Chico Palito

 

 

 

 

(Santo Estevão – BA)

Chico era um menino muito engraçado. Daqueles bem engraçados mesmo, que só em olhar se sente vontade de gargalhar. Pensa num ser magrelo de pernas finas iguais um palito de espalitar dente, um narigão- acho que quase do tamanho do nariz do tamanduá.

Desde moleque Chico Palito como era conhecido de tão fininho que era. Pensa que ele ligava? Ele adorava e quando chegava um desconhecido na vila ele logo se apresentava: – Eu sou o Chico Palito o moleque mais veloz da região – dizia exibindo suas canelinhas finas voando pelas ruazinhas e estradas para levar recados. Para isso ele era o melhor e mais ligeiro. O tempo passou e de tanto ser mensageiro, resolveram dar-lhe um emprego de carteiro. Chico continuou a fazia o mesmo serviço, agora os recados seguiam dentro de envelopes e não mais corria a pé e sim numa bicicleta novinha que ganhou do seu novo patrão.

Chico Palito completa quinze anos que trabalha como carteiro, mas nunca se esquece de levar os seus recadinhos de boca em boca, a vila cresceu, mas ele conhecia cada pedacinho daquela região, e o povo então! Sabia o nome de cada um, dos gatos de cada casa, até dos cachorros da rua ele era conhecido.

À noite em sua casa confabulava com os seus pensamentos: – Trabalhar como carteiro tem seus encantos é muito mais que entregar palavras e segredos de um lugar para outro. No final fico mesmo sabendo o que cada envelope carrega – ria da sua curiosidade – Pensando bem, as cartas viajam de tão longe e dentro de cada uma um pedacinho da história de vida das pessoas. Com certeza falam de amizades, saudades e aventuras. Será que brigam através das letras? Pensava com sua mente mirabolante. E assim passavam as suas horas de folga voando em sua imaginação curiosa.

Quem era e onde moravam essas pessoas, será que eram felizes ou pessoas tristes como passarinhos preso em gaiolas? Será que acordavam cedo com o canto do galo? Eram tantas perguntas que perdia a hora de fechar os olhos para descansarem.

O dia acordou varrido pelo vento, o sol aquela manhã não se levantou e logo cairia a tempestade enlameava as estradas e as cartas não chegariam de bicicleta, fazia horas que separava as montanhas de envelopes que chegou atrasado de todos os lugares, o caminhão que fazia a entrega ali na vila quebrou fazia mais de um mês , agora era correr para que as noticias chegassem até as casas que com certeza as pessoas esperavam ansiosas pelas noticias.

Tinha envelopes com endereços incompletos, outros rabiscados que seria preciso sair de casa em casa perguntando quem era o dono. Dentro daquela pilha um envelope azul chamou a sua atenção, aquele era diferente de todos os outros. Outra vez Chico Palito viaja na sua imaginação curiosa. – Deve ser de uma menina, ou quem sabe de uma bondosa velhinha de cabelos grisalhos.

Um toque na porta bem na hora em que imaginava se encontrando com a bondosa velhinha sentada em sua cadeira de balanço colocando a cartinha no envelope azul.

Levantou num pulo, jogou água na casa para espantar o sono, tomou um gole de café preto, pegou a sacola cheia de envelopes, passou a perna fina na bicicleta e saiu para entregar as cartas, começou pela rua de cima, saiu mostrando o envelope, ninguém sabia a quem pertencia, estava escrito com letras bem traçadas, mas havia se manchado com alguma coisa que borrou as letras.

Naquela noite outra vez desandou a matutar; – Eu preciso trazer o envelope para casa, ela deve ficar tão solitária sozinha naquela salinha apertada, coitadinho do envelope, e as letrinhas espremidas umas as outras sem poder respirar.

Chico Palito não sabia dizer quanto de sono havia perdido por causa daquele envelope azul, nem quantas casas tinha levado para descobri o seu endereço. Bom pelo menos o pobrezinho saiu para passear e conhecer a vila e as pessoas.

Amanhã vou até a vila com certeza o Doutor Carmelo vai descobri o que está escrito naquele envelope, ele era muito sábio e com certeza iria lhe ajudar a desvendar aquele mistério. Assim na tarde seguinte, estacionou a sua bicicleta magrela em frente a casa do doutor. Antes que se aproximasse para bater na porta uma senhora saiu e de olhos esbugalhados exclamou ao ver o que o estranho trazia nas mãos:

– O que está fazendo com a minha carta em suas mãos? Escrevi faz uns quatro meses. Que correio palerma é esse que só agora manda entregar? Nesse fim de mundo melhor e mais rápido é levar as noticias pessoalmente. Gritava a senhora deixando o pobre do Chico Palito sem ação para dizer um simples desculpe.

Arrancando o envelope das mãos do carteiro entrou fechando a porta na cara de Chico quase arrancando o seu nariz..

Chico Palito extasiado de boca aberta não conseguia tirar o pé do lugar, ali estava a dona do envelope azul do jeitinho que ele imaginava. Mas o que estaria escrito ali dentro? Arrependido lembrou-se do que a sua mãe sempre fazia abria as cartas no bico da chaleira e voltava a colar sem que percebessem.

Agora era tarde a curiosidades vai continuar roendo os pensamentos de Chico Palito.

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