Uma Mulher na Sombra

    (Santos – SP) A senhora Alzira faleceu de repente, depois de 30 anos de um casamento, se não feliz, harmonioso. Sua filha Nadir, sentada ao lado do caixão, enxugou discretamente os olhos com um lencinho de papel e olhou ao redor de si. Viu as costas do pai e a mão da madrinha no braço dele, e logo atrás da mão, uns olhos atentos. Bem atentos e brilhantes. O pai, reparou ela, retribuía o gesto. Pouca gente havia no velório. Nadir, o pai, a madrinha e alguns vizinhos que já tratavam de se despedir. – Voltaremos para a cerimônia. Aliás, a cremação é bem mais bonita. A senhora não acha? – Acho triste. – Ah, claro. Queira desculpar… A madrinha agora aproximou-se, olhos baixos, afastada do pai, e propôs que saíssem para um lanche. – Deixando o cadáver sozinho? Nunca. – Filha, ainda faltam algumas horas, melhor ir para casa, descansar, tomar um […]

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A Presença

      (Santos – SP) Sou uma mulher doente. Muitas vezes sou desagradável. Não sei evitar esta inquietação que me domina e me indispõe contra toda gente alegre que encontro em meu caminho. Olhar indiferentemente ou mesmo com alegria a felicidade alheia, para quem dela se sabe privado para sempre, é um desafio. As pessoas sociáveis, aquelas que cresceram em famílias numerosas, que na infância nunca ficaram sozinhos, e pela mocidade afora até os dias atuais se veem cercadas de amigos, ou pelo menos de conhecidos bem intencionados, nem imaginam quão dolorosa é a solidão do que não teve irmãos para compartilhar sua meninice. Desde bem pequena, eu sinto esta presença faltando a meu lado. Parece complicado de entender, falando assim no negativo, mas é isto mesmo que eu sinto desde que me conheço por gente: uma ausência de alguém que deveria estar aqui. Eu me lembro, eu ria, conversava, virava para o lado […]

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O Voto

   (Santos – SP) O doutor Rodrigo estava fascinado pelo brinde que ganhara de um laboratório que fabricava vitaminas para crianças. Tratava-se de um pôster enorme, que ocupava quase toda a parede livre do consultório. Posavam para uma foto, em plena floresta, uma dezena de bichos lindamente desenhados.

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O Vereador Bem Intencionado

        (Santos – SP) O vereador Otacílio era o homem das ideias. De moinhos de vento a árvores de poemas, ele defendia tudo que prometesse tornar esse um mundo ecológico. Que maravilha, um planeta onde a humanidade respeitasse as outras espécies, onde homens, bichos e plantas repartissem o espaço com harmonia… Apesar das risadas dos outros edis, Otacílio ia já pelos vinte anos de carreira política quando seu amigo de infância foi eleito prefeito. Conhecido como “Justo” por sua retidão de caráter, o novo prefeito pediu ao amigo algumas sugestões.

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