Mate-me, Querido

         (Salvador – BA) – O problema deve ser bem esse. Dei um pulo de susto. Estava tão distraído com um livro de poemas do Bukowski. Eu não estava sozinho, mas estava sozinho apenas no banco… o resto da praça estava a maior festa… uma bandinha tocava músicas de carnaval. Muitos casais se agarrando, bêbados e felizes… grupinhos de hipsters dançavam como índios invocando a chuva.

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Pedaço de Papel Encontrado

        (Salvador – BA) “PEDAÇO DE PAPEL ENCONTRADO NUM GUARDA-ROUPA DA CASA QUE MEUS PAIS ALUGARAM”   Eu sou “Peach”. Não é meu nome verdadeiro, obviamente. Se você encontrou esse papel, é porque algo terrível aconteceu. Melhor dizendo…, pessoas morreram. Portanto, parte de mim espera que você tenha encontrado. E parte de mim, não. Minha história é curta e não tem nada de grandiosa. A única coisa grandiosa é a bizarrice, que a assola e que assola todos os meus desejos e prazeres. Sempre fui muito tímida e tive poucos amigos…, se é que poucos amigos e nenhum, passaram a significar a mesma coisa. Com treze anos fiquei bonita. Sou bonita. Tenho lábios rosados, olhos azuis, uma separação entre os dentes que é charmoso, sou magra, mas tenho seios grandes, uma boa bunda… Senti que minha sorte mudaria nessa idade, e à princípio achei que realmente estava tudo ficando melhor, quando conheci […]

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Duda Provou Crack, (E Achou Um Barato…)

        (Salvador – BA) Quando Duda provou crack, ela me disse que sentiu uma tremedeira, um ecstasy, um barato ligeiro e muito intenso. Alguns minutos depois ela sentiu vontade de ter aquilo dentro de si pelo resto da vida e o pouco de racionalidade que ainda tinha lhe dizia que isso não era possível, porque nada na vida, nenhum tipo de alegria, – sintética ou não – pode se alojar dentro de nós o tempo inteiro… esta consciência de finitude, com relação ao barato do crack, lhe gerou muita angustia, tristeza extrema e mais do que tudo isso, uma ansiedade incontrolável de voltar a usar a droga. ********** Cinco anos depois eu soube que Duda tinha saído pela terceira vez de um centro de reabilitação e que andava recitando poemas de Fernando Pessoa nos ônibus que iam do Iguatemi até a Estação da Lapa, então, uma vez por semana, eu fazia o […]

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Dois Degraus Do Bistrô

        (Salvador – BA) As escadas, eram duas apenas…, eram grandes, largas e irregulares. Mas bem visíveis. As pessoas podiam vê-las de uma longa distância. Mas aquela moça gordinha não viu. Estava distraída e acabou tropeçando. De seu corpo estirado, – metade entre os degraus, metade na calçada de pedra – escorria um filete de sangue escuro, quase roxo. Algumas pessoas se aproximaram e pararam em sua volta… Uma senhora deu dois passos pra trás, para que o filete de sangue pudesse passar livremente, e também para que o mesmo não acabasse sujando suas sandálias, que eram brancas e recém lavadas. O casal cochichava… perguntavam-se distraidamente, em meio a beijos e abraços, se ela estava mesmo morta, se tinha desmaiado, ou se queria apenas chamar atenção. Um sujeito alto e muito magro, fumando um cigarro e muito bem vestido, se manteve afastado de tudo, encostado no muro do outro lado da rua […]

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A Ruiva do Pijama Listrado

        (Salvador – BA) (um conto para Isadora. “Uma careta e um sorriso”.)   – E o que você fez? – Perguntou o amigo da professora. Eles estavam frente a frente, na sala de visitas da delegacia. Ela seria transferida para a segurança máxima em breve. Ela vestia aquelas roupas típicas de presidiárias. Aquele tipo de roupa que era melhor que se desenhasse um alvo nas costas…, mas ela sorria… sorria o tempo inteiro. Seus cabelos estavam soltos e ruivos. Pareciam mais ruivos do que nunca. – Ele gritou de dor… – Ela disse sorrindo lindamente. Seu amigo queria rir. Na verdade sua boca moveu-se instintivamente formando um sorriso tímido e ligeiro. Uma boca querendo incentivar o corpo inteiro a desabar numa gargalhada feroz. Uma gargalhada de vitória. Sim… Era uma vitória. Ela sempre fora uma campeã. Mas o riso deve de ser disfarçado com uma fingida tosse fajuta. – Ele me […]

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O Armazém Maldito

        (Salvador – BA) Sara olhava o portão daquele lugar… Que mais se parecia um armazém. Nunca via abrirem a porta. Dentro dele, Jeremias tentava dormir…, mas a dor lancinante lhe despertava. Era um pulsar dolorido, que fazia tremer seu ventre e eriçar seus pelos… Ele quase conseguia berrar, por trás do esparadrapo que sufocava sua boca suja.

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O Pequeno Relato Sobre o Meu Patrão Assassino

        (Salvador – BA) Memorandos, cartas, contas a pagar, telefonemas, marcação de consultas, reuniões. Jantares com sua esposa… jantares com suas amantes. Está tudo aqui neste meu arquivo. Uma pequena pasta e algumas subpastas, arquivos dentro de arquivos, dentro de arquivos, dentro de outros arquivos. Informações que deixam sua vida em minhas mãos, é o que parece. Já que eu sei tudo sobre ele.

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