Bruxas Não Existem

 

 

 

 

 

 

Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre, RS, ⇑1937 / ⇓2011)

Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de “bruxa”. (mais…)

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O Perna de Pau

 

 

 

 

 

Henrique Maximiano Coelho Neto (*1864 Maranhão / +1934 Rio de Janeiro)

 

Já grisalho, alto e magro, olhos miúdos e negros, mas de um brilho estranho, viam-no todas as manhãs passar à porta do colégio com uma grossa e nodosa bengala.

Conheciam-no pelo toc-toc da perna de pau; e logo, chamando-se uns aos outros, corriam todos os meninos às grades, e, quando o inválido passava, rompiam em assuada: — Oh, perneta!

Ele sorria docemente; os seus olhos bravios, de uma expressão feroz, ameigavam-se; e, longe de agastar-se, tirava o seu grande chapéu de abas largas e fazia uma barretada, não sei se para brincar com os pequenos, se para lhes mostrar os cabelos brancos. (mais…)

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Drama Humilde

 

 

 

 

 

Henri René Albert Guy de Maupassant – (França 1850-1893)

Os encontros dão encanto às viagens. Quem nunca terá sentido a alegria de, a cinquenta léguas do torrão natal, inesperadamente dar de rosto com um parisiense, um colega de colégio, um vizinho de campo? Quem não terá passado uma noite, de olhos abertos, na pequena diligência tilintante das regiões onde o vapor ainda não chegou, ao lado de uma desconhecida apenas vislumbrada à luz da lanterna, no momento em que subia no veículo, à porta de uma casa branca, numa cidadezinha qualquer? (mais…)

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A Aia

 

 

 

 

José Maria Eça de Queiróz (Portugal  *1845 – +França 1900)

Era uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.

A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começava a minguar, quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, trespassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio. (mais…)

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O Velho Rei

 

 

 

 

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro – 1865 – 1918)

Houve, em tempos que já vão longe, um rei poderoso, senhor de muitos povos e de muitas léguas de terra. Ainda que viajasse sem cessar por muitos anos a fio, não conseguia ele correr todos os seus domínios. E todos os povos o temiam, porque era conhecida de todo o mundo a fama das suas riquezas. De mês a mês, chegavam a seu palácio os emissários dos súditos, trazendo-lhe, com as homenagens deles, os presentes riquíssimos: marfim e pérolas, ouro e diamantes, sedas e rebanhos. E os seus celeiros estavam tão abundantemente  providos de grãos, que ele poderia, numa época de fome geral, abri-los a todos os seus vassalos, que não tinham conta, alimentando-os fartamente durante todo um ano. (mais…)

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Aventura da Memória

 

 

 

 

 

Voltaire –  (França 1694 – 1778)

O gênero humano pensante, isto é, a centésima-milésima parte do gênero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou pelo menos por muitas vezes o repetira, que nós não tínhamos ideias senão por intermédio dos sentidos, e que a memória era o único instrumento com o qual podíamos reunir duas ideias e duas palavras. Eis por que Júpiter, símbolo da natureza, se enamorou, à primeira vista, de Mnemósine, deusa da memória; e desse casamento nasceram as nove Musas, que inventaram todas as artes.

Este dogma, no qual se fundam todos os nossos conhecimentos, foi universalmente aceito, e até mesmo a Nonsobre o adotou, embora se tratasse de uma verdade. Algum tempo depois surgiu um argumentador, metade geômetra, metade lunático, o qual se pôs a argumentar contra os cinco sentidos e contra a memória. E disse ao reduzido grupo do gênero humano pensante: (mais…)

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Da justiça à democracia, passando pelos sinos

 

 

 

 

 

José Saramago (Portugal 1922 – Espanha 2010)

“Certo dia, numa aldeia dos arredores de Florença estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.’ ” (mais…)

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