Chuvas No Jardim Botânico

 

         

 

        

(São Paulo / SP)

Gabriel, um jornalista em fim de carreira também olha a chuva. Não sabe porque tomara o ônibus antes da chuva… talvez porque saíra perturbado da diligência em São Paulo naquela semana. E não sabe também porque estava naquela sala de audiência quando chegou preso, o chefe de uma torcida do time do Palmeiras acusado da morte de um corintiano.

Gabriel lembrou o motivo da tal prisão, o tal chefe palmeirense e outros colegas, na sede de sua torcida organizada, teriam tentado alterar a idolatria alheia e convencer torcedor de time diferente a mudar a torcida através da tortura por afogamento. Pensaram que, se afogassem bem, usando uma banheira, o torturado se convenceria de que alguma entidade o levara para o caminho errado, devendo então declarar no final, que era palmeirense, sempre fora, surgindo todo o processo como um modo de percepção total da glória do Verdão.

– Para quem você torce?

– Eu sou torcedor do Palmeiras, do Porco! Agora eu sou!

Após estas declaração golpeavam bem o experimento e quando o soltavam, já palmeirense redimido. Achavam que dali para frente, aos poucos, a tortura faria efeito. Um dia o torturado andaria pelo centro da cidade e se pegaria torcendo pelo Palmeiras porque afinal, fora o Verdão que o livrara da morte e de consequências terríveis para a sua família.

As conversões pareceram funcionar durante um tempo. Acontece que a tal confraria encontrou um corintiano fanático, um adolescente de 17 anos, pertencente a outra pequena torcida organizada e durante 50 horas tentaram mudar a opinião do infeliz. Fizeram até rodízio de turma para o afogamento e o animal não mudava. Depois destas horas, tiveram que declarar que aquele não torceria para o Palmeiras, o tratamento fora inútil e, sendo assim o bicho não era bem vindo naquele ambiente sagrado ( principalmente ali, onde uma semana antes havia ocorrido uma suruba sem camisinha com torcedoras palmeirenses e alguma coisa ficara no ar) sendo melhor matar o sujeito, porque corintianos (Um corintiano!) não poderiam respirar ali.

 O corpo esfaqueado foi encontrado por um vigia três dias depois no Parque do Estado.

Gabriel olhava a chuva e se lembrava da respiração do Delegado, que aliás era torcedor do Palmeiras, e recebera preso o chefe daquela torcida em sua Delegacia. O torcedor algemado sentou-se em uma cadeira, parecia ter 25 anos, tinha pele branca, o lábio inferior muito saltado e um olhar que passava a ideia de estarmos diante ou de um cego ou de um cego esnobe. O delegado examinou o assassino, perguntou aos investigadores se aquele era o principal, o chefe do bando. A turma confirmou a procedência; o Delegado olhou para baixo em frente à cadeira e pediu uma foto da vítima. Gabriel lembra bem do diálogo:

 -Você tem pai, rapaz?

– Tenho!

 – Mãe não tem?

– Tenho!

– Olha pra foto do sujeito que você matou!

– Que que tem?

– Eu pedi pra olhar a foto! – disse o delegado em um tom mais ríspido.

O bandido olhou ou fingiu que olhava. O Delegado prosseguiu.

– Não percebe nada neste menino?

O palmeirense respondeu, já me acuado:

– Tem dois olhos!

 – Descreve a vítima pra mim! – disse o Delegado ainda em tom ríspido.

– Dois olhos…

– Repara no rosto!

– Dois olhos, boca, nariz, cabelo…

– Que mais?

– Dois olhos, boca, nariz, cabelo… orelha…

– Não te ensinaram nada na escola?

– Dois olhos, boca, nariz, cabelo… orelha, pescoço, um saco…

– Não, filho da puta… Você quis tanto matar por causa do teu time que nem reparou…

– Fico pensando em meu filho… – disse o delegado para os investigadores.

Ninguém respondeu e o delegado continuou o interrogatório:

 – Você não percebeu que a vítima tinha Síndrome de Down?

 O chefe da torcida arregalou os olhos.

O Delegado, que deveria ter um filho ou filha com Síndrome de Dow, virou-se para o lado esquerdo, tossiu duas vezes, respirou fundo novamente e, de súbito, deu um tapa tão forte na cara do assassino, fazendo o preso cair da cadeira, bater a cabeça na parede e soltar um gemido de dor que pareceu um arroto.

– Levem este imbecil daqui!  

Gabriel ali, no meio da chuva, lembra da cena e pensa em rezar. Ouve no rádio do motorista a notícia da queda de uma ponte na Barra da Tijuca.

Algo em sua vida, afastara os seus filhos de ambientes onde a vida não vale nada. Mas afinal quais os ambientes certos? Uma partida de futebol… a sede de uma torcida uniformizada? Matar por causa de time de futebol não estão nas regras… Gabriel sentiu vontade de chorar, de rezar, mas começou a cantar bem baixinho o hino do Fluminense, do Flamengo, do Vasco da Gama… tão lindos…tão lindos quanto do Botafogo.

 

One thought to “Chuvas No Jardim Botânico”

  1. Este é um dos relatos de acontecimentos que, infelizmente, proliferem nos dias atuais. A violência nos esportes é muito velha, tão remota como a antiga Grécia. Porém, fora do campo de competição as denominadas “torcidas organizadas” hoje proliferem e formam gangs sanguinárias, levando seus elementos ao auge das imbecilidades. Dentre as práticas realizadas também fora do campo da competição destacam-se depredações de transporte coletivo, trens, metrôs, patrimônio público ou privado, saques, roubos, arrastões, brigas, etc. Os seus participantes passam a ganhar notoriedade na mídia e contaminam agentes policiais que deveriam zelar para evitar tais ocorrências mas que se bestializam em nome da sua “autoridade”. Enfim, o seu conto é uma ocorrência hoje corriqueira, infelizmente, a ser testemunhada por ainda muitos e muitos “Gabrieis”.
    Quanto ao português correto e o ótimo desenvolvimento do conto são suas marcas registradas em todos os seus trabalhos já divulgados. Parabéns Paulo!

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