O Dia Seguinte

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

– Não fale comigo agora, filho, pois estão querendo a minha cabeça no emprego!

Foi esta a frase que acordou Cássia logo de manhã, trazendo para o mundo a aflição do seu marido, o seu marido absurdo, que se mostrou tão diferente do dia anterior ao usar uma expressão agressiva logo após um telefonema da firma onde trabalhava.

– Eu conheço aquela alcateia! Todo mundo quer comer todo mundo! (mais…)

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Encontro Selvagem

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

A avó de Elza sempre rezava durante as tempestades. Rezava tanto e tão fervorosamente que criou um ritual, cuja repetição dos mesmos atos evitaria a proximidade dos raios e o destelhamento da casa.

Ela fechava as janelas, bebia um copo de água com açúcar, acendia velas no sopé da escada, perfumava as mãos com óleo canforado, colocava a cabeça sob os travesseiros e rezava o terço.

Elza, a neta, acompanhava a prece. Não pelo medo do destelhamento. Orava porque gostava do lento, calculado e coreografado cerimonial da avó. A anciã brincava de chá com bonecas. Bonecas terríveis os raios e trovões. (mais…)

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Unhas

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(São Paulo – SP)

dedoTinha que ser logo no dia em que toda a sua família estava em sua casa. Um vento forte fechou a porta do quarto na ponta do dedo médio esquerdo de Oswaldinho, seis anos de idade.

Waldinho gritou, saiu correndo, encontrou a mãe e chorou. Suplicou à mulher que lhe salvasse o dedo. A mãe soprou, soprou, passou mercurocromo, cobriu o machucado com ‘band-aid”, beijou o dedo, as mãos do filho, beijou  e despachou o garoto.

A dor, de fato, passara, mas o menino parou na ferida. Ficou remexendo o machucado. Tirava o “band-aid”. A unha surgia. Diferente, roxa, dobrada.  Mostrou para a tia, exibiu para os primos. Apontou o sangue coagulado.

O pai chegou em casa. Examinou o dedo e perguntou se o filho chorara.

– Homem não chora. Não quero filho maricas, chorando por bobagens.  (mais…)

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Terno e Gravata

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(São Paulo – SP)

terno-e-gravataDizem que as vítimas confundem o rosto do agressor, mas as testemunhas viram que ele era um homem magro de cabelos curtos, rosto comprido e encovado. O rosto parecia estar mal lavado, cheios de manchas, mas o bandido também poderia sofrer de algum tipo de melanoma. Não dava para afirmar, embora fosse nítido que os olhos do sujeito abriram vermelhos, como se ele acabasse de sair de um bar após embriagar-se e entrasse naquele coletivo quase vazio. Carregava uma mochila velha, sentou em um dos bancos laterais e certamente não gostou de Clayton, da sua aparência geral. Logo de Clayton, que seguia para uma entrevista de emprego vestindo terno e gravata.  Após dez minutos de viagem, o tal homem levantou-se, parou no corredor do ônibus e, sem dizer nada, tirou um revólver da bolsa e apontou contra a cabeça de Clayton. (mais…)

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Um Outro Condutor

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(São Paulo – SP)

 

 

Sandoval trabalhava cocondutormo condutor de trens do metrô na cidade do Rio de Janeiro, mas para ele algo que lhe inspirava durante seu expediente era a imagem da grávida sentada mastigando biscoito. Esta imagem principalmente, entre algumas outras imagens dentro dos vagões: o advogado que precisava chegar a audiência; o estudante atrasado para a prova final; outro adolescente fora do horário em seu primeiro dia de emprego; o executivo que calculava descer na Cinelândia e pegar um táxi rapidamente para o aeroporto porque voos não esperam. Sandoval sentia a importância que seu trabalho causava em todos os passageiros. Gostava mais quando o trem parava por causa de algum incidente. Os passageiros distraídos no início e depois impacientes, respiravam fundo, e somente ele, o condutor, sendo capaz de mudar tudo. (mais…)

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O Aniversário de Lúcia

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(São Paulo – SP)

macacosQuando Lúcia, dez anos completados em agosto, entrou no Jardim Zoológico de Brasília, correu, virou à esquerda na primeira alameda, seguiu o rugido dos leões e perdeu-se dos familiares.Melhor agora, a excursão seria dela e também da sua saia xadrez de zebra,  da camisa branca igual ao cisne, dos brincos de bolinha dourada para os beija-flores.

O resto da família: o pai, a mãe, os três irmãos eram orelhas sem adornos.

A garota aguardara ansiosa este domingo no zoológico. Ali vestiria o casaco do leopardo. Imaginou a Savana Africana. O rinoceronte correria atrás do próprio chifre.  Os avestruzes engoliriam garrafas de Coca-Cola. (mais…)

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A Afogada

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 (São Paulo – SP)

futeb-praiaLevaria quase meia hora para Carolina percorrer a praia e meditar. Quais os erros e acertos do ano de 1975? O ano terminaria no dia seguinte. Ela queria saber. Foi um tempo proveitoso?

Emagrecera oito quilos em nove meses. Oito quilos. A dieta exigiu força de vontade. Pouco açúcar. Nada de frituras. Habituar-se a caminhar pelas ruas do bairro. Sua grande meta sempre lhe beliscou: não seria mais o principal alvo das gozações dos meninos. Não mais a chamariam de baleia, de porca assassina…

Foi nessa mesma praia. Aqui começara a planejar a mudança. O contra-ataque à indelicadeza dos meninos.

Tornara-se cansativo vê-los no comando. Jogarem bola sobre a areia quente. Rolarem nos cantos como gatos quando se coçam.  Empinarem os músculos para as meninas. (mais…)

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A Morte dos Anões

Paulo Fontenelle de Araujo

(São Paulo – SP)

a-morte-dos-anooes-2Sempre aos sábados, Paulo, cinco anos de idade, seguia a mãe por aquela feira livre no bairro de Moema.  Feira comprida, cheia de cacarecos, meio circense, percorria muitos quarteirões, virava em uma rua sem nome e beirava os trilhos do bonde de Santo Amaro.

A mãe de Paulo escolhia ali suas dúzias e experimentava nacos de frutas, oferecidos pelos feirantes na prova da garantia do produto.

O menino observava o comércio e mal chegava ao nível das prateleiras. Sabia, no entanto, a organização do lugar: na entrada gelavam os peixes, depois rolavam as laranjas e bem no meio espalhavam as outras frutas. (Aliás, para os olhos de Paulo, bananas e peixes assemelhavam-se pela enorme variedade. A banana-maçã estava para a sardinha e a banana-prata poderia ser a corvina). (mais…)

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