Cidade: Palavra Confusa

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(Petrolina – PE)

‘’A rua nasce, como o homem, /do soluço, do espasmo./ Há suor humano/ na argamassa do seu calçamento.’’ (João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas)

cidadeEnquanto observo as portas e janelas ogivais do Teatro 4 de setembro, sua voz estala em interrogação:

– Escreves sobre o quê?

Esta construção mantém a fachada original, edificada em estilo neoclássico, 1984, o ano.

– Sobre o fracasso – arrisco.

A boca dela se abre, apenas de canto. Abertura irônica, os lábios, em dúvida, cobrindo parte dos dentes. Descrê, noto, na palavra fracasso em boca de um suposto vencedor. Seus olhos, mudez absoluta, parecem faiscar palavras em modo de deboche; ouço, meus ouvidos cheios de eco, uma recriminação, como quem, dissimulado, alcança todas as glórias, aceita-as e, apesar, entre um e outro gole de cerveja, enuncia a palavra derrota apenas para impressionar aluna qualquer, sedento por admiradores, discípulos e psitacismo.

– Sartre errou. A contestação da prosa não se faz em nome de um êxito maior. De algum modo, ele mesmo reconhece em seguida. Como a poesia, a prosa contesta em nome da derrota oculta que toda vitória carrega – digo, pensando em mim próprio como grandíssimo escritor e, aceitando o risco de segui-lo no erro, em Beckett.

Miridan boceja, os olhos descaídos. Com a ponta do dedo, desvencilha-se do líquido retido no queixo. Olho-a com olhos de fome.

– Vamos ao Cine Rex? Aposto que o professor ainda não assistiu Teorema, aquele do Pasolini.

Ardidos pela quentura de uma noite sem vento e neblina, nossos corpos outra vez lançados nas calçadas. Ainda cerveja, os olhos perdidos entre ela e o rasgão interior. A loucura exsurge aos bocados ante o suor incontido, devaneios, fantasmagorias e, apenas por razão desconhecida, interdita o próprio paroxismo. Cidade, esta palavra confusa, cheia de vozes, barulho, violência – impõe-nos, de imediato, a insanidade e, no entanto, no despertar de cada dia, despeja sobre nós a obrigação da normalidade, o chamado que sacoleja arrancando o diligente de cada um, o batedor de ponto de cada qual, o violentado que engole o choro e amarga o café.

– Não nos é permitida a loucura.

Miridan sorri, confundida.

Os carros são muitos, rasgam o cenário de atores inumanos, esvoaçantes, palco urdido às pressas, com desdém, menoscabo e já ninguém sabe qual o próprio movimento, as pernas aferrolhadas, exortadas por revólver, látego e grito, ameaças furtivas – dissimulados, todos, por hino nacional, louvor a Deus e à bandeira, publicidades, reclames, tribunas e martelos. A justiça. E os atores se debatem, esbarram em figurantes, trocam falas – desarranjam o espetáculo. O público, sempre presente neste país de imenso público, aplaude, saúda, para só depois perguntar o que isto significa? O que isto significa? De que adianta, há sempre um que diz, as exibições são sempre as mesmas, a todo momento nos oferecendo o novo – em latas e garrafas com códigos de barra -, transformações entoadas e, no entanto, idêntico desfecho. Idêntico desfecho.

Os olhos de Miridan me espreitam de canto, soslaiados, cheios de vieses. Alquimio a luminosidade oblíqua, concentro-me no nada que tenho diante de mim, entorno o copo, verticalizo-o e devolvo à mesa que atrai as suas mãos. Tudo, ao redor, um grande nada. Abstrações, irrealidades, a chuva que não chove e deixa cheiro, presságios, possibilidades. Mas nada acontece. Querer o nada ou o nada querer: tudo termina em nada. E mesmo essas folhas borradas, tornadas brochuras. E mesmo essas silhuetas, a silhueta dela ante mim, intangíveis, translúcidas, diáfanas. Eu, outra intatilidade, que não toca, não pode ser tocado, abstração ruminando a propósito de outras abstrações. Despovoando prédios e ruas, desertando desta própria carcaça, as igrejas sem sinos, os viadutos arruinados, shoppings com a areia do Saara e outros desertos todos. Soergo outra vez o copo, Miridan diz qualquer coisa e levanta a caminhar em direção ao banheiro. Meus olhos cheios de fome, recolhidos aos abalos tremores desse corpo que se distancia. Ainda um esboço? Giacometti, é verdade, nunca se termina uma pintura? Sim, sempre outras tantas possibilidades, circunstância alguma esgotada? Talvez não tenha te deparado com isso. Miridan, Adilah etc. etc., que arte final vela nesses bosquejos? Então, ainda sustentas, pergunto para mim em voz medial, tudo abstração, fantasia, incorpóreo? Síncope, tergiverso. A palavra, maldita gênese, e a faculdade de a tudo racionalizar.

Praça Pedro II, quais segredos tu escondes? Os pés que afundam em teu chão, que dizem com o próprio silêncio? Esta cidade, onde os gritos asfixiados? Estes bancos, a quantos não servem de catre para sono e lascívia? Mulheres, pernas desatravancadas, gemendo ante cacetes duros, ganindo como os cachorros de rua, os quais lhes repetem a cinesia meândrica. Tornando possíveis rebentos chorosos, manancial condenado, sem teoria natalista que os socorra, nascituros com identificação criminal registrada em incubadoras neonatais. Sempre prematuros, desde o gozo que deveria espirrar em coxa ou lábios, mas – buceta. Outros fodidos que foderão nas praças, tantas, desta cidade preocupada com os desabrigados. A praça é um valhacouto enluarado, circunvalada por guardas patrimoniais. Quem vem de patins, cesta e pano para piquenique – está seguro. O cassetete na mão devassando faces encardidas, boquiabertas, subnutridas. A hostilidade primária, policiada, desenha esse cenário feliz, mentiroso, exemplar. (Com que arrogância a palavra captura uma imagem? Dá-lhe significação, visão única, subtrai a sua complexidade? Livros em nome de quê? Se o engenho apenas pode alcançar sua realização na leitura, como pode a criação gozar ante a inexistência do principal interlocutor? O escritor, este alguém que suplica, condenado ao deserto e silêncio?)

Cidade.

 

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