A Carta do Velho

        (Natal – RN) Querido TC de meu coração, Espero que ao receber essas mal traçadas linhas esteja a gozar de perfeita saúde junto dos que com você labutam. Um beijo no coração de todos e de todas. Por cá, eu e os agregados vamos indo como Deus quer e consente. Desculpe, TC, esse todos e todas. Tenho lido suas prosas, sei que não gosta dessa expressão. Mas saiu, meu rapaz. E, como vai acabar descobrindo, não posso apagá-la. Não só por estar escrevendo de caneta, mas também por uma questão lógica, cósmica mesmo. Ah, cara, é hora de lhe pedir duas desculpas. A primeira é por você estar quebrando a cabeça para saber quem é o maluco que jogou, sem assinatura, tão cafona carta na sua caixa de correspondência. A segunda tem a ver com a linguagem. Sabe, TC, fico meio confuso na hora de redigir. Ora uso termos antigos, ora […]

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O Aniversário de Isabel

        (Natal – RN) Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara. “Pelo olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo. Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.

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O Bonachão Felinto

  Tião Carneiro (Natal – RN) “Sabe, gente boa, a mulher não tem culpa de nada. Não é ela a perdição do homem. A gente é quem se perde com elas. Raros são os homens que entendem as mulheres, compreendeu? Por isso ficamos plantando desavenças. A verdade verdadeira, gente boa, é que sempre fomos impiedosos com as mulheres”, reconhecia a estupidez masculina o experiente, ricaço e bonachão Felinto, trocando de pé na cadeirona de engraxate, mas com os olhos se estocando no rosto do vizinho de cadeira. Esse reconhecimento se dá por volta dos anos oitenta, na Pracinha do Diário, em Recife.  Gente boa é como o bonachão Felinto chama o engraxate Diel. O vizinho de cadeira é conhecido por galego, mas é desconhecido ali, posto ser aquela a primeira vez que ali engraxava os sapatos. O engraxate dele é o Rui.

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A Caixa

Tião Carneiro (Natal – RN) Cerca de quatro horas de uma tarde chuvosa, mercadinho vazio, a poeta e belíssima caixa Laurinha abandona alguns objetos no balcão a fim de ler no celular as prosas de um amigo. Faz um favor, na verdade, porque Laurinha gosta mesmo é de poemas. Mas como aquela prosa fala de um amor repentino, ela julga encontrar ali pedaços de molambos poéticos. Quiçá pelo som da chuva, mas certamente pelo tedioso texto, certo é que, ao não topar com os molambos poéticos, os olhos imploram repouso e as mãos invisíveis do sono começam a fechá-los. Fecha não fecha, Laurinha dá uma piscadela de apreensão com o pivete que, se caqueando, está se apeando de uma moto na calçada do mercadinho: assaltante ou cliente? Peço aqui um parágrafo a fim de justificar a apreensão de Laurinha. É que na sua cidade, Natal, a população vive assustada em razão dos assaltos. A cada […]

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