas e até a africana, como por exemplo, o pastel de banana, conforme se encontra em cozinhas nacionais. Uma aberração técnica, porém, como é disso que o povo gosta, estamos pesquisando para a produção de pasteis de jaca, manga e até de cupuaçu, todos para serem reproduzidos em confinamentos criados no norte e nordeste do Brasil, visto que em outras regiões a pesquisa nos mostrou não serem do gosto popular.  Na Bahia, Sergipe e estados lindeiros, assim como agora está sendo desenvolvido também no Centro-Oeste, estamos com uma remessa experimental para sair da chocadeira digital eletrônica, pasteis de água de coco verde. A dificuldade está apenas em encontrar a fórmula para que ao ser fritado, conserve-se a água do coco gelada. Aqui nas Minas Gerais, o pastel de pão de queijo está sendo ofertado ao público consumidor, porém, a aceitação maior e pastel de tutu-de-feijão, uma iguaria não conhecida ainda em outras plagas. Falando em praga, a produção do ano passado foi menor, pois a tal de mosca-do-chifre atacou nossa criação, obrigando nossos técnicos a procurarem um predador natural para contra-atacar sem o uso de inseticidas, o que é recomendável para produto de marca altamente conceituada como o nosso.

– Sr. Gomes desculpe a interrupção – interpelou-o o Bartolo -mas estou entusiasmadíssimo com tal empreendimento, e acompanhando o seu raciocínio tive uma ideia e pergunto: o Sr. já pensou em produzir pastéis para bebês, crianças ou até para adolescentes, já que a moda é vender o que for possível para os pais de nenéns, que boquiabertos, compram tudo o que encontram para seus filhos recém-nascidos?

– Não só pensamos como também agimos – respondeu imediatamente o Sr. Gomes – temos matrizes originárias do Japão, com alto poder de reprodução, que com a idade de algumas horas apenas estão gerando pasteis transparentes, com ampla visão do recheio de chupetas anti-embassante, coloridas e vitaminadas.  Temos também pastelões chineses que trazem no seu interior bicicletas de 18 marchas, ou mesmo contendo bonecas infláveis, para adolescentes tarados, tudo isso sem perder o seu sabor característico de massa preparada com os ingredientes mais saborosos do planeta!  Estamos eliminando até o desagradável catchup nacional, porém para quem aprecia este condimento, temos pasteis que já vem acoplados com botão colorido ao lado, que quando apertado jorram mostarda no botão amarelo ou catchup no botão vermelho, eliminado assim, aquele ruído horrível, mais parecido com a soltura de gases, quando é apertada a bisnaga que está no fim. Isto é um equipamento opcional, claro!

– Parabéns, doutor Gomes, que maravilha.  Até onde vão as modernagens de hoje!

-Estamos também enveredando pelos caminhos farmacêuticos e prestes a lançar o medicamento Acordinól. Trata-se de um remédio para quem tem dificuldade em se acordar e levantar cedo da cama. Vem acondicionado em cápsulas, líquido ou injetável. Existem fórmulas com uma, duas e três miligramas, dependendo da hora que o doente quiser acordar e faz efeito programado sempre para as seis horas da manhã. Portanto, se quiser levantar as cinco, tome o remédio com duas miligramas, às quatro com três. A sua composição é segredo, mas os ingredientes principais são o extrato de despertador antigo sem e uso e essência de cantar de passarinhos. Uma maravilha!

– Bartolo, você ainda não viu nada, pois apesar da televisão, tem muita coisa que os americanos escondem do mundo, para que no dia e hora que acharem conveniente, mostre a todos as suas técnicas e com isso podem cobrar mais e mais por elas, mantendo e aumentando o seu domínio no mundo!

– Verdade verdadeira!

E antes que o Sr. Gomes pudesse falar, o Bartolo continua:

-É que também eu quero aproveitar, para convidar o doutor a chegar lá em casa qualquer hora dessas, para que eu pudesse mostrar as minhas invenções, modestas perto do que fiquei sabendo e fui honrado neste dia, mas muito de bom gosto. Posso até adiantar alguma, para que o doutor se entusiasme e não falte ao convite: um lindo mini-guarda-chuvas, para colocar em cima do cigarro de palha e protegê-lo quando na boca do fumante em dia de chuva, uma carroça com o burro empurrando por trás, para não atrapalhar a visão da paisagem e não passando pela vergonha de assistir as necessidades fisiológicas animais e uma porção de outras coisas muitos úteis.

-Está aceito, senhor Bartolo – respondeu rapidamente o Sr. Gomes.

-Fica marcado para o próximo domingo, certo? E eu que nem sabia que o senhor é inventor, coisa que admiro muito, pois eu só sei mesmo é cuidar de criação.

-Até domingo, então! Obrigado pela acolhida, doutor – falou o Bartolo, despedindo-se também de dona Mafalda e na saída, ao passar pelo cão policial ignorou-o completamente, dando, assim, mostras de sua superioridade hierárquica.

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