Ondas do Mar da Vida

                                                                                                                Marília Francisco

(Viamão – RS)

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Chovia e não chovia, chuviscava durante a inerte tarde de outono. Antunes estava sentado em fr
ente à janela de sua quase sempre movimentada sala gélida tomando seu café e saboreando seu fumo enquanto se lembrava da longínqua e quase esquecida vida à beira mar que vivera em um sonho que realizara e que dele desistira pelos pesados pesadelos que tivera.

O fechado mar azul, a estreita e longa faixa de areia encascalhada, as pedreiras, a bica d’água doce que escorria, os encantados que a habitavam, o céu quase sempre límpido mas nem sempre sereno, o ar, às vezes um tanto esfumaçado, as ruas calmas mas nem sempre serenas, os pássaros cantores… O cheiro da vida era perfumado, era embriagado. Passos leves e constantes que a lugar algum iam, mas que a alma impressionavam em saltos.

Sentado à beira do mar, dentro de um ancorado barquinho, Antunes refletia junto às tensas e baixas ondas de seu mar. Olhava as ondas como se olhasse a si próprio. Olhava a si próprio por suas mãos ainda jovens, mas cansadas de lutar contra o que nem se sabia o quê. Ondas do mar avançavam, quase que brincando com Antunes de entra e não entra barco adentro, de leva e não leva o pequeno barco, fazia Antunes perceber que sua vida estava por se transformar. Uma quase transparência em suas mãos fizera-lhe ver sua vida indo e vindo, saltando por dentro das ondas movidas pelo vento, nem iam e nem vinham, nem levantavam o barco, nem o guiavam e nem o deixavam estático. (mais…)

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