O Necrotério

 

 

 

 

(Fortaleza – CE)

Contava-se aproximadamente às 00h15min quando ele, apressadamente, chegou ao trabalho. 15 min atrasados do seu horário habitual. Atuava, há exatos seis anos, no único necrotério da cidadezinha do interior onde morava desde nascedouro. Dava-se melhor com os mortos, diziam.  Ia quase que religiosamente ao ardo ofício. De segunda a sexta, no turno da noite, labutava na higienização daqueles que já não mais estavam. Acostumou-se àquilo. O contato direto com os mortos não o assustava.  Fascinava-se até. Não com a morte em si, mas com as fabulações que criava ao vê-los. Muitas das vezes, imaginava como ia à vida deles. (mais…)

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O Papel, os Subterfúgios e a Luz

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(Fortaleza – CE)

hospitalSaíra do hospital Chagas Nobre atônita, demasiadamente taciturna. As lágrimas, sufocadas, anestesiaram seus pensamentos. O olhar paralítico, estático, fitava um ponto qualquer da rua oposta da qual se encontrava. A mão esquerda segurava quase sem força um papel. O papel. A outra mão buscava desesperadamente acariciar algo. Um algo que ela não sabia bem. Este instante espaço de concatenar sua existência somente fora interrompida pela frenética buzina de um corsa prata que passava.

“Sai da frente, quer morrer sua louca”. (mais…)

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O Tiro

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(Fortaleza – CE)

Um tiro. Apenatiros um tiro. Um feixe de aço penetrara em seus músculos não tão gastos. A prestação do carro, o financiamento da casa outrora sonhada, as contas domésticas, o curso de línguas do Gustavo, o primogênito, o beijo adiado na esposa… Tudo ficara entre a carne esburacada e a bala. Apenas uma. Indefinida. Letal e silenciosa.

“não vais tomar café? Vai esfriar” (mais…)

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O Porta-retrato Azul

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Helder Felix

(Fortaleza – CE)

Todos os dias e, quase sempre no mesmo horário, Tania colocava a água para ferver. Sabia que o filho adorava tomar café quando chegava da universidade. Distração boa depois das obrigações diurnas. Recém-ingresso em economia, ainda não se habituara por completo a nova rotina. Diariamente, ele acordava às 09h30min da manhã. Daí, as ações eram metricamente calculadas a fim de evitar atrasos quanto à condução da tarde que cotidianamente tomava para chegar ao curso. Orgulhosa, Tania acordava antes do filho e preparava-lhe o desjejum.

“a benção, mãe”.

“Deus te acompanhe meu filho”

E, assim, despediam-se momentaneamente. (mais…)

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Defronte ao Mar de Iparana

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Icaraí

Helder Felix

Fortaleza – CE

Deitado em uma rede, defronte ao mar de Iparana, rememoro em flashes recortados a imagem que vi em uma sexta-feira qualquer. Estava eu dentro de uma sardinha de aço, ferro e plástico que comumente chamamos de automóvel quando de repente me deparei, após parar o carro em um semáforo para pedestres, com um grupo de homens, principalmente velhinhos, dispostos em círculo irregular no canteiro central de uma das principais avenidas de nossa terra alencarina.

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