A Dívida

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Desesperado fui ter com o médico da preguiça. – Da preguiça? – Sim, o tal que nos manda deitar e, sentadinho sem mexer uma palha, vai entabulando uma conversa para nos fazer falar. Lá falar até falei, acho até que falei demais. Olhos no tecto mirando o formato do candeeiro, ia deitando pra fora, a raiva, o temor a angústia, até que me secou a garganta.

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O Coxo

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   Alfredo Carriço teve uma juventude desafogada quando comparado com os outros rapazes da mesma idade. Numa altura em que ter uma simples bicicleta era um luxo, já Alfredo fazia roncar a sua Famel, uma motorizada de três velocidades.

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A Vingança

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   A raiva que o consumia crescia com o transporte, às costas, do barril de água para o forte. Faltavam dois meses para regressar à sua Unidade. Que seria do maldito oficial que o esbofeteara em plena parada? Único culpado do martírio que sofria com o chocalhar do barril de água, meio cheio, para o castigar mais.

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A Última Ceia

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Naquele tempo, os discípulos de Jesus programaram o que seria conhecido para a posteridade como a Última Ceia. A azáfama dos preparativos fez andar numa fona, o irmão de Pedro, Pedro que ainda não era Pedro, mas Simão, um rude pescador que não se ensaiava nada para assentar a mãozona na tromba do primeiro que se armasse em esperto.

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O Lorde

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   Ainda sem ver o mundo, sentia no entanto o instinto da disputa pelo leite materno com seus irmãos. Todos juntinhos, mas cada um numa competição de sobrevivência, tentavam abocanhar a teta materna, num frenesim acompanhado de pequenos latidos, mais parecidos com choro de bebes rezingões, quando deparavam que a sua fonte de alimentos já se esgotara ou estava ocupada pelo parceiro mais lampeiro.

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A Páscoa

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) O estralejar de foguetes fez saltar da cama o pequeno Afonso. O seu rosto trigueiro emanava uma alegria fora de comum. – Mãe, pai, levantem-se, já é Domingo de Páscoa. Onde é que me lavo? A minha roupa? – Pergunta o pequeno com ansiedade. O pai sorriu perante todo este anseio, e ao resmungo da esposa, respondeu ao seu rebento com parcimónia. – Tem calma Afonsinho, a tua mãe já se levanta. Acende o lume que nós já vamos.

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A Trovoada e a Bicicleta

      (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) O tempo escurecia, com a temperatura demasiado alta para a época só poderia ser prenúncio a uma trovoada das grossas. O negrume acentuava-se a cada minuto, dando forças ao jovem Simão para pedalar como nunca o fizera. Faltavam ainda meia dúzia de quilómetros para percorrer, pelo meio da mata, até chegar a casa. Os pinheiros que ladeavam a estreita estrada, gigantes que com a sua sombra faziam delícias aos caminhantes no verão, eram agora monstros enormes que oscilavam apesar da sua robustez, à fúria dos ventos.

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Ao Calor da Lareira

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) “Aboseire-se” (sente-se) aí e coma deste “solapado” (pão que não cresceu). – Não sei se possa, com este guieiro tenho os dedos encarquilhados com tanto “barbeiro” (frio). -Nesse caso, escarranche-se perto da fogueira, mas cuidado com as frieiras. -Não te apoquentes cachopa que desse mal me cuido eu, o pior é este andaço (mal) que me persegue há mais de “três quinze dias”. Se calhar foi aquela morrinha que apanhei pelo São Martinho.

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