Dona Rosa

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) O passo estugado de quem teme chegar postumamente, envolvido na aragem impiedosa de um Janeiro particularmente frio, misturava-se com o torvelinho de pensamentos que revolteava dentro de si. Lúcio e as lágrimas de comoção e alegria que lhe saltaram dos olhos emaciados quando Branca, a parteira, o depositou nos seus braços extenuados. Um amor das entranhas. Seu filho, sua vida, doces sinónimos. Lúcio e as hastes do seu coraçãozinho cálido apertadas no seu pescoço. Na memória, ainda o cheiro tenro a leite e o corrilório de beijinhos com que escoava a loucura desse amor no seu bebé. Lúcio e a ansiedade do primeiro dia de escola.

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Medricas

      (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Salta! Vá, vá não tenhas medo, vais ver que não custa nada… – Não consigo! – Balbucia Zeferino, do alto. Farto de ser humilhado pelos demais, Zeferino afoitou-se a subir para cima do barril e saltar para a água, provando à malta que também era capaz. Empoleirado, tentava não deixar transparecer o medo que sentia ao ver a altura do salto, mas sentia um terror enorme naquele mergulho de pouco mais de um metro. Não, não era apenas um metro, mas uma altura complicada para ele, pelo receio de cair mal. «Não gostava de correr riscos e daí?»

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Louca Tentação

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) James, amor da minha vida! Parece que foi ontem que te vi, no entanto, tanta água já passou debaixo da ponte. Estava acompanhado pela minha esposa naquela manhã de Domingo. O desejo de um café fez-nos entrar. Enquanto o saboreava, espraiava a vista pelo ambiente repleto de gente que entrava e saía, subitamente como que hipnotizado, quedei-me. O meu olhar prendia-se agora à tua elegante figura. Senhor de ti, e rodeado dos teus iguais, certamente que não te apercebias do ar de basbaque com que te mirava. Um toque no braço para pagar a conta, acordou-me. Só então dei conta da figurinha que estava a fazer. Corei e censurei-me por essa minha fraqueza, ainda mais, por ter a meu lado a incomodativa presença da minha esposa.

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A Prenda de Natal

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) A ténue luz da candeia a petróleo era ampliada pelos tocos de pinheiro, impregnados de cerne, que ardiam na lareira. Em cada um dos lados, uma panela de ferro fumegava. Em volta, o rosto corado de quatro crianças labutavam com uma malga de caldo com broa migada. O silêncio reinante era interrompido amiúde pelo estalar de uma ou outra cavaca, e o ruído das colheres, no vaivém de encher e levar à boca. A um canto, um homem ainda novo olhava para a lide da sua mulher, na azáfama diária de fazer e servir a ceia aos garotos. Também ele esperava paciente pela sua malga de caldo.

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Calcinha Preta

    (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Gervásio já conta com o triplo de anos do que provavelmente aqueles que terá pra viver. Desde a morte da sua mulher que se tornou irrascível, solitário e sem vontade de viver. Contava os dias como se fossem anos, rezando aos santos da sua devoção para que fosse bafejado pela morte. Não que tivesse dificuldades económicas ou físicas, apenas porque desde que a defunta partira, nunca mais sentira um perfume feminino que lhe fizesse o velho coração pulsar como outrora. Talvez fosse essa a razão por que ficou tão zangado com a jeitosa vizinha do primeiro, quando esta deixou cair do estendal uma calcinha preta bem no centro da sua alva carequinha. Uns impropérios de baixo para cima, com a senhora humildemente a pedir desculpa, que lhe tinha escapado, mas também não era preciso fazer um escândalo por tão pouco, e se tinha que lhe dizer […]

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Traquinices

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Nas nossas memórias temos momentos em que a saudade nos deixa uma lágrima ao canto do olho. Outras, um sorriso meio maroto quando retrocedemos no tempo e vemos como são uns autênticos meninos do coro as crianças de agora quando comparadas connosco com a mesma idade. Éramos criados um pouco ao Deus dará, sem luxos nem entraves, quanto ao que fazer nos tempos livres. Tal como aves, assim que saem do ninho, também nós, errávamos pelas ruas e campos numa completa liberdade, correndo riscos de fazer brancas a qualquer pai. A única condição era estar em casa ao escurecer e horas de refeições e claro, executar as tarefas que nos eram incumbidas.

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Há Dias Assim

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Quero uma taça de vinho branco. Se ninguém pagar pago eu! Estranho modo, este, de pedir que lhe sirvam uma taça de vinho branco com gasosa, porém, teve o efeito de fazer-me voltar a cabeça para visionar o seu autor. Olhei para o lado e vi que me encontrava apenas com os meus amigos, Antero e Avelino junto ao balcão. É certo que muitas vezes gosto de me aviar na sua banca e sempre que o vejo peço-lhe para ser ele a atender-me, ao mesmo tempo que lhe solicito quando for a época para me arranjar avelãs (um dos meus pecaditos). Mas daí a entrar com tal rompante sem que alguma vez tivéssemos confraternizado, achei-lhe um certo descaramento.

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