Chuvas No Jardim Botânico

                       (São Paulo / SP) Gabriel, um jornalista em fim de carreira também olha a chuva. Não sabe porque tomara o ônibus antes da chuva… talvez porque saíra perturbado da diligência em São Paulo naquela semana. E não sabe também porque estava naquela sala de audiência quando chegou preso, o chefe de uma torcida do time do Palmeiras acusado da morte de um corintiano.

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A Morada dos Insetos

          (São Paulo – SP)   Chego. Quis que a antiga pedreira de Santo Amaro fosse o marco introdutório da minha missão. Dizem que ali se encontra uma grande pedra. A pedreira é o ponto final do ônibus no qual embarco, apesar da placa do lotação indicar como destino um lugar chamado Eldorado. Desço na rua Prof. Cardoso de Melo Neto. Não vejo ninguém. Sigo o asfalto, a estrada de terra e contorno o muro da pedreira vazia. No mapa de São Paulo, o lugar é um branco e de fato seria somente um branco não fosse o morro. Avisto-o ao fundo. Um morro escuro e isolado no meio de um terreno. Uma grande pedra como disseram, arruinada pela produção de seixos. Tiraram um pedaço com dinamites. As pessoas reclamaram dos estouros e desativaram a pedreira. Uma criança diria tratar-se de um meteoro. Sim, um corpo gerado no espaço sideral que […]

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Rua Xis

        (São Paulo – SP) Oswaldo completou noventa anos e percebeu que durante toda a sua vida morara em apenas cinco lugares, em cinco ruas diferentes: rua Doutor Jesuíno de Souza; rua Constantino Maciel; rua Acalifas e rua Afonso XIII. Oswaldo completou noventa anos e percebeu também que, entre tantos disparates de fim de jornada, mantinha-se em uma dúvida: não sabia quem foram as pessoas ou coisas homenageadas atrás daquelas ruas. Isto era algo significativo. Ninguém deve morrer com esta dúvida. Idosos podem chegar à perfeição. Oswaldo morou durante quarenta anos na rua Acalifas. Nunca soube o que era uma acalifas. Parecia algo sem sentido: uma Acalifas é o nome de um arbusto ornamental de folhas avermelhadas conhecida também por “flamengueira” porque a coloração das folhas é semelhantes as cores do Clube de Regatas do Flamengo. Oswaldo era vascaíno. Então residira na rua errada? Isto lhe provocou uma depressão estranha. Comemorou todos […]

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A Tevê Ligada

      (São Paulo – SP) Clara, 88 anos está perto de morrer, mas há uma tevê ligada em seu quarto no hospital e ela ouve falar do novo creme dental que combate as bactérias que provocam cáries e mau hálito e ouve também sobre um grande lançamento imobiliário, perto dos locais importantes para o espectador. “Compre este lindo apartamento e os primeiros clientes, ainda neste fim de semana, ganharão um novíssimo ar condicionado!” Clara chega a pensar, antes de morrer, na suíte deste lançamento imobiliário e em um salão para festas com balões laranjas. A tevê do quarto permanece ligada. Clara, 88 anos, solteira recebe a visita de dois sobrinhos adolescentes. Ela possui tantos irmãos e avisa aos dois jovens: – Eu não quero briga na divisão dos meus bens Os dois sobrinhos dizem antes de sair – Ora , titia! Ninguém vai brigar… e a senhora não está morrendo. Clara sabe estar […]

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Outros Palhaços

     (São Paulo – SP) Antônio tinha oitenta anos e sabia o quanto perdia a memória. Perdia a memória, mas o fato nem o incomodava. Antônio aos oitenta anos sem memória, achava que nos últimos meses recebera a visita do pai morto há cinquenta anos, da esposa falecida há vinte e até o filho. Pareceu-lhe que conversara com o menino ontem, embora a criança tivesse morrido há mais de trinta anos de leucemia. Antônio perdia a boa memória e não se incomodava porque a má memória trazia outras lembranças. Infelizmente, porém, a má memória tornou-se efetivamente má.

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