A Última Ceia

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Naquele tempo, os discípulos de Jesus programaram o que seria conhecido para a posteridade como a Última Ceia.

A azáfama dos preparativos fez andar numa fona, o irmão de Pedro, Pedro que ainda não era Pedro, mas Simão, um rude pescador que não se ensaiava nada para assentar a mãozona na tromba do primeiro que se armasse em esperto. (mais…)

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O Lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

Ainda sem ver o mundo, sentia no entanto o instinto da disputa pelo leite materno com seus irmãos. Todos juntinhos, mas cada um numa competição de sobrevivência, tentavam abocanhar a teta materna, num frenesim acompanhado de pequenos latidos, mais parecidos com choro de bebes rezingões, quando deparavam que a sua fonte de alimentos já se esgotara ou estava ocupada pelo parceiro mais lampeiro. (mais…)

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A Páscoa

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

O estralejar de foguetes fez saltar da cama o pequeno Afonso. O seu rosto trigueiro emanava uma alegria fora de comum.

– Mãe, pai, levantem-se, já é Domingo de Páscoa. Onde é que me lavo? A minha roupa? – Pergunta o pequeno com ansiedade.

O pai sorriu perante todo este anseio, e ao resmungo da esposa, respondeu ao seu rebento com parcimónia.

– Tem calma Afonsinho, a tua mãe já se levanta. Acende o lume que nós já vamos. (mais…)

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A Trovoada e a Bicicleta

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

O tempo escurecia, com a temperatura demasiado alta para a época só poderia ser prenúncio a uma trovoada das grossas. O negrume acentuava-se a cada minuto, dando forças ao jovem Simão para pedalar como nunca o fizera. Faltavam ainda meia dúzia de quilómetros para percorrer, pelo meio da mata, até chegar a casa.

Os pinheiros que ladeavam a estreita estrada, gigantes que com a sua sombra faziam delícias aos caminhantes no verão, eram agora monstros enormes que oscilavam apesar da sua robustez, à fúria dos ventos. (mais…)

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Ao Calor da Lareira

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

“Aboseire-se” (sente-se) aí elareira coma deste “solapado” (pão que não cresceu).

– Não sei se possa, com este guieiro tenho os dedos encarquilhados com tanto “barbeiro” (frio).

-Nesse caso, escarranche-se perto da fogueira, mas cuidado com as frieiras.

-Não te apoquentes cachopa que desse mal me cuido eu, o pior é este andaço (mal) que me persegue há mais de “três quinze dias”. Se calhar foi aquela morrinha que apanhei pelo São Martinho. (mais…)

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Dona Rosa

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

dona-rosaO passo estugado de quem teme chegar postumamente, envolvido na aragem impiedosa de um Janeiro particularmente frio, misturava-se com o torvelinho de pensamentos que revolteava dentro de si. Lúcio e as lágrimas de comoção e alegria que lhe saltaram dos olhos emaciados quando Branca, a parteira, o depositou nos seus braços extenuados. Um amor das entranhas. Seu filho, sua vida, doces sinónimos. Lúcio e as hastes do seu coraçãozinho cálido apertadas no seu pescoço. Na memória, ainda o cheiro tenro a leite e o corrilório de beijinhos com que escoava a loucura desse amor no seu bebé. Lúcio e a ansiedade do primeiro dia de escola. (mais…)

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Medricas

assin-lorde

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

medricas– Salta! Vá, vá não tenhas medo, vais ver que não custa nada…

– Não consigo! – Balbucia Zeferino, do alto.

Farto de ser humilhado pelos demais, Zeferino afoitou-se a subir para cima do barril e saltar para a água, provando à malta que também era capaz. Empoleirado, tentava não deixar transparecer o medo que sentia ao ver a altura do salto, mas sentia um terror enorme naquele mergulho de pouco mais de um metro. Não, não era apenas um metro, mas uma altura complicada para ele, pelo receio de cair mal. «Não gostava de correr riscos e daí?» (mais…)

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Louca Tentação

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

James, amor da minhlouca-tentacaoa vida!

Parece que foi ontem que te vi, no entanto, tanta água já passou debaixo da ponte.

Estava acompanhado pela minha esposa naquela manhã de Domingo. O desejo de um café fez-nos entrar. Enquanto o saboreava, espraiava a vista pelo ambiente repleto de gente que entrava e saía, subitamente como que hipnotizado, quedei-me. O meu olhar prendia-se agora à tua elegante figura. Senhor de ti, e rodeado dos teus iguais, certamente que não te apercebias do ar de basbaque com que te mirava. Um toque no braço para pagar a conta, acordou-me. Só então dei conta da figurinha que estava a fazer. Corei e censurei-me por essa minha fraqueza, ainda mais, por ter a meu lado a incomodativa presença da minha esposa. (mais…)

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A Prenda de Natal

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

A ténue luz prendada candeia a petróleo era ampliada pelos tocos de pinheiro, impregnados de cerne, que ardiam na lareira. Em cada um dos lados, uma panela de ferro fumegava. Em volta, o rosto corado de quatro crianças labutavam com uma malga de caldo com broa migada. O silêncio reinante era interrompido amiúde pelo estalar de uma ou outra cavaca, e o ruído das colheres, no vaivém de encher e levar à boca.

A um canto, um homem ainda novo olhava para a lide da sua mulher, na azáfama diária de fazer e servir a ceia aos garotos. Também ele esperava paciente pela sua malga de caldo. (mais…)

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