Sampa e Suas Garoas

        (Salvador – BA) João e Pedro se encontraram mais uma vez em Sampa. E sob os seus olhares a rua se alongava para cima e para baixo, e de um lado e do outro as pessoas subiam e desciam. Andavam em grupos e tagarelavam juntas. Vez por outra, casais desfilavam suas paixões. Eram todos falantes, gesticulavam e produziam uma coreografia urbana, noturna e de rua. Aqui e ali se agrupavam, faziam arrumações de tribos. Havia uma necessidade coletiva daquilo, expressada por cada olhar e pela fumaça que suavemente escapava entre os lábios buscando uma liberdade. Mais acima, quase no final do olhar de ambos, cruzava a Paulista. A Augusta cedia à sua imponente passagem. Era necessária e natural aquela interseção. E o obelisco monetário na esquina aceitava o desfile da poesia. E ao longo daquela imagem tão metropolitana um rock singer avulso, por um instante, paralisava os transeuntes. A voz rouca […]

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O Pequeno Pietro

        (Salvador – BA) Thomas Mark era de meia idade, talvez quarenta e três anos. Aparência fina e as palavras sempre educadas. O seu trabalho no escritório da L&M Building no centro comercial, na Avenida Castro Alves, sala 801, era o resultado de anos dedicados ao trabalho de campo. Engenheiro experiente e com boa convivência, era bom amigo e desejado nas rodas de conversas.

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O Sertão Virou Marte

        (Salvador – BA) E o sol começava a arder. Ao longe, bem distante, nas sombras dos mandacarus surgiam as miragens. Horas antes as corujas do sertão já tinham retornados aos seus esconderijos. Era talvez sete horas da manhã. Era verão de 1950. A noite tinha sido uma agonia e também cheia de muita expectativa. Dona Maria sentia o momento do nascimento se aproximando. Mesmo sem nunca ter lido nada sobre aquilo. Nunca aprendeu a ler ou escrever. Agora com trinta anos e sete barrigas já paridas, a experiência lhe ensinara. Ela tinha a certeza que sua oitava criação iria nascer. Não sabia sobre o sexo do seu novo rebento. Mas sabia que a dona do corpo já desaguara, e isto era um sinal. As rezadeiras tinham arriscado um palpite: seria menino. Ela preferia não acreditar. Depois de sete filhas não teria a sorte ter um menino. – Já fui a Salgadália […]

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Alvorecer

        (Salvador – BA) Carol tinha o hábito de dormir cedo. Aquele ano era especial. Tinha iniciado o segundo grau. Antes das vinte e uma horas já tinha realizado seus estudos, revisado seus materiais e deixado tudo arrumado para dia seguinte. Sempre era assim e antes de adormecer entregava-se a alguma leitura.

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Velho São Francisco

        (Salvador – BA) Naquele domingo tudo ocorria como de costume. No Sertão tão árido de terras secas e vegetação rara, aquele rio era como um milagre. Os moradores ribeirinhos já estavam acostumados com os visitantes nos dias ensolarados dos finais de semana. Pais sertanejos traziam seus filhos e suas famílias para o banho sagrado. Aquela peregrinação era algo sagrado, pelo menos uma vez no ano ou na vida tinha que acontecer.

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O Gato Mimi

        (Salvador – BA) Era uma casa antiga, da época dos senhores de engenhos. Tinha um peitoril lindo, com alguns detalhes da arquitetura barroca. Uma escada central que se abria em ípsilon abraçando a fonte a sua frente, era o charme da entrada daquele casarão. Anjos gordinhos lançando jatos de água davam o clima celestial ao lugar. Ali o trabalho era árduo e em tempos de colheitas a presença de trabalhadores temporários aumentava muito a agitação da fazenda.

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Tardes Vadias

        (Salvador – BA) Era março do ano de 1993. Mas, bem poderia ter sido em qualquer época. Era inicio de mais um novo ano letivo. Aquela cidade do interior da Bahia mantinha sua tranqüilidade e tudo acontecia normalmente. Dona Mariana mãe de Pedro, de doze anos, já tinha tomado todas as providências para o inicio das aulas. Da matrícula, da compra dos livros, do material escolar e até o fardamento. Era uma expectativa muito grande da família em relação à nova escola que Pedro e Maria iriam estudar. Maria era uma turma mais nova que seu irmão. Todos aguardavam muito aquela nova fase dos dois. A mudança de escola aconteceu devido a distância da casa da família Almeida para a antiga escola e também a nova escola era diferente, tinha um novo modelo de ensino.

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O Incrível Objeto de Chapecó

          (Salvador – BA) Talvez aquele não fosse o seu desejo mais íntimo. A sua vontade verdadeira estaria somente em observar o voo livre dos pássaros e admirar aquela impossibilidade. Guaraci pela primeira vez sairia da sua aldeia. Encontrava-se doente, uma anemia grave que o deixava pálido e sem forças. Todos os recursos espirituais e de cura já tinham se esgotados. A pajelança há uma semana tinha sido realizada e até o momento nenhuma melhora tinha sido percebida. O pajé acreditava que em breve aquele espirito iria retornar para a convivência como os seus antepassados. Mas era muito cedo, Guaraci tinha somente dezesseis anos.

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