Uma Família

 

 

 

 

(São Paulo – SP)           

O programa religioso que passa na tevê toca a canção “Oração da Família” e repete o refrão:

“Abençoa senhor as famílias, amém! Abençoa senhor, a minha também…”.

Sílvio acha muita graça da canção, pois dali há uma hora, sairá de sua casa. Seu relacionamento com a esposa está aos cacos e agora, de súbito, escuta este hino religioso celebrando a família. É uma ocorrência que supõe: ou Deus não existe ou ele é muito irônico. (mais…)

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As Crianças do General Médici

 

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Em 1971, quando eu estava na segunda série do primário, o presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, visitou a minha cidade e eu fui convocada para recebê-lo no aeroporto junto com as autoridades da região.

Lembro-me de que, antes da visita, eu havia sido eleita Miss Caipirinha na festa junina da prefeitura. Recebera medalha da aluna mais estudiosa das escolas do município e, diante de tantas vitórias, julguei a escolha perfeita. (mais…)

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O Dia Seguinte

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

– Não fale comigo agora, filho, pois estão querendo a minha cabeça no emprego!

Foi esta a frase que acordou Cássia logo de manhã, trazendo para o mundo a aflição do seu marido, o seu marido absurdo, que se mostrou tão diferente do dia anterior ao usar uma expressão agressiva logo após um telefonema da firma onde trabalhava.

– Eu conheço aquela alcateia! Todo mundo quer comer todo mundo! (mais…)

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Encontro Selvagem

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

A avó de Elza sempre rezava durante as tempestades. Rezava tanto e tão fervorosamente que criou um ritual, cuja repetição dos mesmos atos evitaria a proximidade dos raios e o destelhamento da casa.

Ela fechava as janelas, bebia um copo de água com açúcar, acendia velas no sopé da escada, perfumava as mãos com óleo canforado, colocava a cabeça sob os travesseiros e rezava o terço.

Elza, a neta, acompanhava a prece. Não pelo medo do destelhamento. Orava porque gostava do lento, calculado e coreografado cerimonial da avó. A anciã brincava de chá com bonecas. Bonecas terríveis os raios e trovões. (mais…)

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Unhas

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(São Paulo – SP)

dedoTinha que ser logo no dia em que toda a sua família estava em sua casa. Um vento forte fechou a porta do quarto na ponta do dedo médio esquerdo de Oswaldinho, seis anos de idade.

Waldinho gritou, saiu correndo, encontrou a mãe e chorou. Suplicou à mulher que lhe salvasse o dedo. A mãe soprou, soprou, passou mercurocromo, cobriu o machucado com ‘band-aid”, beijou o dedo, as mãos do filho, beijou  e despachou o garoto.

A dor, de fato, passara, mas o menino parou na ferida. Ficou remexendo o machucado. Tirava o “band-aid”. A unha surgia. Diferente, roxa, dobrada.  Mostrou para a tia, exibiu para os primos. Apontou o sangue coagulado.

O pai chegou em casa. Examinou o dedo e perguntou se o filho chorara.

– Homem não chora. Não quero filho maricas, chorando por bobagens.  (mais…)

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Terno e Gravata

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(São Paulo – SP)

terno-e-gravataDizem que as vítimas confundem o rosto do agressor, mas as testemunhas viram que ele era um homem magro de cabelos curtos, rosto comprido e encovado. O rosto parecia estar mal lavado, cheios de manchas, mas o bandido também poderia sofrer de algum tipo de melanoma. Não dava para afirmar, embora fosse nítido que os olhos do sujeito abriram vermelhos, como se ele acabasse de sair de um bar após embriagar-se e entrasse naquele coletivo quase vazio. Carregava uma mochila velha, sentou em um dos bancos laterais e certamente não gostou de Clayton, da sua aparência geral. Logo de Clayton, que seguia para uma entrevista de emprego vestindo terno e gravata.  Após dez minutos de viagem, o tal homem levantou-se, parou no corredor do ônibus e, sem dizer nada, tirou um revólver da bolsa e apontou contra a cabeça de Clayton. (mais…)

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Um Outro Condutor

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(São Paulo – SP)

 

 

Sandoval trabalhava cocondutormo condutor de trens do metrô na cidade do Rio de Janeiro, mas para ele algo que lhe inspirava durante seu expediente era a imagem da grávida sentada mastigando biscoito. Esta imagem principalmente, entre algumas outras imagens dentro dos vagões: o advogado que precisava chegar a audiência; o estudante atrasado para a prova final; outro adolescente fora do horário em seu primeiro dia de emprego; o executivo que calculava descer na Cinelândia e pegar um táxi rapidamente para o aeroporto porque voos não esperam. Sandoval sentia a importância que seu trabalho causava em todos os passageiros. Gostava mais quando o trem parava por causa de algum incidente. Os passageiros distraídos no início e depois impacientes, respiravam fundo, e somente ele, o condutor, sendo capaz de mudar tudo. (mais…)

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O Aniversário de Lúcia

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(São Paulo – SP)

macacosQuando Lúcia, dez anos completados em agosto, entrou no Jardim Zoológico de Brasília, correu, virou à esquerda na primeira alameda, seguiu o rugido dos leões e perdeu-se dos familiares.Melhor agora, a excursão seria dela e também da sua saia xadrez de zebra,  da camisa branca igual ao cisne, dos brincos de bolinha dourada para os beija-flores.

O resto da família: o pai, a mãe, os três irmãos eram orelhas sem adornos.

A garota aguardara ansiosa este domingo no zoológico. Ali vestiria o casaco do leopardo. Imaginou a Savana Africana. O rinoceronte correria atrás do próprio chifre.  Os avestruzes engoliriam garrafas de Coca-Cola. (mais…)

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