1994

        (Maringá-PR) Certas datas nos marcam para a vida toda. Lembro bem de quando estava na 6ª série e dei meu primeiro beijo. O nome dela era Érica, a menina mais linda da turma. Já andávamos de paquera fazia um tempão, mas nunca tínhamos encontrado um momento a sós para ver o que ia rolar.

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O Homem Que Não Queria Nada

        (Maringá-PR) Naum era uma dessas pessoas que já nascera cansado. Nos primeiros anos de vida deu mostras do quem seria em se tratando de nada fazer. Não quis o peito. Só mamava na mamadeira, e a mãe tinha que segurá-la pois ele descansava as mãos atrás da cabeça e cruzava os pezinhos como um paxá. Demorou a andar, lá para os dois anos. Falar mesmo só aos três. Antes só resmungava e apontava o que queria. Foi respondendo aos poucos. A mãe oferecia: — Quer biscoito de nata, querido? — Biscoito de nada?! — De na-ta! — Ah, não. Então não quero. O pai tentava qualquer esporte para o filho. No judô ele só caía, no futebol nem para gandula o queriam. Tentou a natação. Naum gostava de boiar, não gostava de competir. Os pais torciam por ele mas não adiantava: — Filho! Nada! Nada! Mas ele, nada. Na escola, não […]

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A Marca de Caim

        (Maringá-PR) Dois dias depois do acidente, meu irmão veio visitar-me. Ao abrir a porta, logo fui atraído pelo brilho metálico em sua mão. Seu olhar encarava-me com uma fúria medonha. — Foste responsável pelo acidente! – dizia, apontando seu revólver contra mim. – Perdi minha amada esposa Bianca para sempre e, agora, também perco meu irmão. És um homem morto! Toma isto!… Dizem que quando se está face a face com a morte, ela nos mostra um filme de nossas vidas. No meu caso, passou-se um filme dos dois últimos dias. Dois dias atrás, meu irmão, como de costume, trabalharia o dia inteiro enfurnado em seu escritório no centro da cidade, deixando sozinha sua jovem e linda esposa. Morávamos na mesma rua, quase uma casa de frente para a outra, e o que me indignava era observar o semblante resignado de minha cunhada, ao despedir-se de seu dedicado marido a cada […]

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Tarde

        (Maringá-PR) Um desimpedido facho de sol encontra uma brecha no meio das tristes nuvens gris, e, projetando-se por um breve momento como se fosse um importante holofote celeste, ilumina casualmente os passos arrastados de uma velha senhora que vem a sentar-se no banco da praça, como faz quase todo fim de tarde. A velha com o rosto ressequido, lanhado de rugas, tem os olhos cansados como se tivesse carregado o mundo inteiro por séculos.

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A História de Alex, Quer Dizer, César

        (Maringá-PR) Tudo começou quando o bebê nasceu e a mãe queria chamá-lo de Alex, mas o danado do pai deu na veneta de registrar o filho no cartório como César. A mãe aceitou, mas por teimosia chamava-o carinhosamente de Alex. O vocativo acabou pegando na família e César ficou com o apelido de Alex durante a infância. Quando seus vizinhos do prédio chamavam “Alex!”, César sabia que era com ele. Alguns amigos do bairro, desavisados, custavam a acreditar: “Quê? Seu nome de verdade é César, Alex?”.

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Tia Nina

        (Maringá-PR) Tia Nina morreu no ano em que você nasceu. Talvez sua mãe tenha lhe dito isso com alívio, porque Nina brigava muito com sua mãe desde que ela era criança e sua mãe ficava nervosa imaginando que Nina iria implicar com você depois que você nascesse; que diria que você era um bebê feio. Quando Nina morreu – e ela ia fazer sessenta anos naquele ano –, sua mãe pôde parir sem dor.

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A Mulher da Janela

        (Maringá – PR) Em uma cidadezinha do interior, uma mulher debruçada na janela de casa observa o ir e vir das pessoas pela rua, o voar e revoar das andorinhas pelos telhados, o entrar e sair da gente no mercado da esquina, e atenta às novidades do dia a dia de cada vizinho que por ali passasse, como se até onde sua vista alcançasse fosse a extensão de seu quintal, um vasto reino em que ela cuidaria da vida de cada passante.

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