O Jantar da Junta

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   Corpo dengoso, nariz entupido, garganta seca, remelas que dificultavam o abrir dos olhos e uma irritação sem causa aparente fez Rufino acender o candeeiro para ver as horas. O vento lá fora zurrava fazendo levantar e baixar uma chapa meio solta no capoeiro. O som de uma trovoada ao longe desinquietou o cão que ajudava na chinfrineira ao arranhar na porta.

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Tourada

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Era rapazote quando viu pela primeira vez uma tourada televisionada no Campo Pequeno. Os garbosos cavaleiros vestidos com deslumbrantes casacas simbolizavam a nobreza de outros tempos. Figuras primeiras no cartaz, brilhavam com os seus magníficos cavalos, quer enfrentando o touro, quer na apresentação troteando ao compasso da música. Durante a lida do touro como a “sorte” corria a contento, as últimas bandarilhas eram acompanhadas pelos acordes da filarmónica.

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Felicidade

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Estou feliz, disse ela. Ele levantou os olhos da malga e sorriu. Enlevados olhavam para os pequenos que se iam debatendo com a tigela de sopa com broa migada. A luz da lareira, a instantes, afogueava os rostos contentes pela ceia. – Porque está feliz? – Perguntou o mais velhinho. – Estou feliz por podermos ir para a cama de barriga bem aconchegada. Como era fácil ver aquela mãe feliz, bastava para tanto ter com que fazer uma boa panela de sopa, e broa para acompanhar, para se deleitar com o ruído das colheres no vaivém de encher e colocar na boca. Não havia mesa, nem fazia falta, era sobre os joelhos que cada um acomodava a malga, aquecendo-os. Todos em volta da lareira olhavam para o tacho de barro em cima da trempe que a mãe mexia sem parar. Os primeiros “farrapos” já […]

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A Madrinha

      (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Pouco mais que um farrapo é como me sinto agora. Agora que finalmente não dependo de homem nenhum, olho para trás e suspiro. Suspiro pela escolha que não tive, quando na minha ingenuidade me deixei seduzir pela beleza e doces palavras que me soprava ao ouvido. Ele, galante, sedutor e homem maduro, brincou com o mais puro que tinha em mim. Eu pobre donzela enamorada deixei-me seduzir pelas promessas de um futuro a dois. Assim que a barriga começou a crescer, fui expulsa da casa onde servia. Sem ter onde morar, implorei-lhe ajuda. Não a negou, mas a ajuda que me propôs foi a mais triste da minha vida. Disse que era muito nova para ter um filho e que conhecia uma parteira… Chorei como nunca o havia feito e perante as minhas súplicas atirou-me meia dúzia de notas para cima da cama. O meu […]

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A Luz Da Caniceira

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Para mim, era uma pesquisa com razão de ser. Para outros, era coscuvilhice enraizada de quem não tem mais em que se ocupar. Mas esse acontecimento martelava-me a cabeça a ponto de chegar a sonhar com ele. Munido de muita perseverança, avancei cheio de fé, de que haveria de deslindar o mistério. Os entraves à pesquisa deram-me o alento necessário para continuar, mormente o escárnio de alguns. Assim, contra tudo e contra todos, dirigi-me à velhinha e carunchosa biblioteca do lugar. Depois de muitas tossidelas e muitos alfarrábios tirados do lugar, dei comigo a pensar como era possível tal fenómeno não estar registado naquelas bolorentas páginas. Frustrado por não encontrar nada naquele monte de livros, exprimi em voz alta o meu desalento. – Não desanime meu jovem. – Tentou animar-me o velho Alfredo – porque não tenta o alfarrabista da Vila. Ele tem o […]

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A Defesa do Ladrão

         (Povoeiras  – Tocha – Coimbra – PT) – Face ao exposto neste tribunal e perante a gravidade dos factos, antes de proferir a sentença, convido o reu, a dizer o que entenda por bem em sua defesa. – Muito obrigado senhor doutor juiz, pela oportunidade que me faculta, uma vez que, sem menosprezar o digno doutor que me representa, entendo que a dor só dói ao paciente.

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Um Dia Para Esquecer

        (Povoeiras  – Tocha – Coimbra – PT) A disputa pela melhor fenda era feita no maior recato, e nada em cima fazia prever que quatro garotos se entregavam de alma e coração a uma aula de anatomia sem habilitações para tal, todavia, o interesse demonstrado compensava sobremaneira a dificultosa observação. Tão absorvidos estavam que nem o barulho da carroça do senhor Aníbal os alertou da sua chegada.

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Tonito

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   O ar farrusco da manhã fez Rufino enrugar a testa. Saiu, perscrutou o horizonte, espraiando o olhar pelo cume da serra. A indecisão transformou-lhe o rosto numa careta, e com uma sonora fungadela retrocedeu nos passos calcorreados, entrando na adega onde se muniu da velha samarra de gola com pêlo de raposa. Agora sim, estava pronto para enfrentar a má disposição do mês de Fevereiro.

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A Dívida

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Desesperado fui ter com o médico da preguiça. – Da preguiça? – Sim, o tal que nos manda deitar e, sentadinho sem mexer uma palha, vai entabulando uma conversa para nos fazer falar. Lá falar até falei, acho até que falei demais. Olhos no tecto mirando o formato do candeeiro, ia deitando pra fora, a raiva, o temor a angústia, até que me secou a garganta.

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O Coxo

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)   Alfredo Carriço teve uma juventude desafogada quando comparado com os outros rapazes da mesma idade. Numa altura em que ter uma simples bicicleta era um luxo, já Alfredo fazia roncar a sua Famel, uma motorizada de três velocidades.

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